As crises do policial deslocado
Segunda-feira, 9 de março de 2020

As crises do policial deslocado

Imagem: Vladimir Platonow / Agencia Brasil

 

Por Martel Alexandre del Colle 

 

Você já deve ter visto algum daqueles filmes em que o protagonista deseja entrar para uma força militar. Ser um marinheiro, um piloto, um fuzileiro. É provável que você tenha visto, ou ao menos ouviu falar, do filme menina de ouro, no qual uma moça começa uma carreira no boxe. Deixando mais próximo, você provavelmente assistiu o filme Tropa de Elite, no qual dois jovens entram para a polícia e desejam entrar para as forças especiais do Rio de Janeiro.

 

 

A minha pergunta é: por quê? Por que razão as pessoas desejam essas carreiras? Por que tais caminhos têm tanto apelo nos dias de hoje, principalmente nos jovens?

 

E para responder tal pergunta, precisamos falar sobre drogas. Nós tivemos um hiato no desenvolvimento científico a respeito das drogas. Até mais ou menos a década de 1920, muitos países não criminalizavam o uso de nenhuma droga. Entretanto, os índices de violência relacionados às drogas eram baixos. A forma padrão de tratar o usuário era com a medicina, quando este precisava. A maioria das pessoas usavam drogas de maneira recreativa sem causar grandes danos a sociedade e a elas mesmas. Eu sei que é difícil imaginar tal realidade quando nascemos na era da criminalização. 

 

Com a criminalização a violência explodiu em todo o mundo. No começo aqueles que eram favoráveis à criminalização diziam que isso era um efeito temporário, algo que existiria nos primeiros anos até que as drogas fossem extintas. Sabemos que esse efeito jamais passou. Vimos cartéis e facções dominarem os mercados ilegais e crescerem como nunca vimos antes. Bom, a relação do ser humano com as drogas é muito antiga, e, obviamente, muitas pessoas estudaram essas substâncias antes da década de 1920. E o que eles concluíram não corroborava a tese de que criminalizar as drogas seria uma solução.

 

Esses estudos e esses cientistas foram apagados da história. No lugar entraram os cientistas que defendem a tese da droga dos zumbis. Segundo essa corrente, os compostos químicos das drogas são tão poderosos que qualquer pessoa que experimentasse se tornaria um zumbi capaz de fazer qualquer coisa para conseguir mais daquela substância.

 

O problema é que esses resultados não corroboram a realidade. Diversos soldados utilizavam drogas durante a guerra do Vietnã. O governo tentou proibir a maconha, então a heroína se tornou a droga mais utilizada. Quando a guerra estava prestes a acabar, uma preocupação tomou conta dos cidadãos americanos: o que faremos com tantos viciados quando eles voltarem? O governo já previa um surto de violência com a volta dos militares. Mas tal surto não ocorreu. A esmagadora maioria abandonou o vício em menos de um ano após o retorno.

 

Novos cientistas começaram a realizar estudos que se aproximavam mais da realidade. Estudos que mostravam que o problema não está meramente na química – na verdade a química é a menor parte do problema. O vício possui um fator social muito maior do que imaginávamos. Hoje em dia, abundam estudos que revelam que a maioria dos adictos em drogas sofreram algum tipo de abuso na infância. Crianças que foram espancadas, estupradas, trancadas, abandonadas, compõe grande parte dos adultos viciados.

 

São tantas evidências que a única forma de manter a proibição é mentir. Se o maior problema fosse a química, então os adesivos de nicotina teriam sido a grande solução para o vício em cigarro. Entretanto, os adesivos alcançam uma taxa menor do que 20% de sucesso. 20% é algo importante, mas, repito, o fator químico não é a principal causa do vício. Mas se não é química, então o que é?

 

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Dor e sentido. Quando usuários são entrevistados, é difícil que eles não afirmem que a droga é uma transferência de mundos. Uma ferramenta para sair de uma existência de dor, de abandono, de desprezo e entrar em uma existência efêmera de acolhimento. Portanto, quanto maior a dor causada a um usuário, maior a chance de que ele se torne um viciado. Ou seja, prender e criminalizar são ferramentas excelentes para o aumento do vício.

 

Agora, colhemos os resultados de uma ideologia importada. A violência explode em nosso país. E a violência não vem dos usuários, mas dos comerciantes. A venda de drogas é um mercado com regras um pouco diferentes. Na ilegalidade, conquista-se espaço no mercado através da violência. E mantém-se os nichos de mercado através da violência. Para afastar competidores é necessário demonstrar a violência em um grau capaz de colocar os concorrentes em um estado de medo. Decapitar, queimar, fuzilar, estuprar. E quem for mais violento tem uma vantagem competitiva. De tempos em tempos, surge um chefe que consegue colocar uma certa organização na violência. Entretanto, quando ele é preso ou morto aqueles que estão abaixo na escala hierárquica do tráfico começam uma luta sangrenta para ocupar o posto de chefe. Outras facções também tentam conquistar o espaço deixado. O resultado é o aumento da violência. Quanto mais prisões mais violência, ao contrário do que se prega por aí.

 

Eu falei da “dor”, mas não falei do fator “sentido”. Novamente, quando se ouve os adictos eles afirmam que a droga, além do alívio da dor, lhes dá um sentido. Por mais terrível que possa ser a marca de “drogado”, ela é melhor do que a de não ser nada. Ou seja, quando a sociedade larga os viciados, eles criam suas próprias estruturas. E essas estruturas trazem sentido à vida dessas pessoas.

 

O que eu quero dizer é que o policial não é muito diferente de um usuário. Na verdade, nenhum de nós é. O treinamento do policial é feito em cima desses dois eixos: dor e sentido. A dor da humilhação, da flexão, do apelido, da exposição. A dor de ficar longe dos familiares, de passar fome, de ser um número. E depois o sentido. A vida vazia ganha uma razão de existir: salvar a população. Razão que não é exclusiva dos policiais. Eu, que não sou mais policial, continuo com os mesmos ideias. É por isso que continuo mesmo aposentado, mesmo respondendo um processo de exclusão e mesmo sendo oposição a muitas das ideologias que conquistaram parte do nosso país.

 

O problema é que o sentido está muito ligado à aceitação. Não basta entrar no grupo, é preciso ser reconhecido dentro e fora dele. Certa vez fui até um barzinho com uma amiga. Era aniversário de uma garota e eu só conhecia essa amiga. Os convidados foram chegando e amigo de policial, policial é. Todos nos apresentamos e quando perguntavam o que eu fazia, minha resposta era: sou policial.

 

Pouco tempo depois chegou um outro policial a mesa. Ele demorou menos de cinco minutos para dizer que ele era um tenente. E isso durou a noite inteira. Ele dizia isso como uma forma de mostrar que ele era superior dentro do grupo, já que os outros da mesa eram soldados. Eu era mais antigo que ele, – superior, em tese – mas sequer disse o que era. Minha autoestima está em outros lugares. Não preciso dizer meu posto para me sentir bem, basta dizer que sou policial.

 

E eu entendo esse tenente. Eu também já quis ser reconhecido, já quis ter sentido na vida através da polícia. Tentei entrar para o COE (comandos e operações policiais da polícia militar do Paraná), mas não fui autorizado a realizar o teste. Depois fiz de tudo para ir para o CHOQUE de Foz do Iguaçu, e consegui. Depois fui para o ROCAM (rondas ostensivas com o apoio de motocicletas). Mas alguma coisa foi mudando. Comecei a deixar de procurar títulos e comecei a buscar resultados. Em vez de dizer que eu prendia toneladas de drogas, comecei a me perguntar se apreender drogas e prender traficantes seria a melhor solução. 

 

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Mas mudar não é fácil. Mudar implica destruir a montanha que fez muita gente parecer grande. E por isso muito policiais sentem os pelos das costas arrepiarem quando dizem para eles que existem outros caminhos. Não seria muito legal se alguém lhe contasse que o que você escolheu fazer da vida está sendo danoso para a sociedade. Somos todos jovens em busca de sentido. Somos crianças indo para a guerra, acreditando que estamos salvando o mundo. A questão é que todas as crianças da guerra pensavam a mesma coisa. Os nazistas, os fascistas, o exército vermelho, os franceses. E sabemos quem nem todos eles estavam certos. A gangue Zetas, do México, é uma das mais violentas do mundo, mas muitos jovens sonham em fazer parte do grupo. Porque o grupo tem poder. Quem entra é temido, é reconhecido. Ganha um sentido para a vida. E o sentido não precisa ser positivo. A grande questão do serviço policial é que ele é um papel em branco. Você pode escrever muita coisa boa nele, mas pode escrever muita desgraça se quiser. Pode escrever torturas, execuções. Pode escrever estudo e melhoria para a sociedade. Você escolhe. Mas o grupo tem uma força enorme nas decisões dos membros. E qual é o perfil de policial que é reconhecido como o melhor? Por que eu queria ser de uma tropa especializada depois de me formar? Por que eu queria ir para a troca de tiro, para as missões mais perigosas? O que eu procurava? O que os policiais procuram?

 

Todos procuramos um sentido, seja você um policial ou um traficante. E todos somos um pouco viciados. Eu era viciado em adrenalina. Quanto mais perigosa a missão, mais empolgado eu ficava. Lembro-me ainda da sensação das perseguições, de ir para o assalto à banco torcendo para que os criminosos ainda estivessem por lá. Lembro-me da tristeza quando me contavam que no turno em que eu não trabalhei ouve uma troca de tiros, um sequestro, uma perseguição e eu não pude participar. Não sei como ainda estou vivo. Três tentativas de suicídio e toda a vontade do mundo de estar nas piores situações possíveis.

 

Somos todos humanos no final. Estamos todos um pouco perdidos, com nossas certezas um pouco abaladas. Tentando entender esse mundo, tentando ser felizes. Estamos todos tentando ter lembranças boas da vida, ter um sentido, uma razão. Também estamos todos nos drogando para apagar dores, para esquecer, para viajar até outro lugar. Seja cocaína, maconha, adrenalina, Rivotril, pornografia, aceitação, likes, postos, graduações.

 

Somos todos humanos. E como humanos somos dor, somos limitações, somos busca por sentido. E se todos nós percebêssemos isso o mundo, provavelmente, seria um lugar melhor.

 

 

Martel Alexandre del Colle tem 28 anos e é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná


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