“Os idiotas que nos governam”: da França ao Brasil
Terça-feira, 24 de março de 2020

“Os idiotas que nos governam”: da França ao Brasil

Imagem: News Stand Hub / Fréderic Lordon

 

Por Quintino Castro Tavares

 

“Os idiotas que nos governam” é o artigo do filósofo francês Fréderic Lordon que, não só nos elucida sobre a situação passada pela França, durante o período inicial da crise ainda em andamento, provocada pelo coronavírus, lança importantes insights sobre a nossa própria situação no Brasil.

 

 

Na perspectiva do futuro (deles) para o presente (nosso), fizemos uma reflexão sobre os caminhos a seguir, a partir do artigo que, publicado no dia 19 de março, ainda, por aqui, onde suposições já desmentidas no norte, são repetidas como verdades (vide a posição sobre a cloroquina), a leitura e suas projeções continuam atualizadíssimas. Assim, o título de Lordon, “les connards qui nous gouvernent”, ante à evidência dos nossos acontecimentos, parece uma profetização, tal qual mensagem do futuro para nós, em que a expressão “connards”, pode ser traduzida por “idiotas”, “imbecis”, “cretinos”, “jumentos” ou outra expressão de baixo calão semelhante, mesmo que ríspida, retrata o que temos vivido.

 

Fréderic London nos leva a pensar sobre os caminhos do capitalismo neoliberal até aqui e a consequência de escolhermos “connards” para nos governar. O que, para ele, na França, a evidência é indiscutível quando a então Ministra da Saúde, Agnès Buzyn, declarava, no fim de janeiro, que o vírus ficaria em Wuhan. Ou mesmo quando Blanquer (diretor-geral do ensino), na manhã de 12 de março, diz não haver razão para fechar as escolas e, na mesma tarde, é anunciado o fechamento de todas as escolas. O próprio presidente da França, Macron, por tweet, no dia 11 de março, embora muito longe de chamar a crise de “histeria” ou “gripezinha”, declamava, como um hipster do atelier de poesia colegial, diria F. Lordon, que nada seria capaz de tirar a nossa liberdade de se reunir nas salas de concerto ou nas festas das noites de verão. Até então, “les connards qui nous gouvernent” nada parece estranho ao que vivenciamos, salvo a diferença em dias.

 

De certo modo, o governo confundiu os franceses, porque no dia 14 começa o confinamento e no dia 16 morigera a população (aos bons costumes, à ponderação). Mas de longe, nem tão insensato assim, se comparado aos extremos dos nossos trópicos, bem exemplificada na resposta do governador de São Paulo, ao insinuar que lunático é o presidente que chama o coronavírus de gripezinha. Mas, então, o que esperar, quando o próprio governo parece acreditar uma situação tranquila?

 

Se a hipótese da surpresa está excluída, como conclui Fréderic Lordon, só resta a burrice do governo e que entre nós – sejamos sinceros – “n’est pas une surprise”. O que, na França, completa-se na mesma noite, dia 14, com a “súplica” de Martin Hirsh (diretor-geral da Assistance Publique – Hôpitaux de Paris, AP-HP), para que todos implementem as medidas anunciadas.

 

Para não se acusar de pessimismo, talvez no Brasil as coisas serão diferentes, por qualquer motivo já suposto, seja lá qual for (clima, anticorpos, média de idade). Mas, na França, tão logo se passou da destruição à súplica, como no Livro de S. Alexievich, sobre a mesma catástrofe de Chernobyl, na obra La Supplication (creio eu, “Vozes de Chernobyl”, em português). Parece exagero, mas “é verdade que Chernobyl está no ar”. São outros tempos, é claro, mas, concordando com Lordon, faxineiros (“nettoyeurs”) serão enviados, com um pano branco na boca e um par de botas, sacrificados, a padejar os entulhos vitrificados de radioatividade. Tipo os tweets que circulam sobre “faça você mesmo sua máscara”. Lá, de pano; aqui, de papel. Voluntários, voluntários na linha de frente, mas com pouca ou nenhuma proteção.

 

É que o capitalismo troçou dos soviéticos, de Chernobyl, do socialismo real (e por aqui, até dos chineses), mas esqueceu sua Three Mile Island e sua Fukushima. Porém, deveria ter o cuidado de não bancar o espertinho. Por isso a onda de otimismo é frágil, porque se em pleno 2020 não há máscaras nem gel suficientes nos hospitais da França, o que dizer de nós? A conclusão é “a que provavelmente ainda não se viu nada”.

 

No quadro desastroso previsto por Fréderic Lordon, quando os profissionais da saúde começarem a sair desprovidos dos hospitais, todos contaminados, “vont commencer à tomber comme des mouches” (começarão a cair como moscas), a estrutura da Saúde pode entrar em colapso. Zero-estoque, zero-leitos, quem tratará dos que tratam dos outros? É a gestão dos lean-managers, sustentados pelos argumentos (“moderados”) dos journalistas-épsilon.

 

Aqueles mesmos que só gritam “connards” quando a catástrofe já acontece. “Un peu tard”, quando, antes, para os que já gritavam “idiotas!”, retrucavam, “Meu Deus, quanto radicalismo! Toda essa violência! A democracia é o debate tranquilo longe dos extremos (que se tocam)”.  Essa “violência” seria para a ralé teimosa que, em sua loucura furiosa de “extrema-esquerda”, passava dos limites. Todavia, agora, até os jornalistas-épsilon bravejam: “connards”. Que bom, não fosse o fato de que, para as grandes catástrofes, é melhor enxergá-los de longe. Arriscar-se a berrar: “idiotas”, muito antes, quando tudo vai bem ou se acha que vai bem.

 

Na verdade, para nós, parecia ir bem (o PIB que subiria, o dólar que baixaria, Disney, emprego, etc.). Mas era melhor gritar “connards”, enquanto o desastre crescia na sombra. Assim, perante a destruição das escolas, da universidade e da pesquisa: idiotas! O fim do SUS: idiotas! Neste caso, melhor dizer, para seguir Lordon: “idiotas execráveis”!

 

No entanto, continuamos a repetir suposições que, no “futuro” da Europa (o qual assistimos d’avance), já foram terminantemente abandonadas. Como é o áudio atribuído ao empresário Roberto Justus que viralizou na Internet, em que, entre outras coisas duvidosas, continua a pregar a imunidade das pessoas pela contaminação geral. Quando, até mesmo o Reino Unido, que se viu na tentação de propagar a estratégia da “imunidade de grupo”, teve que abandoná-la, com susto.

 

Deixar infectar 50 a 60% da população, como estratégia, criando anticorpos para “uma próxima vez” é um jogo que pode muito bem ser feito com a gripe sazonal, mas não com a peste, como nos explica F. Lordon. E onde fica o coronavírus nessa tabela? Certamente, além da zona intermediária. Muito além de uma “gripezinha”.

 

É que uma propagação regulada levaria apenas à morte de alguns. Sério? Para o caso britânico, por exemplo, segundo a estimativa do Imperial College, esses “alguns que vão morrer” representariam cerca de 510 mil pessoas. Por isso, não à toa, a Inglaterra abandonou essa estratégia, cujo consequencialismo teria uma mão pesada demais sobre o sacrifício geral.

 

Esperamos que Paris e Londres tenham entendido a tempo os equívocos do rester sans rien faire, que infelizmente ainda habita sobre uma parcela do nosso governo. Como um jogo de quem manda mais e sob o lema de que “alguns vão morrer”, não se percebe (ou se percebe muito pouco) que “algumas mortes” pode ser mais “uma montanha de mortes”. E mortes de quem?

 

A Europa percebeu e passou brutalmente “da poesia colegial ao confinamento militar”. Mas como nós (aqui!) estamos na escala Ritcher da burrice? Por lá, de forma imperiosa e com razão, apelou-se à “guerra” e à “união nacional”. E como lá, não é a solidariedade com “eles”, com o governo, como quer passar algumas mensagens (de “auto-ajuda”) nas redes sociais, de duvidosa autoria. A solidariedade é entre nós, de nos cuidarmos (uns dos outros), e manter a liberdade de dizer: “idiotas”, se preciso. É que, embora o poder dizer deixou de ser relevante e o que conta mesmo é o poder de quem diz, isto é, só quando a grande mídia (dos jornalistas-épsilon) diz “idiotas” é que estamos autorizados a dizê-lo, precisamos não perder a severidade de dizer o que for preciso.

 

Mas a grande mídia também está mudando sua perspectiva. Tal qual nas municipais da França, quando a CNews cobria o momento em que votava Philippe Poutou (candidato do Novo Partido Anticapitalista, NPA), há parte da grande mídia (por aqui) que também já pode afirmar abertamente que “nossas vidas valem mais do que seus lucros” (talvez eu esteja a exagerar, mas há sinais). Palavras antes só atribuídas a um “trotskista”. Este, não na sua literalidade, mas tratado como uma metonímia contrária ao monopólio simétrico. Cujo manifesto, aqui, talvez um “basta de idiotices”, já não está mais apenas nos tweets pessoais de jornalistas como um Chico Pinheiro, por exemplo, mas ganha os editoriais. A lição é a mesma da França de Lordon.

 

Com as reformas, o crash da bolsa era apenas sarcasmo. Tudo estaria melhor com elas. As reformas (do trabalho, da previdência, administrativa, tributária), um antídoto para qualquer mal, até para os males do corpo. Mas como ficam os nossos hospitais (quase sem recursos) se concretizar as previsões estilo-Chernobyl? Na certeza de Lordon, para quem celebra a ética do serviço público, há-coisas-que-não-se-pode-confiar-à-lei-do-mercado.

 

Entretanto, ainda somos surpreendidos, saindo do forno, com a Medida Provisória 927 permitindo a “negociação” direta entre o patrão e o empregado (nem a mão invisível de Adam Smith consegue ser tão ingênua) e a possibilidade de suspensão do contrato de trabalho por quatro meses. Mas é o que importa, salvar a economia, os 22 mil “colaboradores” de algum empresário benevolente que não quer largar tudo e ir gastar seus ganhos em alguma praia caliente. A perda de algumas vidas, pela doença, de fome, é o custo mínimo.

 

Na França, Martin Hirsch explica que quando a reanimação não tiver outro efeito que senão prolongar um pouco mais a vida (a média de 8 dias), melhor a decisão racional (sic) de liberar mais uma cama. No nosso caso, o conhecido “alguns vão morrer”. Mas quem? Monstruosidade inapresentável. Cunhada por Ali Baddou como uma “responsabilidade terrível”, diz-nos Lordon, não se percebeu bem de quem é a responsabilidade terrível por essa responsabilidade terrível: devemos nos mobilizar. Aproveitar que até os propagandistas da ordem presente estão se acordando.

 

Sempre com Lordon, não se sabe onde vão os dominantes para que seu senso crítico global possa nascer, mas o importante é que o número é cada vez mais numeroso e todas as mortes do capitalismo neoliberal, antes pulverizadas: acidentes de trabalho, amianto, suicídios, etc. E por aqui a lista é grande se adicionarmos dengues e derivados, genocídio dos negros, transfobia, fome, etc. Todas essas mortes, “qui arrivent par wagons, on ne les planquera pas comme la merde au chat” (se chegarem em vagões, não poderão ser escondidas como titica de gato). É um claro sinal de que quem clama a fazermos algo, a chamar aos responsáveis, não está a exagerar.

 

Tomara! Tomara que longe de nós essa “terrível responsabilidade”, mas já se disse (pela voz do nosso ministro da saúde) que o sistema hospitalar entrará em colapso e, se for o caso, haverá de chegar também o momento da responsabilidade política. Pandemia, assevera Fréderic Lordon, que poderá servir como teste fatal da lógica neoliberal.

 

Sendo bem fidedigno a sua reflexão, esta pandemia nos recorda principalmente que uma sociedade é uma entidade coletiva, que não funciona sem construções coletivas – os serviços públicos, por exemplo. E a morte destes serviços, obstinação dos neoliberais, não é apenas um toque de morte institucional. É aquilo que reflete bem a faixa de protesto dos profissionais da saúde francesa, em dezembro de 2019: “o Estado conta os centavos, nós vamos contar as mortes”. Por hora, diz-se “idiotas”, mas não é uma brincadeira. Pode ser uma indulgência, ao mais que poderá ser dito mais tarde. E se muito de mal suceder, e não houver a dignidade da renúncia, teremos de dizê-los que nos encontraremos na hora certa: “dizons-leur quando même que, sur ce chemin, ils seront attendus au tournant”.

 

E enfim, que nenhuma previsão negativa se confirme e possamos apenas dizer, sorrindo, foi apenas um susto. Ainda bem que não temos “extremistas” da esquerda como Jean-Luc Mélenchon, Frédéric Lordon ou Philippe Poutou. Não somos franceses. Porém, que sejamos conscientes, pelo menos de agora em diante, das nossas escolhas, não só para o nosso bem, mas pensando nos demais.

 

 

Quintino Castro Tavares é professor assistente da Universidade Federal Fluminense, Doutor em Direito pela FND/UFRJ, graduado e mestre em Direito pela UFSC. Tem experiência forense e no magistério superior, com ênfase em Direito Processual e Teoria do Direito, atuando principalmente nos seguintes temas: Semiótica Jurídica, Direito Processual,, hermenêutica, constitucional e semiótica textual.

 

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