“O Brasil não pode parar”
Quinta-feira, 2 de abril de 2020

“O Brasil não pode parar”

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Por Eduardo Felipe Lezo Zamboni

 

Até recentemente, o Ministério da Saúde empenhava-se no combate ao coronavirus (COVID-19) diante da classificação da doença, em 11 de março de 2020, como pandemia, pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Digo aparentemente porque desde o início, numa evidente contradição, o discurso presidencial se contrapunha ao discurso de seu próprio Ministro da Saúde, tendo em vista que Bolsonaro denominava a doença como uma “gripezinha” e uma grande “histeria”. Nesse sentido, inclusive, cobrou de Henrique Mandetta uma postura mais política e, consequentemente, menos científica.

 

A orientação da OMS, a partir da classificação, em razão da experiência dos países em que já havia a transmissão interna, era a de que o isolamento social era necessário, justamente para que o sistema de saúde não entrasse em colapso, como ocorre na Itália e agora na Espanha – que, inclusive, estatizou seus hospitais privados. O objetivo, portanto, era o de que se achatasse a curva da doença, para que os hospitais pudessem garantir a todos e a todas leitos de UTI e respiradores.

 

Pois bem. Contraditoriamente, Paulo Guedes, ao prever que a economia irá desacelerar drasticamente em razão crise, apela, mais uma vez, para a radicalidade do cretinismo. Bolsonaro, vem a público e pronuncia-se no sentido de que o isolamento irá afetar significativamente a economia e que, em razão disso, os Estados devem rever a decretação de quarentena e o país deve voltar à normalidade. 

 

Vemos, pela primeira na história, o Estado brasileiro decretar calamidade pública em virtude de uma pandemia e na mesma semana orientar a população para que voltasse à sua rotina, pois, se não morrerem infectados pela doença morreriam de fome. Utilizou-se quase que o mesmo slogan que Michel Temer em 2017: “Trabalhe, não pense em Coronavirus”!

 

Verifica-se, assim, a preocupação do governo com a recessão que está por vir. Mas antes mesmo de analisá-la, importante realizar algumas considerações acerca das contradições de seu discurso: (i) apesar de evidente, encobre-se a importância do trabalho como gerador de toda a riqueza social, mas, (ii) ao mesmo tempo, consideram-se os trabalhadores e trabalhadoras como mercadorias, visto que pouco se importam com sua saúde e a potencialidade da letalidade da doença. (iii) Mesmo numa crise sem precedentes, sobrepõem-se o direito de propriedade (lucro) acima dos direitos sociais. (iv) Ao que parece, ainda, pelo fato do Brasil ser um país periférico e ter por característica a super exploração da força de trabalho, não se abandona a ideologia neoliberal, diferentemente do que vem ocorrendo nos países desenvolvidos, os quais, do dia para noite, tornaram-se keynesianos.

 

Todavia, apesar de ser evidente que Bolsonaro está atendendo a interesses puramente econômicos diante de sua fala, como explicar a histórica reportagem do jornal nacional, do dia 26/03/2020, enaltecendo a política do New Deal, de Roosevelt, diante da crise de 1929? A mesma emissora que apoia a EC 95 (que congela os gastos do Estado para assistência social), a reforma trabalhista de 2017 (que impõe, num processo antidemocrático, o maior retrocesso à classe trabalhadora desde 1988), a reforma da previdência e outras reformas contra trabalhadores e trabalhadoras, é a mesma emissora que agora, nesta crise sem precedentes, clama-se para uma interferência estatal para salvar o capitalismo. Nesse mesmo sentido inclinam-se a maioria dos meios de comunicação de massa – que representam os interesses de grandes conglomerados econômicos – os quais, quase que 24 horas, orienta, corretamente, sobre a importância de se realizar a quarentena. 

 

Evidencia-se, assim, uma contradição de interesses. Como explicá-la?

 

A hipótese que sugiro é a de que se está diante de uma cisão da elite econômica nacional: de um lado, a parte que ainda continua apoiando Bolsonaro, que é oposta à ideia de isolamento social e que tem raízes escravocratas e evidentes traços racistas – como é o caso do dono do Madero, da Havan e o Roberto Justos – e está pensando em seus imediatos ganhos econômicos, ainda que isso signifique a morte de milhões de pessoas; de outro lado, há uma elite econômica que, aparentemente, rompeu com o governo, compreende o “tamanho” da crise e sabe da importância do Estado para salvar a economia nacional, numa atuação anticíclica, como na crise de 1929.

 

Resumidamente, temos, então, de um lado, uma elite econômica xucra que não compreende a gravidade do momento, pois se acha que o fim do isolamento traria de volta a retomada da estagnação que tínhamos (crescimento de 1%, 2%), e, de outro lado, temos uma elite que compreende a gravidade e que pretende salvar o capitalismo e a economia do país por meio do Estado.

 

Mauro Iasi realiza uma bela análise de conjuntura e também sustenta a hipótese de que Bolsonaro ainda não caiu porque o que o sustenta é justamente parte dessa elite econômica que o apoia. Em suas palavras: 

Caso interrompêssemos a análise neste ponto teríamos praticamente um empate. Aqueles que querem retirar o miliciano teriam posições institucionais, aparelhos midiáticos, um segmento de massas e parte do aparato repressivo. O capitão, por sua vez, teria a seu favor (blefando ou não), parte das massas, aparatos policiais e parte das Forças Armadas. Se tivesse que apostar, acredito que nesse cenário ele já teria caído. Por isso, sustento que aqui entra um fator diferenciador: parece-me que ele ainda se sustenta e sobrevive porque as classes dominantes se encontram divididas”.

 

Bolsonaro compreende perfeitamente tal conjuntura e seu desespero é perceptível no discurso, pois apesar de psicopata não é burro. Ele sabe dos sérios riscos que corre em virtude do pífio resultado econômico de 2019 e do que virá agora em 2020, apesar de contar com uma base significativa de apoio de militares, milicianos e exército – como menciona Iasi. Por isso deseja realizar todos os interesses econômicos dos que permaneceram ao seu lado. Ele sabe bem que a “estabilidade” de seu governo está “nas mãos” dessa parte da classe dominante e condicionada aos resultados econômicos por ela desejados. E como salienta Iasi sobre tal elite, “se o preço a pagar é a destruição do país e uma aventura fascista, esses senhores estão dispostos a pagá-lo” ou, em termos ainda mais claros, se o preço a se pagar é a destruição de 1 milhão de vidas pelo coronavirus, esses senhores estão dispostos a pagá-lo.

 

Como afirma Jones Manuel, não estamos diante da possibilidade de escolher se vamos ou não ter recessão, como acredita parte da burguesia. Ela, necessariamente, virá. Nesse contexto, também levanto a hipótese de que a escolha de Bolsonaro em se aliar aos que não têm a dimensão deste momento histórico o colocará em maus lençóis após o fim da pandemia, pois, além do resultado econômico que será desastroso (que ele tentará, a todo custo, atribuir aos governadores), as mortes, caso haja o fim do isolamento, lhe serão atribuídas. A não ser que as instituições, como no caso do Queiroz, resolvam protelar a responsabilização, o que não acredito, tendo em vista que, neste momento, não terá o miliciano a mesma força.

 

A crise é grave e, a cada momento, as contradições ficam cada vez mais evidentes. Boa parte da sociedade brasileira que não anulou sua racionalidade vê atônita o estrago social e a gravidade do imenso retrocesso que o desgoverno vinha ocasionando em todas as áreas, e agora, como não bastasse, minimiza a vida de milhões de pessoas. 

 

Mas como nos mostra a história, é justamente em momentos de crise que se abrem novas oportunidades e novas formas de organização social, e estamos, neste momento, diante de uma delas. Reivindicam-se, por exemplo, inclusive parte dos conservadores, a necessidade iminente de uma renda básica universal, abrindo espaços para se tornar uma política de Estado, futuramente. Isso jamais seria pautado no Congresso há um mês atrás. Portanto, que façamos deste triste momento uma oportunidade para evidenciarmos a irracionalidade desta sociedade, em que se impera o individualismo, para que, de uma vez por todas, possamos colocar fim ao neoliberalismo. Aproveitemos para concretizar uma sociedade pautada pelo imperativo da solidariedade, reconhecendo que toda a riqueza produzida pela classe trabalhadora, a ela, com equidade, deve ser distribuída.

 

 

Eduardo Felipe Lezo Zamboni é graduado em Direito pela PUC-Campinas. Pós graduando em Direito do Trabalho (USP) e pós graduando em Economia do Trabalho e Sindicalismo (Unicamp). Advogado trabalhista.

 


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Notas:

[1] Enquanto isso, o Brasil destina 10 Bilhões aos planos de saúde.

[2] O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, por exemplo, prevê uma recessão de 10% do para o PIB brasileiro e compara o atual momento com a crise de 1929. 

Quinta-feira, 2 de abril de 2020
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