Em meio à crise, conspiracionismo custa vidas
Quinta-feira, 26 de março de 2020

Em meio à crise, conspiracionismo custa vidas

Imagem: YouTube / TV BrasilGov

 

Por Ergon Cugler

 

Em tempos de pós-verdade, a guerra das narrativas se entrelaça com a rotina ao ponto que nos desacostumamos do real – fica comum cair em fake news e desacreditar da informação que nos chega. Não à toa, mesmo com o alerta da pandemia do Covid-19, o obscurantismo teima em reduzir a realidade à ponto de vista, acusando a comunidade científica de histeria em meio às evidências.

 

 

Recentemente (10), o presidente Bolsonaro chamou a pandemia de “fantasia propagada pela mídia”, no esforço de polarizar junto à crise. Duas semanas após a primeira confirmação de coronavírus no país, pesquisadores da UFMG apontavam o aumento no nível de populismo do presidente com sua convocação de manifestações.

 

De live usando máscara (12) ao incentivo e participação de aglomerações em favor do governo (15), Bolsonaro chamou o alerta mais uma vez de “histeria”, mesmo após a primeira morte por Covid-19 no país (17), afirmando em entrevista (20) que “vão morrer alguns, sim”, “mas não podemos criar esse clima todo aí”, pois “prejudica a economia”.

 

Revolta da Vacina às avessas

Na obra Engenheiros do Caos, G. Da Empoli aponta que o caos gerado pela polarização constante propicia a superexcitação do engajamento, sem considerar se o conteúdo é verdadeiro ou falso. Da criminosa acusação que a China teria produzido arma biológica, à irresponsável minimização da crise junto à convocação de manifestações, o bolsonarismo se beneficia ao ter sua base mais fiel instigada por teorias da conspiração.

 

Vale reforçar que após o corte no bolsa família em meio ao Covid-19, o Governo propôs a suspensão de salário por até 4 meses. Alertas da comunidade científica, por exemplo, levaram países como Reino Unido e EUA mudarem radicalmente a estratégia de combate ao coronavírus. Quando governos ao redor do mundo injetam dinheiro na economia para proteger seu povo, no Brasil a narrativa é sequestrada para servir de instrumento político de um populismo obscuro e anticientífico.

 

Em uma espécie de Revolta da Vacina às avessas, enquanto parcela da população brasileira se sensibiliza em evitar circulação e conter o contágio, o Governo Federal – que deveria ter comando no combate à crise -, surfa às custas do caos. Pois é da ausência de responsabilidade de se governar para todos que o bolsonarismo utiliza do Estado para responder apenas às demandas de sua base de apoio, retroalimentando sua permanência no poder ao constituir um Governo de nicho, faminto pela polarização.

 

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Ocorre que, se em meio à rotina, o país governado pelo obscurantismo já colhe tragédia; durante uma pandemia, a letalidade é potencializada pela irresponsabilidade e ingerência daqueles que nos governam. Prova disso, é o ritmo de contágio no Brasil próximo do cenário italiano; e acelerando (Observatório do Covid-19 BR).

 

Prelúdio do Colapso

Após se isentar de operacionalizar as políticas de contenção, deixando vácuo para os governos estaduais restringirem aglomeração, até no aporte entre entes federativos, Bolsonaro decidiu polarizar; no sábado (21) apresentou Medida Provisória desautorizando normas estabelecidas pelos governadores e, ao invés de coordenar o combate à crise em unidade, desordenou cadeias de contenção em operação.

 

Contraditoriamente, o mesmo Governo que minimiza a crise, prevê o colapso do sistema de saúde em abril. Mesmo com a estrutura do SUS, as projeções na América Latina se relacionam com limitações de acesso à água, esgoto, saneamento e moradia – demandando maior responsabilidade do Estado na contenção, com mais vidas em risco.

 

O presidente não entendeu que a guerra é contra o vírus. Ou se entendeu, faz pouco caso. Entretanto, como a pandemia nos ensina que sem ciência não há futuro, nos vale Albert Camus, o qual nos lembra – na obra A Peste -, que em tempos de dor, angústia e medo, a solidariedade surge como a única resposta possível para se confrontar o absurdo da realidade como tal.

 

Graças à prontidão da comunidade científica em todo mundo e do empenho incessante dos profissionais da saúde que ocupam a linha de frente no combate à pandemia, podemos vencer essa crise com solidariedade, tendo em quem confiar. Quanto ao presidente, enquanto vidas estão em risco, fica a máxima de Barão de Itararé, “de onde menos se espera, daí é que não sai nada”.

 

 

Ergon Cugler é pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), associado ao Observatório Interdisciplinar de Políticas Públicas (OIPP) e ao Grupo de Estudos em Tecnologia e Inovações na Gestão Pública (GETIP) – EACH/USP.


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