“Zhenshchina mozhet vse!”, sim, senhores!
Segunda-feira, 2 de março de 2020

“Zhenshchina mozhet vse!”, sim, senhores!

Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Vanessa Ribeiro do Prado

 

“Há um momento na história de toda emancipação – pessoal ou coletiva – em que se sente um disparo interno, um clique. Trata-se de um pequeno, mas preciso, movimento da mente ou da alma, também provocado por um fato ou episódio irrelevante, por uma palavra, um gesto, uma sensação. (…)

É o momento em que se pensa ter conseguido, em que se acredita que uma situação de desigualdade inicial foi superada. O clique mal é perceptível, mas desencadeia uma grande, imediata e, aparentemente, irracional sensação de liberdade. Como se quem o registrasse tivesse por fim conquistado um direito pessoal ou coletivo de propriedade sobre a própria existência” (ARMENI, 2019, p. 177/178 – destaque do original¹).

 

 

Ritanna Armeni é jornalista e autora de diversas obras de não-ficção. Estudiosa e atuante no/do campo político e histórico, Armeni nos conta, em As Bruxas da Noite, a história, propositalmente apagada, das recrutas do regimento soviético 588.

 

A obra é baseada em entrevistas feitas pela autora com a última das bruxas ainda viva, contando com 96 anos, à época, Irina Rakobolskaya. Irina foi vice-comandante do regimento e chefe da equipe. É esta admirável e forte mulher que nos conta a história das “Bruxas da Noite”, como foram apelidadas, ela e suas companheiras, pelos soldados alemães. Após a guerra, Irina tornou-se professora universitária adjunta de física, e, na velhice, professora emérita. Com cerca de trezentas publicações versando sobre física nuclear e raios cósmicos, sempre esteve à frente de grupos e conselhos de Mulheres Acadêmicas. 

 

“- Depois descobrimos que os alemães nos chamavam de Bruxas da Noite, Nachthexen! (…) Mas eu gosto, nós gostávamos de dizer bruxas e pensar que nos definiam assim porque não conseguiam nos derrubar – conta a velha senhora.

 Clique”. (ARMENI, 2019, p. 177/178 – destaque do original)

   

Criado em 1941, o regimento aéreo feminino russo apenas foi autorizado por Stálin após as súplicas de Marina Raskova, pilota já experiente e ícone russo, condecorada por bater o recorde de voo feminino sem interrupção, mesmo em um contexto catastrófico que quase lhe custou a vida. A ousada Marina representava o grupo de mulheres que, com a eclosão da guerra, sentiam-se inúteis em suas casas e trabalhos e desejavam combater e servir à Grande Pátria. 

 

As moças soviéticas, como seus companheiros, também haviam sido treinadas para o embate e frequentado cursos para artilheiros, paraquedistas e pilotos, e, no entanto, com o início da guerra, recebiam apenas recusas dos centros de alistamento. Eram mulheres inconformadas, cujas consciências começavam a despertar ao se questionarem sobre a aplicabilidade da fervorosa igualdade de gêneros que a sociedade socialista, em teoria, tanto ostentava. Na realidade, o partido, diante da guerra, as queria como mães e esposas, ou, no máximo, como enfermeiras e telefonistas.

 

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Reza a lenda que após muitas negativas, descrenças e descasos de Stálin e seus comandantes, que colocavam em dúvida a capacidade das mulheres para pilotarem aviões e bombardearem o inimigo, Marina se exalta e, batendo na mesa, exclama: “Zhenshchina mozhet vse!”, “uma mulher é capaz de tudo!”. Por fim, acaba convencendo o líder soviético e é ordenada a criação de três regimentos femininos (caças bombardeiros, bombardeiros, e os Polikarpov, para bombardeio leve noturno).

 

O que se passa, a partir de então, nos é contado em detalhes por Irina, já que se trata de sua própria história e de suas companheiras. Formado apenas por mulheres, o regimento 588 não conseguiu escapar do tratamento desigual a que eram submetidas, sendo exigido do grupo feminino sempre o dobro de trabalho e esforço, se comparados aos demais, masculinos. Além disso, conviveram com inúmeros comentários machistas e humilhações perpetradas por seus “companheiros” (homens de outros regimentos e/ou superiores hierárquicos). As recrutas, entretanto, jamais abaixaram a cabeça para nenhum deles, mesmo que à noite, sozinhas, compartilhassem lágrimas, medos e inseguranças. A ironia e hostilidade masculina fizeram com que o regimento feminino adotasse, com disciplina militar, a proibição de contato entre os sexos.

 

“Fizemos um máximo de 325 voos em uma noite e queríamos fazer cada vez mais. Vinte e três mil em toda a guerra. Sim, claro, por patriotismo, mas também porque queríamos superar os homens”. (…) Os homens combatiam por dever e, por isso, obedeciam cegamente às ordens. Nós não queríamos ser iguais, queríamos ser melhores; queríamos fazer mais e melhor. Por isso, todo dia aumentávamos o número de saídas. As nossas meninas choravam quando eram dispensadas de algum voo” (ARMENI, 2019, p. 168-169. Destaque do original). 

 

A história das Bruxas da Noite é permeada de aprendizado, superação, companheirismo e lealdade, mas também de pavor, preconceito, opressão, perdas e mortes. A experiência de mais de 23 mil voos entre 1941 e 1945 rendeu às bruxas marcas eternas e o reconhecimento que almejavam, já que foram extremamente hábeis e eficazes nos ataques ao inimigo. Porém, finda a guerra, a velha história se repetiu: assim como na Revolução Francesa, as mulheres se perceberam traídas pela pátria a que serviram. Vencida a batalha, o recado era claro: esquecer tudo o que fora vivido até ali. “Dizem que já deram tanto, que a pátria não quer que continuem a se extenuar em tarefas que eram – e é bom que voltem a ser – dos homens. (…) A guerra foi apenas um parêntesis” (ARMENI, 2019, p. 227). E não é difícil convencer a maioria das mulheres de que a União Soviética, agora, necessita ser reconstruída pelas estimadas e imprescindíveis “mães da pátria”. 

 

Assim, não é permitido que o Regimento Feminino continue a existir e, as inconformadas, como Irina, se veem perdidas e obrigadas a reconstruírem suas vidas para que possam conseguir alguma renda e, ao menos, sobreviverem. 

 

Mais uma vez, presenciamos a traição e o apagamento de mulheres por homens. Mais uma vez, a história foi mutilada por machos supostamente ameaçados pela liberdade feminina. E, mais uma vez, o passado retoma seu lugar com as palavras de mulheres corajosas, que trazem à tona a verdadeira faceta dos conflitos e fatos históricos. Obrigada, Rittana Armeni. O regimento 588 ficaria orgulhoso de você.

 

 

Vanessa Ribeiro do Prado é advogada, bacharel em Direito pela Libertas Faculdades Integradas.


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Notas:

[1] ARMENI, Ritanna. As Bruxas da Noite: a história não contada do regimento aéreo feminino russo durante a Segunda Guerra Mundial. Tradução: Karina Jannini. – São Paulo: Seoman, 2019.

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