O contágio pelo Coronavírus para pessoas com deficiência
Terça-feira, 24 de março de 2020

O contágio pelo Coronavírus para pessoas com deficiência

Imagem: Agência Brasil

 

Por Renata Teles da Silva

 

Coronavírus é uma família de vírus que causa infecções respiratórias. O novo agente do Coronavírus, descoberto em dezembro de 2019 após casos registrados na China, provoca a doença titulada Coronavírus (Covid-19) que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), já foram registrados mais de 240 mil casos de contágio em 161 países ou territórios, com mais de 10,3 mil mortes.[1]

 

 

No início deste mês, a OMS caracterizou o novo Coronavírus (Covid-19) como uma pandemia. Como resultado, diversos países anunciaram o fechamento das fronteiras, as aulas foram canceladas por tempo indefinido e determinaram quarentena a milhões de pessoas. Os impactos também surtiram efeitos na economia mundial, com cancelamentos de voos e reservas de hotéis, oscilações nas Bolsas e empresas colocaram seus funcionários em home office.

 

A doença é transmitida pelo contato pessoal próximo com pessoas infectadas, por meio de tosse ou espirro de pessoas infectadas ou ao tocar em objetos ou superfícies contaminadas e, em seguida, tocar a boca, nariz ou olhos. Pessoas acima de 60 anos, pessoas com restrições respiratórias ou com imunossupressão ou que apresentem doenças associadas como diabetes, hipertensão arterial, cardiopatias e neurológicas, gestantes e puérperas até 45 dias após o parto são os indivíduos que têm maiores riscos de ter a Covid-19 agravada. Logo, as recomendações globais são para que todos fiquem em casa e que higienizem as mãos com frequência.

 

No Brasil, subiu para 904 o número de casos confirmados de Coronavírus e foram registradas oficialmente pelo Ministério da Saúde, até sexta-feira (20), nove mortes no estado de São Paulo e duas no Rio de Janeiro. O Ministério da Saúde declarou o reconhecimento da transmissão comunitária do Coronavírus (Covid-19) em todo o território nacional e o Senado aprovou por unanimidade calamidade pública no Brasil. Isso significa que todo o País deve se unir para a prevenção do vírus.[2]

 

De acordo com a OMS, com dados de 2011, 1 bilhão de pessoas vivem com alguma deficiência – isso significa uma em cada sete pessoas no mundo. No Brasil, conforme os dados do Censo Demográfico de 2010, de 190,7 milhões de habitantes, 45,6 milhões têm algum tipo de deficiência, isto é, 23,9% da população total. Ser uma pessoa com deficiência, não significa por si só, que ela apresente maior vulnerabilidade ao Coronavírus, contudo, o ambiente em que a pessoa está inserida pode potencializar ou reduzir as limitações funcionais ocasionadas por uma deficiência. 

 

Diante desse contexto, é essencial sabermos se as pessoas com deficiência de natureza física, mental, intelectual ou sensorial têm acesso às notas oficiais de cuidados necessários de prevenção do Covid-19 e se elas estão, de fato, conseguindo se prevenir da doença. Caso contrário, como nós, pessoas sem deficiência, podemos ajudá-las a se protegerem do Coronavírus?

 

Para enfrentar a pandemia, é primordial que as informações a respeito da prevenção e controle do Coronavírus sejam acessíveis a todas as pessoas por todos os meios possíveis. Ou seja, é preciso que não haja barreiras na comunicação escrita, na comunicação virtual e na comunicação interpessoal em todos os ambientes sociais. [3]

 

Conversando com Maria Rita e Talita Manzano, instrutoras da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e surdas, quanto a acessibilidade comunicacional nos veículos de comunicação, ambas se queixam sobre a falta de intérpretes de Libras nos programas televisivos e legendas em qualquer mídia digital, como Youtube e jornais on-line para surdos e ensurdecidos (LSE). 

 

A Libras é uma língua visual-espacial, baseada nas experiências visuais das comunidades surdas mediante as interações culturais surdas e apresenta sintaxe espacial incluindo os chamados classificadores[4]. Já a Língua Portuguesa é oral-auditiva, se baseia em sons e possui sintaxe linear por meio de descrição para captar o uso de classificadores. Por serem duas línguas distintas e nem todo surdo ser bilíngue, quando uma mídia visual não possui janelas de intérprete de Libras e legendas, as informações apresentadas ficam confusas para esse público.

 

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Durante a quarentena, a internet, além de ser um recurso indispensável para nos atualizarmos sobre os avanços da pandemia, é uma ferramenta viável para realizarmos compras, nos entretermos e usarmos serviços públicos sem sair de casa. Todavia, muitas pessoas com deficiência não têm acesso a esses serviços devido às barreiras digitais nos websites. De acordo com Luiz Alexandre Ventura, jornalista do blog Vencer Limites/ Estadão, é ínfimo a quantidade de páginas acessíveis para as pessoas com deficiência. 

 

No Brasil, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), 57% dos cidadãos com deficiência usam com frequência a internet. Dados do World Wide Web Consortium Escritório Brasil (W3C Brasil) mostram que nosso País tem aproximadamente 14 milhões de websites, mas somente 100 mil com algum tipo de acessibilidade. Isso representa 0,7% de páginas que podem ser acessadas por pessoas com deficiência, principalmente deficiências severas.[5]

 

Lara Souto Santana, militante com baixa visão pela acessibilidade educacional e cultural das pessoas com deficiência, declara que a acessibilidade comunicacional para pessoas com deficiência precisa sempre estar em pauta, não apenas agora em tempos de Coronavírus: “As dificuldades que a gente enfrenta agora perpassam o que a gente enfrenta todos os dias. É a ausência de janela de Libras, é a ausência de audiodescrição, é a dificuldade de acessar um site quando ele não é acessível”. 

 

Segundo a militante, o que torna este momento diferente é o conteúdo das informações que se faz necessária a todo instante, caso contrário, as pessoas com deficiência em geral ficariam desinformadas e excluídas. Lara julga importante as notícias acerca das pessoas com deficiências severas físicas, como lesão medular, pois esses indivíduos têm comprometimentos respiratórios. No entanto, para ela, as notícias precisam incluir todas as pessoas com deficiência e exemplifica as pessoas cegas que usam principalmente o sentido tátil para a comunicação: “O segmento de pessoas com deficiência visual, até poucos dias, sequer tinha sido mencionada nas atividades midiáticas. Pessoas cegas tocam muito mais nas coisas e podem se contaminar”. 

 

As Tecnologias assistivas (TA) são recursos e serviços que proporcionam ou ampliam habilidades funcionais de pessoas com deficiência e, consequentemente, promovem autonomia e inclusão. Nessa conjuntura, Doron Sadka, sócio e diretor na empresa Mais Autonomia, cita o dispositivo de TA Orcam como um recurso de acessibilidade viável para as pessoas cegas ou com baixa visão, dado que ele é um dispositivo que permite o acesso fácil, intuitivo e instantâneo em tempo real e funciona totalmente offline. Doron argumenta que as pessoas com deficiência visual, ao usar o OrCam, podem ter acesso a qualquer website, acessível ou não, e a textos impressos e digitais.

 

As pessoas com surdocegueira, por exemplo, são singulares – deficiência única, não múltipla, que apresenta perdas auditivas e visual concomitantemente, em diferentes graus – e a comunicação desses sujeitos é particular. Há muitas formas das pessoas surdocegas se comunicarem, mas as principais são através do tato, como Libras tátil, Braille, Braille tátil, Comunicação Háptica, alfabeto manual, escrita na palma da mão e Tadoma – método de comunicação onde o indivíduo surdocego coloca o polegar na boca do falante e os dedos ao longo do queixo. 

 

Para terem acesso direto às informações veiculadas pela mídia, as pessoas com surdocegueira carecem de guia-intérpretes na mediação e de tecnologia assistiva. Hélio Fonseca, intérprete de Libras, guia-intérprete para pessoas com surdocegueira e militante na causa da surdocegueira, afirma que o mundo da pessoa surdocega é tátil: “Para o surdocego, você só existe, as coisas só existem, as pessoas só existem se elas são tocadas, se elas são sentidas por ele”.

 

Leitor de tela /  Fonte: Memorial da Inclusão

Descrição da imagem: Em uma mesa está um computador conectado a um dispositivo de leitor de tela que codifica para o Braille e, ao lado, há um leitor menor para smartphone.

 

Na última segunda (16), Hélio guiou e mediou Carlos em uma consulta médica. Sempre quando saem juntos, Carlos faz questão de conhecer, através do toque, todas as pessoas. Porém, nessa última consulta, o contato de Carlos se limitou unicamente nas mãos do Hélio. O guia-intérprete relata que ambos entendem a situação de prevenção, mas ficaram angustiados, visto que ninguém quis tocar no Carlos: “Quando vamos ao hospital, eu me dirijo até os profissionais, pego a mão do Carlos e a estendo até eles para que essas pessoas possam existir no mundo dele. O Carlos gosta de saber quem está lhe atendendo, seja na recepção, seja na triagem, até o próprio médico. Isso não aconteceu nesta semana”. 

 

A Organização das Nações Unidas publicou na última terça-feira (17) um aviso mundial sobre o desamparo das pessoas com deficiência durante a crise provocada pelo Coronavírus. De acordo com Catalina Devandas, Relatora Especial sobre os direitos das pessoas com deficiência da ONU, as pessoas com deficiência se sentem desacolhidas porque as orientações e apoios necessários a elas foram insuficientes para protegê-las no momento atual de pandemia. “Medidas de contenção, como distanciamento social e isolamento pessoal, podem ser impossíveis para aqueles que precisam de apoio para comer, vestir ou tomar banho (tradução livre).[6] Temos como exemplo as pessoas com paraplegia, tetraplegia e pessoas com sequelas de Acidente Vascular Cerebral (AVC).

 

Catalina Devandas também adverte que as pessoas com deficiência devem ter “permissão para trabalhar em casa ou receber licença remunerada para garantir a segurança de sua renda. Seus familiares e cuidadores também podem precisar dessas medidas para fornecer o suporte necessário durante a crise” (tradução livre).

 

Fátima Ramos, mãe solo de uma adolescente de 18 anos com Transtorno Autista, deficiência intelectual, hidrocefalia, meningite crônica e asma grave, vive na cidade de São Paulo e ainda não foi dispensada do serviço para ficar em casa. Segundo ela, nenhum funcionário da gráfica está em quarentena. “Minha filha não tem noção do que está acontecendo. Eu sou responsável por ela e não paro de me informar, até estou ficando abitolada, isso está me fazendo muito mal”, relata. 

 

Ambas moram sozinhas e, neste momento, a adolescente está tendo contato exclusivamente com a mãe e com sua cuidadora. “Tenho medo pela minha filha, porque além dela ser autista com a capacidade linguística, cognitiva e social bastante afetada, ela tem outras doenças que a coloca no grupo de risco”, lamenta Fátima. 

 

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Para os cuidados de prevenção do Covid-19, Fátima alega estar apavorada e fazendo o possível para proteger sua filha, pois sabe que ela não tem organismo para aguentar o vírus: “Ao chegar em casa, deixo os meus sapatos do lado de fora, coloco para lavar as roupas que usei durante o dia e só me aproximo dela depois de tomar banho. Passo álcool em tudo, inclusiva na maçaneta da porta”. 

 

O direito à acessibilidade é essencial à dignidade da pessoa com deficiência e o nosso País possui uma das melhores legislações voltadas a essa garantia, contudo, falta aplicação e fiscalização. 

 

Nesse cenário, para que as pessoas com diferentes tipos de deficiência tenham acesso aos conteúdos fundamentais neste período de pandemia, é de suma importância que os Governos e meios de comunicação viabilizem a divulgação de informações confiáveis sobre o Coronavírus e medidas de prevenção de contágio em diferentes formatos acessíveis, principalmente com o uso da audiodescrição, legendas, janela de vídeo com intérprete de Libras e leitura fácil. 

 

Como já mencionado, mesmo usando tecnologia assistiva – ou não –, nem todas as pessoas com deficiência conseguem ter autonomia nas atividades diárias e requerem apoio. Dessa maneira, todos nós precisamos nos conscientizar para sabermos como expor o mínimo possível as pessoas com deficiência. Se você conhece uma pessoa com deficiência, pergunte como ela está se sentindo e se ela  precisa de auxílio neste momento.

 

Para finalizar, segue abaixo uma nota técnica com recomendações de medidas temporárias e emergenciais de prevenção de contágio pelo Coronavírus para pessoas com deficiência, elaborada pelas Secretarias de Estado da Saúde e dos Direitos da Pessoa com Deficiência:

 

  • Higienização frequente das mãos com água e sabonete (durante 30s) ou álcool gel a 70%;
  • Seguir a “Etiqueta respiratória” quando possível;

Cobrir a boca e nariz com um lenço de papel quando tossir ou espirrar e descartar o lenço usado no lixo; 
Caso não tenha disponível lenço descartável, tossir ou espirrar no antebraço e não em suas mãos, que são importantes veículos de contaminação;

Higienizar as mãos com frequência e sempre após tossir ou espirrar;

Evitar tocar nos olhos, nariz e boca sem ter higienizado as mãos;

Usar máscara cirúrgica se estiver com coriza ou tosse.

 

  • Restrição de contato social (exceto cuidadores e profissionais de saúde, quando necessário);
  • Evitar aglomerações e viagens;
  • Evitar atividades em grupo;
  • Atenção redobrada aos cuidados com a higiene pessoal (em especial às pessoas com deficiência intelectual e motora com alto grau de dependência); e,
  • Com relação à higienização de cadeiras de rodas, bengalas, andadores e outros meios de locomoção, promover a limpeza com água e sabão ou álcool líquido a 70% uma vez ao dia e sempre após deslocamento externo.

 
 Cuidados especiais

  • Pessoas com deficiência com quadro neurológico e idosos podem apresentar sintomas específicos associados à infecção pelo coronavírus tais como: piora brusca no quadro geral de saúde, perda de memória e/ou confusão mental, perda de mobilidade e força, fadiga repentina. Nestes casos procurar serviço de saúde mais próximo do local de residência;
  • Nas pessoas com deficiência do grupo de risco em uso de medicamentos, não interromper o uso regular dos remédios a não ser por ordem médica; e,
  •  O uso de medicamentos imunossupressores pode elevar o risco da pessoa com deficiência contrair a infecção. Nestes indivíduos, as medidas de prevenção devem ser redobradas.


Com relação aos Cuidadores e Profissionais de Saúde

  • Se apresentarem sintomas de gripe, evitar contato com a pessoa com deficiência; e,
  • Utilizar EPI (equipamento de proteção individual) para proteção de gotículas e contato durante o atendimento a pacientes com sintomas respiratórios.

 

 

Renata Teles da Silva é Mestra em Filosofia e Bacharela em Lazer e Turismo pela Escola de Artes, Ciências Humanidades da Universidade de São Paulo. Possui habilitação técnica em Turismo pela Escola Técnica Estadual de São Paulo. Participou da V Escola de Verão da Associação Latino-Americana de Investigadores da Comunicação na Universidad de la Republica.


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Notas:

[1] OPAS. Organização Pan-Americana da Saúde. Disponível em: <http://new.paho.org/bra/>.

[2]  BRASIL, Ministério da Saúde. Ministério da Saúde declara transmissão comunitária nacional. Disponível em:<https://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/46568-ministerio-da-saude-declara-transmissao-comunitaria-nacional>.

[3] SASSAKI, Romeu. K. Inclusão: acessibilidade no lazer, trabalho e educação. Revista Nacional de Reabilitação, São Paulo, p. 10-6, Ano XII, mar./abr. 2009

[4] GESSER, A. Libras? Que língua é essa? Crenças e preconceitos em torno da língua de sinais e da realidade surda. São Paulo: Parábola, 2009

[5] VENTURA, Luiz A. S. Coronavírus: isolamento reforça importância da acessibilidade digital. Blog Vencer Limites, Estadão. 20/03/2020. Disponível em: <https://brasil.estadao.com.br/blogs/vencer-limites/coronavirus-isolamento-reforca-importancia-da-acessibilidade-digital/?fbclid=IwAR2w-SVgkbuQBL_kK2xvXBmVLpsWoUQVkr8nScHnb4dXZN5gVyj2KXu8qnM>

[6] COVID-19: Who is protecting the people with disabilities?. Mar/2020. Disponível em: <https://www.ohchr.org/EN/NewsEvents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsID=25725&LangID=E>.

[7] Recomendações de medidas temporárias e emergenciais de prevenção de contágio pelo Coronavírus para pessoas com deficiência, 2020. Disponível em: <http://www.pessoacomdeficiencia.sp.gov.br/Content/uploads/2020317182354_NOTA%20TECNICA%20COVID19.pdf>

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