De Gripezinha à Histeria
Quinta-feira, 2 de abril de 2020

De Gripezinha à Histeria

Imagem: José Cruz / Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Maria Virginia Filomena Cremasco e José Felipe Vicente

 

Em meio ao atravessamento da calamitosa Pandemia do novo coronavírus, os brasileiros ainda precisam fazer face à outra peste: o presidente Jair Bolsonaro. As declarações do mandatário nesta terça-feita, 24/03, em pronunciamento nacional de rádio e TV, repreenderam as medidas de isolamento social adotadas para conter a proliferação do vírus, voltou a chamar o novo coronavírus de “gripezinha” e retornou a insistir que a crise enfrentada se trata de “histeria”, consoante a sua entrevista dada à Rádio Tupi do Rio de Janeiro quando da sua exposição em contato com seus apoiadores em uma manifestação:

 

 

“Esse vírus trouxe certa histeria. E alguns governadores estão tomando medidas que vão prejudicar muito a nossa economia. Se for nos ônibus do Rio, Metrô de São Paulo, está tudo lotado. A vida continua, não tem que ter histeria. Tem que tirar a histeria. A histeria leva a um baque da economia”.

 

Do discurso do presidente, desponta-se o significante da histeria o qual é utilizado para patologizar as reações públicas e até governamentais diante da crise, o que deve ser alvo de nossas elaborações aqui. Sabemos que Freud iniciou sua teoria psicanalítica a partir da fala das histéricas. Tal psicopatologia, matricial na formação da Psicanálise, sempre esteve associada pelos antigos ao sexo feminino, contudo a clínica revela a sua presença nos homens e mulheres.

 

Ocorre que tal significante é utilizado como tática de ataque por Bolsonaro, que insiste em reproduzir um saber equivocado e misógino acerca do conceito. A mulher histérica foi vista por muito tempo como pecadora, dominada por um espírito maligno, ao ponto de simular doenças. Desse modo, a histérica tanto queimada na fogueira quanto no consultório médico traz notícias de que o que é incinerado e esfumado ali é o desejo do sujeito.

 

Nesse panorama, a histeria se apresenta como uma gramática potente para furar discursos capitalistas, segregacionistas, patriarcais. Por isso, o senso comum atribui comumente a loucura a uma mulher que se posiciona. Toda mulher que é desejante acaba por ser lida como histérica, na proporção de que a sujeita falante é desautorizada a falar. Você fala de mais, é histérica!

 

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Hoje, o sofrimento histérico referencia traços característicos de perturbações por suas demandas sexuais corporais e por suas idéias sexuais recalcadas. O sujeito histérico, superidentificado com o outro, apresenta-se ao mundo de forma teatral, na forma de que opta por devanear acerca de sua existência do que nela se implicar. Trata-se de ludibriar-se com a ilusão da inocência infantil ao invés de fazer face à mundanidade do adulto.

 

O histérico, além disso, padece da sugestão, à qual é altamente vulnerável. Influenciável pelo outro, ele é afetado por aquilo que seus companheiros histéricos lhe trazem e a partir disso se inscreve – na palavra do outro. 

 

Não à toa, então, o Presidente se vale do significante da histeria para nomear aqueles com que a crise se espantam e se angustiam. Isso, com o propósito  de situá-los no campo da vulnerabilidade, da fácil influência, a fim de que seus argumentos em prol da contenção do vírus sejam deslegitimados, em função do  possível lugar de “fantasia histérica” do qual reivindicam. 

 

Nesse contexto, uma população desigual que clama por políticas públicas de emergência para conter o que vem se apresentando como uma possível catástrofe é reduzida à histeria. Tal clamor é  patologizado, jogado no campo do pathos, isto é, da paixão, da efervescência pulsional, lugar em que como sujeitos falantes estariam submetidos radicalmente ao desejo do outro, da grande mídia, da oposição. Sem ter a legitimidade, portanto, para se preocuparem e resguardarem as próprias vidas, tendo assim que retornarem aos seus afazeres, produzir, fazer a economia girar – não parar. 

 

Na retaguarda do que o mundo faz, Bolsonaro não quer parar. Patologiza o sofrimento e as necessidades de sua população que necessita de sérias intervenções. Levianamente, utiliza o significante de um sofrimento psicopatológico para desvalorizá-lo, assumi-lo como descartável e não ser digno de ser considerado. O Presidente não faz ponte com a alteridade e não reconhece que a normalidade apresentada pelo real agora é outra – e que a sua textura é de calamidade.

 

 

Maria Virginia Filomena Cremasco é Pós-doutorada no Centre d’Etudes en Psychopathologie et Psychanalyse na Université Denis Diderot (Paris VII). Possui Doutorado em Ciências Médicas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Mestrado em Psicologia da Educação  pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é Professora do Departamento e do Mestrado em Psicologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Coordenadora de Extensão da Pró Reitoria de Extensão e Cultura da UFPR.

 

José Felipe Vicente é Graduando do curso de Psicologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Atuou como bolsista do Núcleo de Estudos e Defesa de Direitos da Infância e da Juventude (NEDDIJ) da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e foi estagiário do gabinete da Juíza de Direito titular da Vara da Infância e da Juventude da comarca de Foz do Iguaçu/PR.


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Notas:

[1] BOLSONARO repete que há “histeria” sobre coronavírus e diz que dará “festa”, Correrio Brasiliense, 17 mar.2020. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/03/17/interna_politica,834840/bolsonaro-histeria-sobre-coronavirus-e-diz-que-dara-festa.shtml. Acesso em 25 de março de 2020.

[2] GRASSI, Maria Virgínia Filomena Cremasco . Psicopatologia e disfunção erétil: a clínica psicanalítica do impotente. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP : [s.n.], 2002.

[3] JORGE, M. A. C. Discurso médico e discurso psicanalítico. In: Jean Clavreul: A ordem médica: Poder e impotência do discurso médico. Cidade: Rio de Janeiro, ed: Brasiliense, 1997, p. 18.

[4] BOLLAS, Christopher. Hysteria, São Paulo, Escuta, 2000, p. 8.

[5] Idem

Quinta-feira, 2 de abril de 2020
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