Entre o canudo de metal e ser antirracista
Segunda-feira, 2 de março de 2020

Entre o canudo de metal e ser antirracista

Imagem: Marcello Casal Jr / Agência Brasil – Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Rochester Oliveira Araújo

 

No meio do bloquinho, sigo eu fantasiado de Lula Livre – que me garantiu alguns abraços e muita purpurina vermelha na barba – quando encontro alguém fantasiada de Greta Thunberg. Um grande encontro carnavalesco que rendeu um abraço e uma foto para as redes sociais. Antes do tchau, a amiga da Greta ainda fala alegre “que bom que você trouxe seu copo de casa, ou ela ficaria furiosa”. Algum tempo depois, encontro um casal que vendia bebidas em um isopor comercializando também canudos de metal. Achei curioso, sobretudo porque só restavam poucas unidades no tabuleiro. A pauta ambiental estava na avenida. Outras fantasias me chamaram a atenção, seja pelo péssimo gosto e preconceito (como sair vestido de “bandido” que exigia uma peruca de cabelo crespo na composição) ou pela velocidade da criatividade (escavadeiras, corona vírus etc).

 

 

Acabou o carnaval, começou o ano. O carnaval das fantasias, alegorias e homenagens que é o mesmo carnaval da apropriação cultural, racismo estrutural e falsa democracia racial. É um dos momentos que o brasileiro se sente integrado, compartilhando dos mesmos valores por saber cantar um hino de uma escola de samba, por habitar as ruas e ocupar as avenidas sambando um mesmo ritmo. É um momento em que a questão racial se torna paradoxal: de um lado é quando menos se vê a identidade branca brasileira, de outro é quando mais a branquitude se revela. No carnaval, como diria o livro de Liv Sovik, “aqui ninguém é branco”. As pessoas se identificam com a tradição do samba, da percussão e das referências de raízes diversas do norte ao sul do país.

 

Embora seja um momento muito propício para epifanias críticas, reconhecimento da branquitude e dos privilégios que dela emanam, é mais comum ser um momento de reforço de uma função colaboracionista do racismo. Era possível, por exemplo, olhar a exclusão racial que estampa desde os camarotes até os blocos de rua. Perceber o contorno formado de pessoas pretas que seguem puxando uma corda que isola aquelas pessoas brancas que curtem sua festa. Ou quem são as pessoas que ficam catando as latinhas espalhadas ao longo do percurso. Na festa, tudo isso passa mais despercebido para a maioria. O que não pode passar despercebido são as resistências culturais e a vivência do carnaval como forma de recuperar as tradições e discutir questões raciais. Desde a abordagem provocativa das grandes agremiações carnavalescas no sambódromo do Rio de Janeiro e de São Paulo, passando pela tradição do Ilê até as manifestações menores pelo Brasil afora.

 

Se retornamos ao tema do racismo é porque ele é tão urgente quanto difícil de ser enfrentado. Encarar o racismo é, para alguém branco, um desafio contínuo e um esforço que exige comprometimento e abertura à crítica. Recentemente me deparei com uma abordagem incrível e provocativa feita através de um podcast chamado História Preta, produzido e apresentado por Thiago André. Peço licença para reverberar as palavras dele a partir do meu lugar e difundir o quanto for possível as questões levantadas pelo colega. Sobretudo um episódio que me trouxe de volta ao início do texto, sobre a fantasia da Greta, os canudos de metal e o nosso papel nisso tudo.

 

No episódio nomeado “O elefante na sala”, saindo um pouco do formato do podcast História Preta, o Thiago André apresenta um desabafo doloroso sobre o assassinato de Ágatha, uma garota de 08 anos no Rio de Janeiro. No episódio ele estabelece uma relação entre a morte de Ágatha, uma criança preta, e a vertiginosa ascenção da vida de Greta, uma menina branca. É uma relação que eu não sei se posso chamar de paralela, pois me parece muito mais perpendicular: cada história segue uma linha e direção bem diferente uma da outra. Ouça o episódio que além do lugar de fala mais apropriado que o meu para falar de racismo, o Thiago André tem uma insuperável didática e tantas outras coisas que são muito melhores transmitidas pela experiência da escuta do que da leitura. Indico fortemente só continuar a leitura do texto após ouvir o Podcast.

 

Leia também:

O que a guerra às drogas tem a ver com a morte de Agatha?O que a guerra às drogas tem a ver com a morte de Agatha?

De toda forma, a provocação que mais me angustiou – e esse é o efeito mínimo que devemos ter ao viver uma sociedade racista – é a de discutir porque temos um fenômeno surpreendente a partir de uma menina branca, rica, vinda do norte global, que chega em pouco tempo à concorrer ao prêmio Nobel da Paz por se recusar à ir à escola em protesto a favor da pauta ambiental, enquanto, aqui, no sul global, uma menina preta é assassinada justamente tentando ir à escola, sem que isso reverbere da mesma forma. E quando falamos em reverberar não estamos falando de uma exploração midiática, mas da capacidade de provocar mudanças de comportamento nas pessoas.

 

Concomitante com subida da pauta ambientalista, da trajetória da garota Greta e outras condutas que passamos a ver comportamentos sendo mudados. Vejo cada vez mais pessoas passando a ter pequenos gestos que buscam colaborar com o movimento pró-terra, por exemplo. Eu mesmo já tenho meu canudo de metal que comprei, embora tenha ganhado mais uns outros dois ou três de presente. Estimulado por colegas, deixei de usar sacolas plásticas em supermercados e reduzi drasticamente o consumo de carne, enquanto aumentei o consumo de produtos provenientes da agricultura familiar.

 

A pauta ambiental é importante, sim. Não estamos negando isso ou reduzindo. Não se trata de pautar com maior ou menor importância a luta ambiental em comparação ao racismo. E mesmo que fosse, me filio ao pensamento do Thiago André que destaca que a pauta ambientalista é uma agenda recente e voltada para evitar uma catástrofe futura – ainda que de um futuro muito próximo. Já o racismo é uma pauta urgente há séculos e que busca parar um genocídio negro do presente. Mas, como soa óbvio dizer, não são pautas excludentes. Ao contrário, são muito mais próximas e capazes de formar um bloco, uma união contra as diversas formas de opressões. Na luta, há espaço para todos, concorda?

 

Mas se concordamos que há espaço, urgência e importância tanto na luta contra o racismo como na pauta ambientalista – entre tantas outras que poderiam ser lembradas – me conta aí, o que você tem feito contra o racismo? Qual é o seu “canudo de metal”, aquele gesto que parece ser pequeno no âmbito individual, mas que te faz sentir agindo em favor de uma causa, na prática? Em qual momento a sua luta intelectual contra o racismo se filia à sua conduta, sua vivência, sua prática contra o racismo estrutural?

 

Na luta contra o racismo, é muito difícil encontrarmos esses pequenos gestos sendo praticados e reverberados pela sociedade. Ainda que eles ocorram, parece que nos habituamos ao mínimo de esforço necessário, aquelas condutas que servem no máximo para nos isentarmos da acusação de sermos racistas. Ou seja, modulamos condutas e comportamentos para evitar que nossa postura individualmente tomada possa ser identificada como racista. E esse tipo de ação é o mínimo que avançamos justamente por encarar o racismo como sendo a consequência de posturas individuais, como casos isolados que nos deparamos no cotidiano e que seriam decorrente de pessoas com condutas reprováveis. Faço minha parte, é o lema.

 

O racismo individual existe, sim. Mas não é ele sozinho quem provoca a morte de Ágathas. É o racismo estrutural que todxs nós participamos que faz isso. Por isso, negar a existência e o nosso papel dentro de uma sociedade racista é tão pertubador. Confundimos o nosso papel assumindo uma culpa – subjetiva, que provoca uma negação ou inação – no lugar de assumirmos a responsabilidade, que permite ações. É a partir dessa dimensão que podemos pensar em ser antirracistas e ter atitudes positivas que busquem alterar o quadro atual.

 

O mais complicado ainda sobre a luta contra o racismo é que nossos pequenos gestos – os nossos canudos de metal – contra o racismo, quando praticados, no máximo buscam neutralizar uma situação de racismo evidente. Imaginemos que exista um gráfico onde duas forças opostas atuam sobre um corpo: uma força puxa para baixo que atua como o racismo, e uma outra força empurra para cima. No meio do gráfico, haveria uma linha bem definida que separe uma sociedade racista de uma não racista. Abaixo dessa linha, as situações vivenciadas são a da opressão e desigualdade por conta do racismo. Acima dessa linha, são situações onde não se experimenta o racismo. Até hoje, por mais que haja uma luta forte contra o racismo, ainda estamos lutando para buscar neutralizar a força que puxa para baixo, para nos afastarmos do fundo. Ou seja, nossas condutas, por mais positivas que sejam, buscam ainda neutralizar uma força negativa, sem corresponder à uma ação efetivamente positiva.

 

Leia também:

Isso é RACISMOIsso é RACISMO

Quando nos limitamos à impedir a ocorrência do racismo no cotidiano, não fazemos nada mais que o nosso dever. O grande problema é que o racismo, por ser estrutural, se adaptou muitíssimo bem à essas posturas mínimas de enfrentamento, à sobreviver apesar desse “fazer o nosso dever”, à sobreviver mesmo com esse esforço de neutralizar a força que puxa para baixo. Quando, por exemplo, nos opusemos à uma piada racista ou mesmo uma postura individual injuriosa racista, enfrentamos o racismo do cotidiano a partir do nosso dever. Buscamos neutralizar a situação de agressão ou violência que já está atuando. Não estamos empurrando para cima, somente tentando neutralizar um racismo que já está em curso na força negativa da sociedade.

 

Até posturas que hoje se mostram mais progressistas e supostamente vanguardistas conseguem, no máximo, neutralizar o racismo já atuante. Li recentemente que algumas empresas, por exemplo, passaram a adotar nas suas entrevistas de emprego métodos que evitem que o entrevistador discrimine o candidato por sua cor. Para isso, até entrevistas “às cegas” eram adotadas. Embora haja um esforço, como não reconhecer que se é necessário “cegar” alguém para que ela não tenha uma postura racista, o esforço é somente para neutralizar uma ação negativa sem, de fato, provocar uma ação positiva?

 

Talvez o campo em que o debate sobre ações efetivamente antirracistas tenha sido mais desenvolvido seja o setor público, através do reconhecimento das ações afirmativas. Surge a partir da responsabilização do Estado em tomar medidas que não se bastem em não serem racistas, mas efetivamente combatam um racismo estrutural. Mas e a responsabilidade individual de buscar igualmente ações positivas contra o racismo? Quando passarmos a adotar posturas antirracistas, desde pequenos gestos até os maiores passam pela dimensão racial. Não só a contratação de pessoas negras, por exemplo, reconhecendo que até os métodos de avaliação que usamos hoje são pautados a partir de uma régua branca que busca medir uma meritocracia racista, mas também as nossas interações afetivas, nossos grupos de convívio, nosso dia-a-dia.

 

É preciso romper um pacto narcisístico da branquitude (Cida Bento), onde sempre prestigiamos os trabalhos, a arte, o entretenimento, o afeto e todas as demais dimensões da nossa vida desenvolvidos pela parcela branca da sociedade. Ainda que a luta antirracista seja também uma luta contra o sistema capitalista, é preciso consumir arte, obras, entretenimento e trabalho do povo negro. É preciso ter em mente que o esforço para ser antirracista exige uma atenção contínua. É preciso estar atento e forte. Ainda, é preciso se valer dos privilégios que temos para fazer ressoar o discurso, as obras e outras questões a partir do nosso local. E é preciso provocar os nossos para que tenham o comprometimento com uma pauta antirracista.

 

Se entre tantas e tantas opções você não encontrar o seu canudo de metal na luta contra o racismo, onde você poderá aliar seu discurso antirracista com práticas, você pode começar colaborando com as práticas já existentes. O próprio podcast que me provocou essa escrita (@historia_preta) aceita colaboração para continuar o trabalho na podosfera através de uma plataforma de crowdfunding. Você pode colaborar com algum coletivo ou outra iniciativa que tenha práticas antirracistas. Comprar e ler obras de autorxs negrxs. Pode começar, como sugestão, pelo pequeno manual antirracista da Djamila Ribeiro, por exemplo. São diversas as possibilidades para quem quer se responsabilizar em uma luta antirracista.

 

Ser antirracista é sair de uma negação da branquitude, passando pelo seu reconhecimento, e partir em direção a uma negação da função social que ser branco implica. Ser branco não é uma cor, exatamente. É uma condição para acessar essa função (Liv Sovik). A branquitude é um lugar de fala que estabelece uma hierarquia social, um lugar de fala e mando, em geral. Daí a importância de assumir compromissos na luta antirracista que ultrapassem a negação do racismo individual. Se eu pertenço ao status quo, não ser racista só me manterá em uma sociedade racista. É preciso muito mais.

 

 

Rochester Oliveira Araújo é mestre em Direito Constitucional e Defensor Público do Estado do Espírito Santo.


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Segunda-feira, 2 de março de 2020
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend