“Jogamos no colo desses irresponsáveis a nossa vida”
Segunda-feira, 16 de março de 2020

“Jogamos no colo desses irresponsáveis a nossa vida”

Imagem: Agência Brasil

 

Por Katya Braghini

 

Retornei ao Brasil vindo de Madrid no último dia 25 de fevereiro. Passei três meses na Espanha trabalhando. Lembro-me que foi a primeira vez que eu vi a palavra “coronavirus”. Foi na hora do almoço. Todos estavam muito interessados na constituição do governo de Pedro Sánchez o problema da vez. De repente, ouvi um murmúrio sobre um vírus que estava se disseminando na China. Mas a conversa não se desdobrou. Isso aconteceu no início do mês de janeiro. Um mês e meio depois, eu chegava a São Paulo em um voo da Ibéria, ouvindo uma mensagem em quatro idiomas, nos avisando sobre os sintomas e cuidados que deveríamos tomar ao chegar no Brasil, por conta do Covid-19. 

 

Agora, os meus amigos madrilenhos, estão trancados em casa, lutando para a diminuição da curva de risco desta gripe. Foi anunciado o “estado de emergência” em todo país, limitando por 15 dias a circulação da população. Pelo estado de emergência é possível requisitar temporariamente todos os bens, intervir em espaços, fazer racionamento etc. A administração da Comunidade de Madrid mandou fechar tudo o que diz respeito à circulação pública: bares, restaurantes, parques, teatros, cinemas etc. Escolas e  Universidades pararam. Eu passei três meses vivendo na calle Fuencarral em Malasaña. Para quem não sabe, se trata de uma área central, turística, boêmia da cidade. Saía todos os dias pela porta do meu edifício e pensava: Essas pessoas não dormem! Tamanha é a vontade do madrilenho de estar pelas ruas, parados em bares, conversando em praças. 

 

Hoje, tudo parou. Olhar fotos da Calle Mayor abandonada como um filme de apocalipse é o terror da ficção na nossa vida diária. Uma visão de futuro, que de tanta vezes repetidas, finalmente parece alcançada. Será que não deveríamos trocar a posição dessas chaves temporais para sentir a ideia do estrago fizemos conosco, aqui e agora? Ainda estamos pensando no futuro?

 

No entanto, no momento de isolamento, também vindo de Madrid, vejo pelo Twitter uma ferramenta de aplicativo que foi construída de maneira coletiva e solidária para juntar pessoas em processos colaborativos e que podem unir gente por meio da internet. Para fazer cursos, para conversar, para fazer tertúlias, saraus, para ter aulas de espanhol, inglês, japonês, trabalho voluntariado, grupos de apoio, passatempos etc.  A ideia é juntar pessoas durante o período de emergência. Mas não apenas juntar, ideia é unir para atuar, para fazer parte de uma rede colaborativa; para fazer política, por causas interessantes e prementes; para construir conhecimento por meio de ação coletiva. Seu nome é Frenar la curvaJuntos somos más fuertes. O dispositivo se diz um “guia de iniciativas cidadãs frente ao coronavirus, com inovação social, resiliência cívica em tempos de pandemia”. Ou seja, trata-se de um coletivo de ativistas que, inovando, fazem política, chamando a população à discussão pública enquanto estão confinados. 

 

Refletir no confinamento. Isso nos remete à ilustração de imaginários de erudição, e sapiência. A introspecção de sábios nos seus gabinetes, monges budistas em montanhas, Jesus no deserto, o Diabo na mansão do inferno etc. Não vamos nos desviar dessa vez: Diante do coronavírus, nós, tolhidos da liberdade de ir e vir, escolheremos o que para nossa vida? 

 

O que essa história ensina? Não se encontram os “processos históricos” parados na esquina a espera de nossa análise, não é mesmo?  Nós somos a história e o tão abominado coronavírus pode nos dar a chance de pensar em nossa posição no mundo, como seres humanos e cidadãos. Quiçá uma grande lição para nos mobilizar frente a uma outra abominação, essa sim, mais letal e mentirosa, conhecida por neoliberalismo na era da pós-modernidade. 

 

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Esse vírus nos coloca em uma situação forçada de retraimento, afastamento social.  Viramos aquela dita força, a célula, individual, exaltada como a fagulha disparadora de todo o movimento da história segundo os discursos neoliberais, repetidos ad nauseam nos últimos anos em nosso país e no mundo.  Não que já não fossemos isso… Estamos completamente imersos nesse estado de responsabilização do individuo pelo seu fracasso, pela naturalização do risco de sua própria vida, aceitando o discurso da competência e da competição, sendo massacrados por um péssimo conceito de empreendedorismo, aquele feito para melhor articular as demandas empresariais, que só pensam no desaparecimento do bem-estar social, dar fim às garantias trabalhistas, para construir essa subjetivação isolada, fragmentada, descolada de um corpo social, desamparada de seus direitos, de afetos, fazedora de malefícios: depressão, hipertensão, fibromialgia, câncer, pobreza, abandono, desprezo pelos mais fracos.    

 

O Covid-19 nos convida a fazer essa reflexão à força, inclusive de lei, porque agora é sentir no próprio corpo, a experiência de isolamento, longe das ruas, das rotinas, das acelerações dos dias de trabalho, dos amigos. Passar a ter medo de afagos, de beijos e abraços, estas ações que são tão caras aos brasileiros. E digo isso, desconsiderando que há muito tempo, há quem viva nas cidades sentindo-se como um vírus. Ou melhor, um ser parasitário. Vetores de doenças. Ser doente pela pobreza, pelo desamparo e pelo desafeto. Portanto, há quem tenha medo do isolamento, do esquecimento e da morte muito tempo antes de nós ficarmos inertes pela sensação de abandono que chega com essa doença global. Desamparo pela ação de um governo irresponsável, cujo principal representante, até semana passada, era sarcástico com esse problema.  Mas que no domingo, dia 15 de março, burlando a recomendação de médicos e infectologistas, saiu de sua casa para estar junto aos manifestantes contrários ao Supremo Tribunal Federal (STF), favoráveis à ditadura. Existe ainda quem fez dos decretos estaduais de isolamento, motivo para férias: foi à praia, foi ao shopping. Há quem diga que está imune ao vírus, pois é mais importante fechar o congresso. Existem aqueles que vão buscar um milagre de cura com os seus pastores.  

 

Jogamos no colo desses irresponsáveis a nossa vida. 

 

Mas, para além de tudo isso, teremos mesmo essa força e vontade, de agir pelo isolamento com a ânimo para refrear a curva de infecção deste vírus?  Isto é, estamos mesmo dispostos em abrir mão de parte de nossas alegrias para a melhor condição de toda a sociedade? Estamos testando entre os concidadãos a nossa capacidade de pensar no outro, para a nossa própria segurança. Também, cuidar de si mesmo, para cuidar de outros. Pensar uma política conjunta de cuidado. Teremos essa coragem? Tenho dúvidas. 

 

Porque se trata de pensar que há partes de nossa população que pega ônibus e trens superlotados todos os dias. Não podem parar de trabalhar. Estão à mercê de uma mobilidade não cidadã, porque estão presos à lógica da não garantia de direitos. Os sindicatos estão enfraquecidos, a proteção social desaparecendo, a vida desigual que só reflete o quanto fomos imóveis, cegos, paralisados diante de discursos que já apontavam para o pior de nós mesmos, viver sem o sentimento de coletividade. Chegamos ao ponto de um vírus nos forçar, e talvez nos dar uma chance de remissão, de que precisamos dos outros, precisamos de serviços públicos, precisamos do Sistema Único de Saúde (SUS), precisamos sim de investimentos na educação e na ciência, pois agora necessitamos urgentemente de divulgação de informações verdadeiras, queremos urgentemente de uma vacina. 

 

Vamos pensar no bem público, levando em conta o “exemplo” de um de nossos modelos mais pungentes de sociedade, os Estados Unidos da América. Os especialistas em saúde e administração pública deste país estão assustados porque em caso de um alastramento do vírus, milhões de estadunidenses combinarão com a morte o seu destino. Não há lei federal que obrigue o empregador a oferecer licença médica ao trabalhador; não tendo a licença, o trabalhado pode ser vetor de transmissão;  não há sistema público de saúde; na precariedade, não há como pagar plano de saúde; não existe cobertura para caso atendimento simples, quiçá para uma pandemia; mesmo para quem tem cobertura, há grandes margens de copagamento; o preço do teste para esta gripe não é grátis. 

 

No Brasil, o médico sanitarista Gastão Wagner de Sousa Campos, ex-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e a infectologista Nancy Bellei, da Universidade de São Paulo (USP) e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, admitem que a estrutura total do SUS pode não ser a ideal, mas ambos afirmam que o sistema público de saúde do país tem capacidade para atender a população, sendo necessária a aplicação emergencial de recursos. Talvez o maior medo seja o excesso de doentes que não teriam leitos hospitalares suficientes, por isso, é necessária a redução da velocidade de infecção do vírus, para que não haja um aumento excessivo na demanda. Como em outros países, é exige-se a mudança de rotina e o que se pede é o isolamento social. 

 

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O que seremos forçados a fazer é precisamente o isolamento. Aquilo que os discursos neoliberais, de ricos rentistas, empresários, banqueiros, mídia conglomerada, políticos cúmplices pediam: esteja só, individualismo radical, cada um é empresa de si, despolitização do social etc. Mas, agora vamos passar pela experiência corporal de um insulamento, que já era nosso. Seja por opção, cegueira, fraqueza, desmobilização, fragmentação da luta… Registro de nosso descaso geral com o meio ambiente e o apego descarado pela ideia de que a “natureza existe para nos servir”, fornecedora de “matéria-prima”, base dos nossos queridos “produtos”. Coronavirus, por antonomásia, é o individualismo, o princípio de conduta potencialmente universal mais essencial à ordem capitalista. 

 

E vai piorar. Economia paralisada, comércio, indústria, serviços, parados. O que faremos com quem não pode parara de trabalhar? O que faremos com as mães que não tem mais escolas para deixarem os filhos? O que faremos com toda a informalidade de trabalho, dependente dos fluxos da cidade, dos contatos, pedidos e chamados? Isso é, ao final, você que está pensando em se isolar, com suas compras em casa, vale pensar no seguinte: No Brasil, passar medo com o vírus dentro do aconchego do lar, com geladeira abastecida, e streaming aberto é um luxo. 

 

Talvez possamos pensar como Jean-Pierre Dupuy no seu manifesto “catastrofismo ilustrado” quando indica que não nos faltou os avisos fatalistas, nos advertindo de nossa má conduta. Duvidamos. E nada será feito pensando no futuro. É no momento de perigo que nasce a salvação, o que joga a nossa ação para o presente imediato.  Quiçá ainda, adicionemos à nossa redenção política a ideia de F. Morelli, analisando a vida desde a Itália desértica do coronavirus

 

Numa dimensão em que as relações interpessoais, a comunicação, a socialização, são realizadas no espaço (não) virtual das redes sociais, dando-nos a falsa ilusão de proximidade, esse vírus tira de nós a proximidade verdadeira e real: que ninguém toca, beijos, abraços, tudo deve ser feito à distância, na frieza da falta de contato. Quanto temos dado como certo esses gestos e seu significado?

 

Daí para terminar nos inquerindo sobre essa escolha de ter feito do individualismo a norma. Ou talvez, com a pandemia, fazer ressurgir em nós a ação do comum, que somos alguém, enquanto somos com os outros. Somos sujeitos, nossa solução é coletiva, ser responsável, é ser responsável por nós. Não esquecer que a “corresponsabilidade é sentir que a sorte das pessoas ao seu redor depende de suas ações, e que você depende delas”. 

 

 

Katya Braghini é doutora em educação, professora e pesquisadora do PEPG em Educação: História, Política, Sociedade (PUC-SP), historiadora da educação.


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