O fantástico mundo das teorias de conspiração
Quinta-feira, 26 de março de 2020

O fantástico mundo das teorias de conspiração

Foto: Isac Nóbrega / PR – Imagem: Kevin Carden / Deviant Art – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Igor Tadeu Camilo Rocha

 

Diante da terrível pandemia do COVID-19, muitas pessoas que podem estar lendo este texto já devem ter recebido algum tipo de explicação conspiratória sobre a sua origem. A mais conhecida, atualmente, é a referente da “culpa chinesa” dessa grande tragédia, reproduzida até por um quase indicado a diplomata, num contexto em que a própria diplomacia brasileira está eivada do conspiracionismo.

 

 

A estória (assim, com “e”) consiste no seguinte: objetivando destruir a “economia ocidental”, os chineses ou governo chinês teriam, se não criado o vírus em laboratório, o espalhado, causando a pandemia. Outra variável é a que eles escondem o tamanho do problema até que ele se espalhasse pelo mundo. 

 

Não se apresentam provas conclusivas. Geralmente, apresentam-se indícios, no mínimo, obscuros, que sustentam tal tese, quando muito. Tratam-se de evidências que um investigador de qualquer área que seja iria, diante das lacunas apresentadas, procurar mais informações ao invés de afirmar categoricamente algo. Mas, no caso dessas estórias, tais lacunas são cobertas por informações claramente falsas, causalidades forçadas ou, ainda, uma série de perguntas que compõe uma retórica que, diversas vezes, invertem o ônus da prova.

 

Assim se forma uma teoria conspiratória. O caso da suposta culpa chinesa da pandemia do COVID-19 serve para ilustrar alguns de seus elementos. Observando em detalhes, é possível identificar nessa teoria conspiratória elementos similares a muitas outras. O texto aqui proposto visa mostrar brevemente que as teorias conspiratórias possuem elementos que tornam suas narrativas muito parecidas. Em alguns casos, várias são estruturalmente iguais, mudando-se somente seus personagens.

 

É o que identificou o autor Jovan Byford, professor na Open University (Reino Unido), que em 2011 publicou Conspiracy Theories: a critical introduction¹, que analisou historicamente esse tipo de teoria, identificando seus elementos estéticos e narrativos, além de mapear alguns de seus vários usos.

 

O inimigo “real” imaginário e a conspiração motor da História

Explicações do mundo que são estrutural e narrativamente similares ao que chamamos de conspiratórias não são novidade. Cito como exemplo a documentação que analisei em minha tese de doutorado em História para mapear alguns argumentos que sustentaram o antijesuitismo no período pombalino (1750-1777), em Portugal. Naquele contexto, em publicações como a Relação Abreviada (1757) e o Compêndio histórico da Universidade de Coimbra (1771), os jesuítas foram apresentados como um grupo de conspiradores contra o reino de Portugal, que se infiltrou na corte para manipular os reis, nas universidades e colégios para manipular e escravizar os súditos do monarca através dos seus “sistemas”, e que mantinham as pessoas na ignorância para subjuga-las².

 

A mesma documentação indica que tais premissas eram bem articuladas a um projeto de governo, que associava a Companhia de Jesus a políticas e mentalidades que pretendiam superar. Aqui não cabe aprofundar no assunto. A questão fundamental é que no livro de Byford, o autor faz uma diferenciação entre as teorias conspiratórias modernas e as anteriores, tendo como marco a obra de Augustin Barruel, Mémoires pour servir à l’histoire du jacobinisme (1797-98). Tal publicação explicava a Revolução Francesa de 1789 como produto de uma “conspiração maçônica”. Dizia que, das lojas maçônicas e sociedades secretas, surgiram os movimentos contrários aos monarcas e ao clero que, de maneira avassaladora, desencadearam processos que deram fim à ordem do Antigo Regime.

 

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Novamente sem se aprofundar na obra, chamo a atenção em aspectos estruturais da tese de Barruel que, segundo Byford, também estruturou teorias conspiratórias posteriores. A primeira é a de um “inimigo real imaginário”. Para Byford, autores como Barruel partem suas elaborações de inimigos que, materialmente, existem. No caso do religioso contrarrevolucionário francês, era comum em seu contexto associar as teses conspiratórias aos Iluminati, ordem que surgiu na Alemanha na década de 1770 e durou menos de 10 anos e, no seu auge, chegou a ter centena de membros.

 

Porém, do inimigo materialmente existente, como a ordem mencionada ou outras similares, as elaborações do conspiracionista extrapolam muito seu tamanho ou poder. Segundo a “revelação” de Barruel, o grupo que conduziu o plano de destruir a antiga ordem, ainda que reduzido em tamanho, era apresentado como detentor de um grande poder (político, financeiro, intelectual), além de uma quase onipresença, de maneira que toda a sociedade (exceto, claro, aqueles que recebiam a “revelação” do conspiracionista) era manipulada por aquele grupo. 

 

Nisso, forma-se um padrão que será, em grande medida, repetido ao longo da história. A teoria da conspiração se desenvolve pela ação de um inimigo, real até certo ponto, pois apesar de, a rigor, existir, na conspiração ele possui atributos tão improváveis quanto prodigiosos. O grupo de conspiradores identificado na teoria controla meios de comunicação, finanças, educação, entre outros.

 

 Outro aspecto importante é que na narrativa conspiratória, esse grupo de poucos que manipula o todo social não comporta espaço para conflitos ou incoerências. “Eles” sempre agem num conluio perfeito a fim de executar seu movimento histórico. Junto a isso, há outra característica central: sua identificação é geral, vaga. O que lhe confere grande mobilidade.

 

Assim, o conspirador, dentro da narrativa conspiracionista, pode ser a maçonaria, segundo Barruel, mas também qualquer outro grupo identificado estruturalmente dessa mesma forma. Por exemplo, Byford dedica um capítulo inteiro do livro às conspirações antissemíticas, pois a teoria da “conspiração judaica” (cujo maior exemplo são os Protocolos dos Sábios de Sião, mas existem muitas outras publicações nesse sentido do século XIX até hoje) segue essa mesma estrutura.

 

No Brasil, vemos outras teses conspiratórias parecidas, como a da manipulação comunista nas universidades e escolas ou do Foro de São Paulo. O inimigo geral, existente, porém parcamente identificado – os judeus, os chineses, os comunistas, a “mídia”, a esquerda, etc. – que age de maneira secreta, porém onipresente, e organizadamente em perfeita harmonia, com recursos e poder quase infinitos para manipular a todos, são elementos presentes em todas essas teorias.

 

De fundo, há ainda outro ponto que as conecta: no universo das teorias de conspiração, não existe espaço para outra causa de movimentos históricos que as teorias de conspiração. A conspiração é, a rigor, um motor da história. Nessas narrativas, conspirações causam guerras, revoluções, assassinatos de presidentes e mesmo mudanças de costumes ou epidemias. Não existe acaso, falhas no “grande plano” ou causas naturais para rigorosamente nada. 

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A necessidade ambígua da prova

Os exemplos mencionados acima também guardam a semelhança de não apresentarem provas que confirmem suas teorias. Na verdade, apresentam-se, com frequência, provas insuficientes e repletas de lacunas. Junto a elas, muitas inferências, superdimensionamentos e causalidades problemáticas. No livro citado, Jovan Byford explica que um mecanismo fundamental das teorias conspiratórias é essa relação ambígua com a prova: eles não prescindem delas, mas as dúvidas que elas deixam – que fariam outros investigadores, no mínimo, desconfiarem delas, procurarem por outras, e inclusive estarem abertos a outras que a contestem ou refutem – transformam-se em certezas quase que absolutas.

 

No caso da suposta culpa chinesa pela pandemia, isso fica claro. É comum suas versões estarem amparadas por informações reais, como o fato de a atual pandemia ter tido seu foco inicial numa província da China, alguns links com informações desencontradas e contraditórias do governo e imprensa locais, além de relacionar experiências de crescimento econômico anteriores com épocas de outras grandes epidemias.

 

Um investigador procuraria evidencias que sustentassem a coerência de algumas das informações divulgadas e traria questionamentos diante de algumas incoerências entre elas, bem como jamais afirmaria haver relação causal entre tais eventos e o crescimento da economia daquele país sem as devidas provas disso. Mas o teórico da conspiração cobre todos esses “buracos” com certezas absolutas. Quanto mais obscuras as informações usadas como provas, maiores os espaços a serem cobertos por uma narrativa “reveladora” do “grande plano” do “inimigo”.

 

Trata-se de um modelo que serve para quase todos os conspiracionismos. A teoria conspiratória da “ideologia de gênero”, por exemplo, defendida pela extrema direita religiosa no Brasil, se vale da ideia de haver um grande plano articulado pela “esquerda” para uma desconstrução do modelo tradicional de família e de moral sexual. As “provas” da sua existência, no geral, são diretrizes de programas e bases curriculares educacionais que orientem, por exemplo, ações no combate às discriminações de gênero e orientação sexual, que geralmente ocupam partes bem reduzidas desses documentos. O superdimensionamento dessas informações, assim como liga-las a elementos como “a mídia”, “indústria cultural” ou “esquerda”, tudo funcionando de modo perfeitamente harmônico na narrativa conspiratória da ideologia de gênero, cobre todos os senões que existem nessa asserção. 

O efeito verdade e a irrefutabilidade

Seria simples provar que cada uma das teorias exemplificadas, além de muitas outras, são falsas. Por exemplo, quanto à ideia da conspiração chinesa, a Nature divulgou estudo que mostra que o COVID-19 não foi criado em laboratório. Um sem número de matérias e outras informações mostram que o Foro de São Paulo nem é uma organização secreta, muito menos conspira em favor de qualquer revolução socialista na América Latina. Mas o problema apontado por Jovan Byford é que ninguém convencerá um teórico de conspiração disso. As teorias de conspiração não são refutáveis

 

Isso acontece porque elas são, estruturalmente, feitas de maneira a repelir qualquer tipo de explicação que mostre sua falsidade. Um propagador da ideia da culpa da China pela pandemia terá diversos argumentos para questionar o estudo da Nature, assim como um crente na conspiração do Foro de São Paulo, a exemplo nos crentes da conspiração maçônica, comunista ou judaica, também questionará as informações reais sobre ele. A “mídia”, a universidade ou a comunidade científica, manipuladas por ou sendo o próprio agente da conspiração, são uma tópica comum para proteger o sistema conspiratório.

 

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Há outro artifício retórico que o autor chama de “ceticismo conspiratório”. Quaisquer estudos ou matérias jornalísticas, por diversas questões, não cobrem um assunto de maneira absoluta, deixando algumas dúvidas. Isso, inclusive, é um ponto saudável para a produção científica ou jornalística, ao apontar, para outros profissionais, aspectos que merecem ser estudados, investigados ou abordados com mais atenção. Mas, para um teórico da conspiração, isso é apresentado como uma espécie de “falha” do “grande plano”. 

 

Negacionistas climáticos, por exemplo, afirmam que o frio que sentem eventualmente ou ondas de frio que se abatem em alguns contextos “refutam” a tese do aquecimento global. E quando cientistas apresentam evidências que dias ou épocas frias não desmentem o aquecimento global, a reação normal desses teóricos de conspiração seria a de apresentar tal ponto como uma prova da inconsistência dos estudos “manipulados”, vindos de uma comunidade científica controlada e univocamente mal intencionada.

 

Esse ceticismo conspiratório, por sua vez, insere-se na esfera pública na forma de polêmica: são “historiadores” que vão a programas de televisão questionando a existência do Holocausto, se determinadas civilizações têm ou não origem alienígena ou se o golpe de 1964 foi ou não reação a uma conspiração comunista; são “cientistas” que contradizem consensos como a evolução das espécies ou origem de doenças como a AIDS ou o COVID-19, entre outros. Com tais tópicos retóricos, adaptam suas linguagens à linguagem científica, dando um ar de neutralidade e rigor científico que não possuem. E, por essa via, inserem-se no debate público com teses sem qualquer sustentabilidade do ponto de vista científico ou teórico, como se fossem polêmicas válidas, normalizando o absurdo e equiparando-o ao conhecimento metodicamente produzido.

O que fazer?

Se demonstrar a falsidade das teorias conspiratórias parece tão fácil quanto insuficiente, a pergunta sobre o que se deve fazer com elas é bastante difícil de responder. Primeiramente, deve-se ter em vista que elas formam visões de mundo: trata-se de um pensamento conspiratório, nos termos de Jovan Byford. Elas são formas de ver o mundo. E uma forma intrinsecamente maniqueísta: para um crente nas teorias de conspiração, o mundo se divide entre o “nós”, formado por quem obteve a revelação do “grande plano”; uma maioria da sociedade, manipulada por “eles”; e “eles”, o agente da conspiração, que deve ser combatido e vencido. Assim, a conspiração conforma identidades ontológicas e sentimentos de comunidade. Assim, combate-las significa, antes de tudo, “furar bolhas” ideológicas.

 

Sobretudo, deve-se também entender que não se tratam de ideias curiosas ou inofensivas. O infame exemplo dos Protocolos dos Sábios de Sião mostra que teorias de conspiração estão do lado de projetos perversos de ação no mundo real. Movimentos anti-vacina ou negacionistas científicos mostram, ainda, os ricos para a coletividade que elas representam.

 

 

Igor Tadeu Camilo Rocha é Doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais.


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Notas:

[1] Infelizmente, este livro não tem tradução para o português. Seria interessante a tradução, pensando o Brasil atual e nossa necessidade urgente de compreender fenômenos como as crenças do olavismo.  BYFORD, Jovan. Conspiracy theories: A critical introduction. Springer: Palgrave McMillan, 2011.

[2] ROCHA, Igor Tadeu Camilo. Entre o ‘ímpeto secularizador’ e a ‘sã teologia’: tolerância religiosa, secularização e Ilustração católica no mundo luso (séculos XVIII-XIX). Tese [Doutorado em História]. Belo Horizonte: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas – UFMG, 2019. Disponível em: http://abre.ai/aSNK. Acesso em 23 mar. 2020. p. 157-169.

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