Psicopolítica: a estratégia bolsonarista em tempos de corona
Sexta-feira, 3 de abril de 2020

Psicopolítica: a estratégia bolsonarista em tempos de corona

Imagem: Antonio Cruz /  Agência Brasil – Edição: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Alberto Lopes da Rosa

 

Em artigo anteriormente aqui publicado, tivemos a oportunidade de destacar a utilização de estratégias de Schopenhauer pelo governo Bolsonaro para a manipulação de discursos. Em um momento no qual o mundo vivencia o que provavelmente será a maior crise do século XXI, Bolsonaro continua se valendo da estratégia de encolerização. Concluímos o artigo afirmando que “enquanto houver plateia o ‘show’ irá continuar e, com isso, a tendência será a de um futuro nada promissor”, neste contexto, o presente ensaio busca complementar o artigo anterior, revelando os aspectos mais sórdidos da psicopolítica bolsonarista em meio à crise do coronavírus.  

 

 

Por se tratar de uma complementação ao artigo anterior, este ensaio será mais breve buscando apenas destacar pontos relevantes para reflexão. Com isso, será um ensaio dividido em três pontos: 1) demonstrar o papel da irracionalidade no discurso de Bolsonaro; 2) destacar a importância da manutenção do estado de bipolaridade conflitiva para a manutenção do mandato do presidente Bolsonaro; 3) propor ideias para o esvaziamento da plateia.

 

Qualquer show depende da existência de um público, afinal, ninguém celebra um espetáculo para si mesmo. Na era da informação o público está conectado a uma rede, a rede mundial de computadores, a internet. O ambiente virtual é um meio de se expressar alcançando uma plateia de número indeterminado. 

 

O alcance dos meios digitais é muito maior que o dos meios físicos, porém, opera de modo distinto. 

 

Um discurso proferido em um ambiente físico deve ir ao encontro da plateia, ele tem por objetivo angariar o apoio de seus ouvintes, do contrário corre-se o risco de não conseguir proferir o discurso, pois o público irá reagir com vaias ou até mesmo com tomates e ovos lançados contra quem profere um discurso ruim. No ambiente físico a reação do público é imediata, o que limita o conteúdo e a forma do discurso, pois há uma interlocução imediata a exigir daquele que fala um cuidado com as palavras, devendo ser respeitoso para com todos e principalmente coerente. A arte da boa política é justamente a de uma convivência harmoniosa entre os indivíduos, o conflito de ideias deve se dar em um ambiente de respeito. Não é à toa que exige-se de todo o congressista o cumprimento da regra do decoro parlamentar. 

 

De modo diverso, o discurso proferido em ambiente digital não precisa ir ao encontro da plateia, a interlocução é mediata e a reprovação não tem o efeito de impedir a continuidade do discurso e, com isso, o indivíduo é livre para dizer o que bem entende. Sem estar sujeito às vaias, aos tomates e aos ovos, aquele que profere um discurso virtual está protegido por um invólucro e consegue se comunicar sem precisar agradar, podendo ser desrespeitoso e, com isso, acaba falando de modo irresponsável. 

 

Sem seguir os mínimos padrões de civilidade, o discurso proferido em ambiente digital se propaga tanto pelos que o apoiam quanto pelos que o reprovam e o bolsonarismo aprendeu a jogar com isso. Na seara política Bolsonaro é o político que domina com primazia a “arte” de se comunicar digitalmente, com uma enorme capacidade de produzir conteúdos que viralizam em ambiente virtual. 

 

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Uma das principais estratégias de Bolsonaro para empreender a sua política irracional é por meio da encolerização dos setores progressistas da sociedade. A irracionalidade da política bolsonarista se dá em dois planos, primeiro por meio de discursos que apelam à emoção e segundo no plano da total incoerência. 

 

Para demonstrar a irracionalidade e como ela se manifesta em cada um dos planos, chamo a atenção para dois fatos: o fatídico pronunciamento oficial proferido pelo presidente em cadeia nacional na terça-feira, 24 de março de 2020, e as falas para justificar o passeio que deu em Brasília, no domingo, 29 de março de 2020, a despeito do isolamento social defendido pelo Ministério da Saúde. 

 

Ambas são situações em que se pode dizer que Bolsonaro agiu com o intuito de produzir “conteúdo” para a sua plateia digital que é formada tanto pelos que aprovam quanto pelos que reprovam o discurso, pois o intuito é deixar a plateia em polvorosa.

 

Para se destacar em um ambiente onde há uma grade quantidade de “conteúdo” (informação) disponibilizado é preciso apelar, mexer com as pessoas naquilo que é mais imediato, ou seja, a emoção. Por isso, a estratégia adotada por Bolsonaro para a manutenção de sua popularidade é o apelo à emoção, ao invés de utilizar um chamado à razão.

 

Traçando uma distinção entre a racionalidade e a emotividade, o filósofo coreano radicado na Alemanha Byung-Chul Han afirma o seguinte: “A objetividade, a universalidade e a estabilidade caracterizam a racionalidade. Logo, ela é oposta à emocionalidade, que é subjetiva, situacional e volátil. As emoções surgem, sobretudo, com a mudança de estado ou de percepção. A racionalidade, por outro lado, está associada à permanência, à constância e à regularidade”¹.

 

Dominando a técnica para lidar com a aceleração da comunicação digital na seara política, o bolsonarismo aproveita-se da pressão desta aceleração para impor uma verdadeira ditadura da emoção, seguindo a máxima falem bem ou falem mal, mas falem de mim, Bolsonaro consegue permanecer na boca do povo, tanto que em plena crise do coronavírus ele consegue se destacar tanto quanto a própria pandemia.

 

Enquanto ele profere discursos contrários ao isolamento social, que é recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e que tem sido adotado em diversos países, as medidas implementadas pelo Ministério da Saúde vão no mesmo sentido da recomendação da OMS. Ficou muito claro que o ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, em sua fala em entrevista coletiva na qual teve que comentar o pronunciamento oficial do presidente estava a pisar em ovos, em uma tentativa de contornar o incontornável.

 

No caso de uma outra entrevista coletiva, dada na segunda-feira, 30 de março de 2020, um dia após o presidente ter feito um passeio pelo comércio de Brasília no meio ao surto do coronavírus, Mandetta recomendou que as pessoas mantenham as recomendações de isolamento social de seus estados, defendendo o máximo grau de isolamento. Por outro lado, para justificar o seu passeio, Bolsonaro reitera, sem apresentar qualquer base técnica e/ou científica, ser contrário ao isolamento e se utiliza de frases de efeito como “todos nós iremos morrer um dia” e “vamos ter que enfrentar como homem, porra. Não como um moleque”². Ao invés de emitir falas condizentes com um chefe de estado, Bolsonaro opta por falas comuns, como se estivesse em uma discussão em uma mesa de bar.

 

Essas duas situações acima narradas revelam a total incoerência entre as medidas efetivamente adotadas pelo governo e o discurso do presidente. 

 

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Por meio desta incoerência Bolsonaro mantem a constância de sua popularidade virtual que é seu principal ativo político. Com isso, ele atende aos anseios daqueles que estão preocupados com questões financeiras e que passam a acreditar em seu discurso que objetiva minimizar a gravidade da pandemia, ao mesmo tempo em que é o assunto mais comentado por aqueles que estão mais preocupados com a questão de evitar a propagação do vírus. 

 

Por meio das falas e atitudes aqui destacadas, verifica-se que Bolsonaro mais uma vez lançou sobre os progressistas uma névoa de emocionalidade, deixando-os em um estado de perplexidade no qual são incapazes de fazer o adequado uso da razão para empreender a devida fiscalização das medidas políticas que estão sendo tomadas neste momento de crise. 

 

É justamente aí que se encontra a importância da manutenção do estado de bipolaridade conflitiva para o governo. Bolsonaro ocupa o cargo de chefe de um dos poderes da república – o poder executivo, que é o poder responsável pela administração da máquina pública, contudo, ele foi eleito sem apresentar um plano efetivo de governo, ele foi alçado à posição de presidente não por apresentar um projeto para o país, mas por ter tido sucesso em produzir conteúdo para internet, propagando o seu discurso de que iria “mudar tudo isso que tá aí”. 

 

Se antes da eleição Bolsonaro não demonstrava qualquer preocupação em esclarecer o que era “tudo isso que tá aí” que precisava ser mudado, após eleito sua preocupação é ainda menor. Sem qualificação para o exercício do cargo, porém, extremamente hábil a produzir “conteúdo” ele governa sem governar, ocupa o maior cargo na hierarquia do Estado brasileiro mantendo o seu posto por meio da produção massiva de polêmicas, sendo sustentado no cargo por conta da plateia. Nós brasileiros estamos brincando com fogo, continuamos batendo palma para maluco dançar ostentando a faixa presidencial no peito. 

 

A mudança dessa situação depende de uma readequação dos nossos hábitos diários, pois exige uma nova forma de se relacionar com a tecnologia. É preciso urgentemente esvaziar a plateia e para isso é necessário começarmos a ter responsabilidade com o nosso próprio discurso virtual e isso na era da informação depende de uma coisa importante: a consciência de que a liberdade de expressão foi duramente defendida e, por isso, o seu exercício exige responsabilidade. 

 

Comunicar-se de modo civilizado exige reflexão, é preciso invocar um chamado à racionalidade, como bem observa Deleuze “a dificuldade hoje não é mais que não podemos expressar livremente nossas opiniões, mas criar livres espaços de solidão e silêncio em que encontremos algo a dizer. As forças repressivas não nos impedem de expressar nossa opinião. Ao contrário, elas até nos obrigam a isso. Que libertação é ao menos uma vez não ter que dizer nada e poder ficar em silêncio, porque só então temos a possibilidade de criar algo cada vez mais raro: algo que realmente valha a pena ser dito”³.

 

Por isso, em tempo de coronavírus é preciso agir de modo diferente, ao invés de dar ibope ao Bolsonaro, é preciso aproveitar o isolamento para refletir, aproveitar os momentos de recolhimento para desenvolver a racionalidade e a solidariedade. É preciso ocupar-se consigo mesmo para isso, algumas sugestões são a leitura de livros, especialmente aqueles que lhe chamem a reflexão, aprofundar os estudos, fazer exercícios, meditar e/ou fazer orações. Também é necessário ocupar-se com aqueles que estão a sua volta, que vivem na mesma cidade que você, se puder veja quais as organizações que estão recolhendo alimentos e outros itens essenciais para auxiliar os que precisam. Duas últimas sugestões: se for necessário, para se desligar completamente, coloque o celular em modo avião. Não deixe também de ouvir Caetano, afinal, alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial.

 

 

Alberto Lopes da Rosa é humanista, brasileiro e progressista. Mestre em Direito (UERJ) e bacharel em Direito pela Faculdade Nacional de Direito (UFRJ). Professor de Direito Comercial (UFRJ). Advogado.


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Notas:

[1] HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte: Editora Âyiné, 2018, p. 65.

[2] https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/03/29/apos-provocar-aglomeracao-durante-passeio-em-brasilia-bolsonaro-volta-a-se-posicionar-contra-o-isolamento-social.ghtml

[3] DELEUZE, Gilles. Mediators in Negotiations. Nova York, 1995, pp. 121-134 apud HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte: Editora Âyiné, 2018, p. 113.

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