A pandemia ou um ensaio sobre a “coisa”
Quinta-feira, 2 de abril de 2020

A pandemia ou um ensaio sobre a “coisa”

Imagem: Ensaio sobre a cegueira (2008)

 

 

Por Priscila Aurora Landim de Castro

 

Alguns dizem que a terra parou.  O fato é que as pessoas foram forçadas a se recolher, os corpos pararam, não transitam com a mesma liberdade de antes. Corpos parando e a mente entrando em erupção. Pessoas acostumadas ao mundo exterior sendo forçadas a se ensimesmarem, logo isso que nunca nos foi ensinado, tampouco incentivado.

 

 

Nós que sempre nos protegemos de nós mesmos através da sequência infinita de atividades, trabalho, estudo, academia, família, vida social, redes sociais e qualquer coisa que nos livre dessa solitude enlouquecedora.  Falamos do excesso de trabalho e obrigações como condições materiais de existência e esquecemo-nos do quanto esse mesmo excesso compõe uma condição psíquica de sobrevivência. A verdade é que enlouquecemos em um dia de confinamento com nós mesmos e o mal-estar experimentado guarda relações íntimas com a constatação de que o inferno está aqui dentro o tempo todo e precisamos de muitas doses de qualquer coisa para não entrar em contato com ele. 

 

Alguns dirão que a questão atualmente enfrentada não é exatamente essa, pois agora ela se fez concreta e está lá fora. Ela tem corpo e nome. Ela é a pandemia! Pode ser que insistam no argumento de que o inferno sempre esteve lá fora, afinal, o inferno são os outros ou a “coisa”.

 

 E a “coisa” veio à galope, atravessou continentes e instalou-se no mundo. A “coisa” está em todo lugar, na Ásia, na Europa, na América, no Brasil.  A “coisa” parece ter saído de um livro do Saramago e a compreensão da sua natureza e resolução dos seus efeitos danosos seriam somente possíveis mediante as palavras mágicas exclusivamente proferidas por Clarisse Lispector. Talvez seja isso o que os médicos não entenderam, precisamos de Saramago, Lispector e de tudo aquilo que só a arte antevê e protege. Enquanto isso, estamos aqui desamparados no abismo, mutilando-nos mentalmente. Mas quem mutila quem e o quê, a “coisa” ou nós?

 

Alguns julgam incompreensível o ato de cortar o próprio corpo com navalhas. Tal incompreensão delata terem se esquecido dos inúmeros cortes simbólicos e materiais provocados ao longo de toda uma vida preenchida pela mutilação dos desejos, afetos, medos, os quais frequentemente são delatados pelo corpo e pela alma fatigados. Esse é o nosso culto diário de sobrevivência e, por isso, a automutilação é um ato tão humano. A insistência em classificar a automutilação como “coisa de louco” demonstra o desconhecimento sobre a natureza das duas coisas que anunciam. O louco não é aquele que escapa à nossa humanidade, ao contrário, ele é a representação máxima de tudo que compreende a condição humana. O louco é a hipérbole da humanidade. Daí, talvez, a mutilação seja um ato de loucura e, portanto, de excesso do humano. 

 

As pessoas que se mutilam corporalmente costumam descrever como sendo mais fácil suportar a dor física do que a dor psíquica. Por isso, os cortes comporiam a estratégia de tirar o foco da dor interna, emocional, mediante a transferência de atenção para a dor externa, localizada no sangrar do corpo. A materialidade do sangrar permite estabelecer uma correlação entre a dor e a causa, diferente da devastação provocada por não saber nominar o que sente e porque sente. O sangue comunica muitos limites da condição humana e, em razão disso, ele pode representar muitas pontes. Assim, a automutilação dá corpo à dor, dá cor e textura aos sentimentos e trata-se de um ato mais humano do que bestial. 

 

A automutilação é exatamente a especialidade de todos nós, ferimo-nos na carne, causamo-nos inúmeras exaustões físicas, psíquicas e emocionais que simultaneamente ferem e protegem. Mutilamo-nos e arranjamo-nos numa colcha de retalho tentando fazer de nós um tecido estética e produtivamente ajustado.  Em nome disso e em razão disso seguimos. 

 

Convocamo-nos e somos convocados a uma sucessão de atos que nos privam da fatalidade de estarmos a sós com o nosso avesso mutilado. O problema lançado pelo filósofo francês está a nossa espreita e ele nos mostra que entre quatro paredes o inferno somos nós. O abismo está dentro e quem diria que o mundo todo seria convocado a mirá-lo tão de perto e simultaneamente. 

 

Talvez o vírus tenha sido fruto de uma conspiração, mas não a comunista, equivocadamente superestimada ultimamente. É possível que ele tenha sido criado para fragilizar o corpo e ferir de morte as nossas estruturas interiores mutiladas, e, por isso, vulneráveis. Nem mesmo a mais brilhante obra de ficção cientifica teria sido capaz de pregar a peça criada pela natureza. Eis que a natureza se rebelou em um atentado contra o nosso psiquismo e instalou uma histeria internacional. Nós, os seres da razão. A razão o predicado mais humano, utilizado como justificativa de domínio sobre todos os reinos da natureza.  Vaidosamente declaramos que somos racionais, o que quer que isso signifique, e nesse exato momento o que importa é que estamos aqui no precipício da razão, subalternos da natureza. Touché! Xeque e mate! O vírus mata alguns, o medo mata o resto. Isso que é rebelião!

 

O isolamento tem causado angústia. Mas talvez a natureza tenha elegido a angústia como Caronte a guiar as almas pelo Hades, pois a angústia é a morada do desejo e da verdade suprimidos. É a angústia que comunica as nossas mutilações, a nossa alma devastada. Portanto, talvez seja o momento de olharmos com mais carinho e cerimônia para aquilo que nos angustia. O problema que se coloca àqueles que se voluntariarem a tal tarefa insana decorre da impossibilidade de convidar a angústia para sentar-se à mesa, pois ela não se faz anunciar e a sua natureza é arredia. A angústia captura e escapa em um piscar de olhos. Ela, assim como a alegria, nos visita em momentos de descuido. Portanto, caso você a vislumbre e caso lhe restem forças, aconselho que você a encare nos olhos e, se ela possuir chifres, que você a agarre pelos chifres, role com ela, eventualmente se deixe matar e morrer. O medo da morte nos assola, a despeito de sabermos que a vida inclui em si mesma inúmeros atos de vida-morte-vida.  Portanto, observe o que em você teme, o que teme, porque teme, o que vive e o que morre. Talvez seja esse o sentido da “coisa”.

 

 

Priscila Aurora Landim de Castro é doutoranda em Sociologia pela Universidade de Brasília. Pesquisadora Associada ao Núcleo de Estudos Sobre Violência e Segurança – NEVIS/UNB.

 


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