Coronavírus em países pobres: o que a ciência geográfica tem a nos dizer? 
Sexta-feira, 3 de abril de 2020

Coronavírus em países pobres: o que a ciência geográfica tem a nos dizer? 

Imagem: Venezuelanos esperam no posto da Polícia Federal na cidade fronteiriça de Pacaraim – CNUR/Reynesson Damasceno

 

Por Maiara de Proença Bernardino

 

Em países desiguais como o Brasil, o COVID-19 pode afetar drasticamente a vida daqueles que vivem em partes mais vulneráveis do território nacional. 

 

 

A concentração de renda nas mãos de poucos, como mostram os dados do Relatório Social Mundial da ONU em 21 de fevereiro deste ano, apontam que mesmo em tempos ditos modernos (ou pós-modernos) a pobreza continua aumentando no mundo globalizado. Em uma sociedade de desenvolvimentos desiguais, é notável a relação entre o aumento do número de ricos e o aumento da população pobre. 

 

Em um vídeo publicado no dia 18 de março de 2020 em seu canal do Youtube, a geógrafa e professora titular da USP Maria Adélia de Souza, nos apresenta significativas contribuições da geografia brasileira para o entendimento da expansão COVID-19 em territórios desiguais. Segundo a cientista, embasada nas teorias do professor Milton Santos (um dos mais importantes e premiados geógrafos da América Latina) em um mundo territorialmente dividido desigualmente entre “espaços opacos” e em “espaços luminosos” (entre pobres e ricos) o avanço da pandemia pode ser fatal e exterminará populações carentes.  

 

Os “espaços opacos” são os espaços dos pobres, são aqueles onde há uma extrema falta de equipamentos públicos dos mais variados seguimentos, como unidades de saúde, hospitais, saneamento básico, escolas, universidades, etc. E, além disso, esses espaços, representam um grande contraste em relação aos “espaços luminosos”, pois a dinâmica social realizada nesses últimos é totalmente mais veloz da qual se realiza nos territórios onde há uma falta de estruturas públicas de qualidade.

 

Nos espaços destinos as populações com maior renda, o tempo e o espaço são muito mais fluídos. O que não significa uma vantagem ou a desconexão com os “espaços opacos”. Mas, no contexto de uma pandemia global, esses últimos que concentram uma carência de investimentos, podem ser colocados em segundo plano no que diz respeito as politicas para contenção do COVID-19.

 

Ainda segundo a professora Maria Adélia de Souza, nos países onde há uma aceleração do tempo e do espaço, com uma mobilidade mais veloz representada pelos meios de transporte e comunicação, houve uma demora na contenção da fluidez dos territórios. Mas que, devido à esses países, principalmente europeus, contarem com um espaço geográfico mais equipado técnico, científico e informacionalmente, e de não haver uma população tão pobre, a pandemia se alastrou entre as classes médias, mas sua contenção foi rapidamente projetada.    

 

Segundo cientistas das mais renomadas universidades do Brasil, como USP, Unesp, Unicamp, UnB e UFABC, em parceria com as universidades internacionais de Berkley (EUA) e Oldenburg (Alemanha), o quadro no Brasil se mostra desigual. O estudo realizado pelo Observatório COVID-19 BR neste mês, evidencia que a pandemia no território brasileiro está se tornando parecida ao caso italiano. Neste estudo, os cientistas da Universidade Estadual Paulista, mostraram que segundo suas projeções, na terça-feira da semana que vem, o Brasil registrará aproximadamente cerca de 3,4 mil casos, em média, o vírus está dobrando a cada 54 horas e 43 minutos, mostram os dados.  

 

O problema é que a demora para dar início as políticas e programas de contenção do coronavírus no Brasil, está fazendo com que os casos aumentem. E como o território brasileiro é composto em sua maioria por “espaços opacos”, ou seja, lugares onde imperam a pobreza e a escassez de recursos básicos à saúde, penetrará de uma forma grave nas cidades mais pobres do país, contribuindo para a morte das populações mais necessitadas de amparo médico, de alimentação e saneamento básico.

 

Nos espaços da pobreza, a mobilidade possibilitada pelo meio técnico-científico e informacional não opera como nos espaços da acumulação do capital, há uma exorbitante desigualdade socioespacial representada por esses dois espaços. Ambos convivem lado a lado, pois para haver riqueza é necessário a existência da pobreza, da escassez, da expropriação da vida de milhares de pessoas. Mas, nos “espaços luminosos” da fluidez, os acessos são privilegiados, a saúde que resulta em qualidade de vida e possibilidade de existência são mais presentes.  

 

Por isso, estamos em um mundo onde opera o desenvolvimento desigual, e que segundo relatório recente da ONU, 70% da população vive excluída dos avanços técnicos, científicos e informacionais de uma sociedade dita desenvolvida e pós-moderna. 

 

O que a ciência geográfica tem a nos dizer, principalmente a brasileira, evidência os diferentes usos do território pelas diferentes classes sociais. Onde uma minoria se engrandece e se enriquece com a pobreza e adoecimento de outra grande maioria. E inclusive lucra com a falta de recursos oferecidos nos “espaços opacos”, pois passa a oferecê-los nos grades centros como estratégia de acumulação. 

 

Nos territórios onde operam os espaços destinados às camadas abastadas, o COVID-19 pode ser facilmente expelido e combatido, devido ao fluido aparato técnico. Havendo mais condições para sua contenção, pois os “espaços luminosos” são os lugares onde operam o dito desenvolvimento econômico. Mas à custas de quem? Das populações mais carentes, onde a má distribuição de renda e de espaço, irão fazer com que o povo pobre seja o mais atingido pela pandemia do coronavírus.

 

 

Maiara de Proença Bernardino é graduanda em Geografia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Atualmente é bolsista de iniciação científica no Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq). É pesquisadora de temas da área de Geografia Humana e Geografia Urbana.

 


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Sexta-feira, 3 de abril de 2020
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