Discurso midiático e a proliferação do medo
Segunda-feira, 23 de março de 2020

Discurso midiático e a proliferação do medo

Imagem: Carolina Antunes / PR – Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Izabela Collares e Mônica Thaís Souza Ribeiro

 

A celeridade da transmissão de dados, notícias e informações sobre os mais diversos problemas socioambientais enfrentados por diversos países do mundo, provocam a pânico, o medo e a polarização de grupos, em contextos diversos. 

 

 

Discussões acerca das melhores decisões a serem tomadas para conter desabamentos, derramamento de substâncias tóxicas, epidemias, enchentes, e agora a pandemia do COVID-19 (corona vírus), tomaram o centro das discussões sobre políticas públicas mundiais a serem adotadas para conter a magnitude dos problemas de ordem ambiental sanitária., 

 

Se analisarmos o discurso ambiental à luz da narrativa de Jared Diamond, no livro O Colapso, e sua linguagem cinematográfica, realizada por Chris Smith, percebemos que o desenvolvimento sustentável sucumbiu ao crescimento econômico. O autor do livro concluiu que danos ambientais, mudanças climáticas, vizinhança hostil e parceiros comerciais amistosos são fatores significativos para contribuir para o colapso ambiental de uma sociedade; Já o quinto fator, as respostas das sociedades aos seus problemas ambientais, é que sempre se mostrou ser significativo, seja para mitigar ou para maximizar os efeitos danosos.

 

A crescente audiência às catástrofes nos faz refletir sobre a influência desses discursos na sociedade, seja para despertar uma nova consciência ambiental, seja para induzir sentimentos como o medo, e em como a responsabilidade social pode reduzir esses impactos.  

 

Crimes ambientais causam perdas imensuráveis, irrecuperáveis além de alimentar o pânico coletivo pela sobrevivência em meio a tantas tragédias da natureza em pleno século XXI. Por método indutivo analisamos essas questões e pensamos nas possibilidades de enfrentar medos modernos produzindo outros modos de relacionar com o ambiente.

 

Quando analisamos um filme, um documentário, entrevista, telejornal, uma fotografia, dentre outras formas de comunicação com um público, entendemos que cada pessoa tem uma forma de interpretar o que está vendo ou lendo, bem como esses meios de comunicação “de massa” podem influenciar na percepção da sociedade e despertar sentimentos desconhecidos em nós; por exemplo, caos, de determinada situação que antes era ignorada ou não percebida. Esses diferentes discursos midiáticos com capacidade de influenciar estão no campo de pesquisa da criminologia cultural.

 

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A linguagem midiática e o discurso ambiental

Tornar visível o invisível: seria esta a verdadeira função de todas as linguagens?  Cegamente estendemos fios invisíveis entre os signos que acreditamos visíveis demais, chamativos demais, pesados demais. Todo o nosso século, parece secretamente obcecado com a criação de múltiplas materializações do invisível. Influenciando até sem percebermos nossa conduta pessoal.[1]

 

O ser humano tem construído um ambiente artificial em conflito com o seu ambiente natural. Nossas atividades não têm tido nenhum respeito com a natureza. O cientista James Lovelock, diz que a Terra é um ser vivo, um organismo complexo que é capaz de reagir as nossas agressões. É o que temos assistido, ao subestimarmos o absurdo: ora a ignorância que provoca a cólera, ora, a ignorância dos que refutam a ciência. 

 

Podemos fazer uma análise entre tradições sociológicas e culturais de determinados povos com hábitos transgressores ambientalmente e sem compreensão do uso sustentável dos recursos e o consequente aumento de crimes ambientais que intensificam crises com extensão mundial, afetam a subsistência humana,  com a proliferação de doenças, falta de alimentos, escassez e estresse de recursos hídricos, extinção de espécies (tráfico de animais selvagens, por exemplo). Neste caso, é preciso uma mudança e conscientização sobre os hábitos e crenças culturais, a partir do discurso científico, do conhecimento, da educação ambiental e do desenvolvimento sustentável. 

 

O discurso do medo 

As ideias apresentadas no documentário O Colapso podem ser interpretadas como extremistas ou surreais o que pode sugestionar parte da retórica como paranoica. Nas palavras do escritor francês, Jean Carrière: “o cinema é peculiar a cada um[2], mas associado às pesquisas, estudos e políticas públicas, é possível ser interpretado para prevenir cenários de conflitos socioambientais, desequilíbrios sanitários e coletivos no mundo.

 

“A atuação da mídia enquanto construtora do conhecimento e sua interface com a educação ambiental, não vem acompanhando as reais necessidades da sociedade e do meio ambiente. O seu interesse voltado para os assuntos ambientais é invariavelmente determinado por circunstâncias trágicas: vazamentos de óleo, enchentes, estiagens, queimadas, tsunamis, epidemias, furacões e terremotos são o que merecem lugar de destaque nos noticiários. O que de certa forma é correto. Mas ainda falta-lhe perceber a urgência de abrir espaço para novas pautas que cumpram o objetivo de tratar da problemática socioambiental de maneira interdisciplinar” 

O despertar da responsabilidade social

As propriedades ambientais referem-se tanto à fragilidade quanto à resiliência de uma área florestal, de seu solo, de suas populações de peixes. Assim sendo, o motivo de apenas certas sociedades sofrerem colapsos ambientais pode em princípio envolver tanto a excepcional imprudência de seus povos, a fragilidade excepcional de alguns aspectos de seu meio ambiente, ou ambas as coisas, ao mesmo tempo.  

 

Esses colapsos existem aonde tem um descompasso entre os recursos disponíveis e o seu consumo ou um descompasso entre despesas econômicas e potencial econômico. Estudos demostram que as sociedades entram em colapso pouco tempo depois do auge do seu poder. Existem muitos fatores ambientais, sutis, que tornam algumas sociedades mais frágeis que outras, e muitos desses fatores não são bem entendidos. Por exemplo: dentre as centenas de ilhas existentes no oceano pacífico, por que a Ilha de Páscoa terminou como o caso mais devastador de desmatamento? Relata-se que fatores como chuva de cinzas vulcânicas, latitude e a entrada de nutrientes que protegia a ilha era advinda da chuva de poeira continental vinda da Ásia Central, restaurando a fertilidade dos seus solos, fator esse desconhecido até 1999.[3]

 

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Portanto, os grandes problemas ambientais estão relacionados com o modelo econômico-industrial, baseado na energia fossilizada e no carbono, em uma sociedade hiper consumista, em um crescimento demográfico que aumenta as demandas sobre um planeta limitado, e os danos sociais a eles intrínsecos relacionam-se diretamente com o culto ao capital, a busca descomedida pelo lucro, a ausência de ética e com os ardis da responsabilidade social e do marketing ecológico, que são discursos higienistas que legitimam o extermínio das pessoas mais vulneráveis econômica e politicamente.[4]

 

Por sua linguagem fácil e acessível ao grande público, é responsabilidade do setor midiático explicar com clareza e objetividade sobre os desafios em relação ao aquecimento global; a escassez de recursos; desertificação dos solos; a destruição da biodiversidade; o aumento  do volume de lixo – bem como o tratamento deste; consumismo desenfreado e compulsivo; transgenia irresponsável; além de sinalizar rumos e perspectivas para a sociedade, dando holofote aos projetos que geram riqueza sem destruir a natureza.

 

O meio ambiente precisa estar no início e no centro de todas as políticas públicas e de todos os empreendimentos, para que os impactos possam ser avaliados, eliminados, minimizados e tenham seus custos atribuídos a quem os gera, e não a toda a sociedade.

 

Os discursos midiáticos em circulação legitimam temas que se reverberam como opinião pública – e esses jogos de verdade acabam por engendrar e (re)produzir modos de vida nem sempre adequados. A crise ambiental constitui como um desses discursos legitimados pela mídia e que operam no nível do coletivo para atingir o indivíduo em suas ações diárias. Assim, a mídia vai ensinando as formas supostamente corretas de fazer e se comportar frente à problemática ambiental. No meio desse jogo de palavras, a pressão política, o capital privado e a precarização do emprego. 

 

A partir de tais chamamentos, somos postos a pensar, ver e dizer sobre a crise que se instala e que interpela a todos, afinal, a responsabilidade com o futuro do planeta é coletiva. Sentimento de culpa e mal estar pela responsabilização individual pela depredação ambiental, aquecimento global, pelas toneladas de lixo acumuladas, ou pelo desmatamento das florestas podem ser substituídos por ações de proteção da água, redução do lixo, de consumo, instruídos através de educação ambiental e divulgação das informações para todos os povos. O papel da mídia, nestes casos, é fator decisivo para uma mudança estrutural e permanente das ações da sociedade civil e direcionamento de novos paradigmas para implantação de políticas públicas e a responsabilidade social das empresas privadas.

 

 

Izabela Collares é Mestranda em Direito pelo UniCeub Membro do grupo de pesquisa de direito ambiental e desenvolvimento sustentável do UniCeub e Advogada.
Mônica Thaís Souza Ribeiro é Mestra em Direito e Políticas Públicas. Professora e Pesquisadora em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável.

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Notas:

[1] CARRIÈRE, Jean-Claude. A linguagem secreta do cinema. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006 pg. 21

[2] CARRIÈRE, Jean-Claude. A linguagem secreta do cinema. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, pg.45

[3] DIAMOND, Jared. Sociedades em Colapso. TED TALKS. Legendado. Disponível em: www.youtube.com/watch?v=szkKzVM93cQ Acesso em: março/2018.

[4] BOEIRA, Luiz Francisco Simões; COLOGNESE, Mariângela Matarazzo Fanfa. O papel da criminologia diante da devastação ambiental causada pela criminalidade dos poderosos.  Revista Eletrônica Direito e Política v.12, n.1, 2017. Disponível em: www.univali.br/direitoepolitica ISSN 1980-7791. pg. 168.

 

REFERÊNCIAS 

DIAMOND, Jared. Sociedades em Colapso. TED TALKS. Legendado. Disponível em: www.youtube.com/watch?v=szkKzVM93cQ Acesso em: março/2020.

BOEIRA, Luiz Francisco Simões; COLOGNESE, Mariângela Matarazzo Fanfa. O papel da criminologia diante da devastação ambiental causada pela criminalidade dos poderosos.  Revista Eletrônica Direito e Política v.12, n.1, 2017. Disponível em: www.univali.br/direitoepolitica ISSN 1980-7791.

FERREL, Jeff. Cultural criminology. Anual Review Sociological, 1999, vol. 25. Pg. 396

CARRIÈRE, Jean-Claude. A linguagem secreta do cinema. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006 pg. 21

LOVELOCK, James. Gaia: alerta final. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2010.

Raimundo, Mayara Trindade, Janailto e José das Crianças.  Papel da Mídia na área ambiental. PRO-CIDADE – Projetando Qualidade e Sustentabilidade Universidade Federal do Tocantins – MBA em Gestão de Projetos e Cidades. P. 18/03/2011. Disponível em: https://procidade.wordpress.com/2011/03/18/o-papel-da-midia-na-area-ambiental/ Acesso em: março 2020.

DIAMOND, Jared. O Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Rio de Janeiro: Record, 2005, Pg. 11

DIAMOND, Jared. Sociedades em Colapso. TED TALKS. Legendado. Disponível em: www.youtube.com/watch?v=szkKzVM93cQ Acesso em: março/2018.

GARRÉ, Bárbara Hees; HENNING, Paula Corrêa. Discurso da Crise Ambiental na mídia impressa. Disponível em: www.scielo.br/pdf/edur/v33/1982-6621-edur-33-e138587.pdf  pg. 5Acesso em: março 2018, pg. 6

AGAMBEN, Giorgio. Disponível em <http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/596584-o-estado-de-excecao-provocado-por-uma-emergencia-imotivada> acessado em 18 de março de 2020. 

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