A ultrapassagem da barreira de espécie
Terça-feira, 7 de abril de 2020

A ultrapassagem da barreira de espécie

Imagem: Arquivo / Agência Brasil

 

Por Wagner Giron De La Torre

 

Muito se fala da pandemia provocada pelo Covid-19. Repetem-se informes sobre os sintomas físicos, psíquicos, e, principalmente, socioeconômicos da doença que gera. Mas quase não divisamos reflexão mais aguda acerca de sua origem. Afinal, de onde veio o coronavírus?

 

 

Essa questão fundamental – posto que, se resolvida, serviria à prevenção de novas pandemias – tem laços estreitos com outra indagação, talvez a mais importante da agenda humana, embora incrivelmente desagradável ao capitalismo (que muito investiu para sepultá-la na letargia do negacionismo) qual seja: o que fazer diante do colapso ambiental em escala planetária?

 

O horror econômico já em curso,  agudizado pela pandemia, que em poucos meses pôs o sistema capitalista de joelhos,  mostra a relevância do Ser Social  e desvela a mediocridade intelectual da governança global, em especial em nichos da ultradireita, que campeiam errantes por rincões arcaicos como Washington e Brasília. Sem o Ser Social, ou seja, o funcionamento cooperativo de toda a sociedade em sua relação metabólica com a natureza, ninguém sobrevive, ao menos nos moldes civilizacionais que conhecemos, e sem a objetivação, cotidiana e dinamizada, da força de trabalho na consecução dessa função metabólica, o capitalismo trava. Simplesmente rasteja.

 

E tudo isso frente a eclosão de um simples vírus. Mas a pergunta que não cala: de onde ele apareceu? Por quê? Como? Poderia – como o foi – sim, ser o coronavírus. Mas também poderia ser um mais contundente, o ebola, ou mesmo uma espécie evoluída dos vírus influenza, enfim. Mas, indiscutivelmente, todos têm uma única fonte: a destruição sistêmica e impune dos ecossistemas fundamentais nos últimos 200 anos.

 

A melhor organização, divisão e maximização da força de trabalho aliada às sucessivas levas de inovação tecnológica, conferiram ao capitalismo um poder de degradação socioambiental sem precedentes.

 

O aprofundamento da lógica inscrita no DNA do capitalismo, de transformar tudo, da força de trabalho humano aos bens ambientais coletivos (como terra, água, paisagens, espaços geográficos, etc) em mercadoria, tem resultado na destruição dos habitats naturais em uma velocidade e escala jamais vivenciadas nos tempos geológicos do planeta, não conferindo às espécies sobreviventes,  chance alguma de adaptação biológica às radicais alterações ecossistêmicas.

 

Sob a pressão contínua da destruição de seus nichos naturais, não resta muito  aos animais sobreviventes (de seres unicelulares aos mais avançados pássaros, insetos, mamíferos, etc) do que buscarem sustento nos limites das aglomerações humanas. Daí à passagem aos humanos  dos micróbios que a tempos imemoriais eram inofensivos nos organismos da fauna, não passa de um átimo. Apenas uma questão cronológica, dado que inevitável esse evento. Na ciência, dá-se a tal fenômeno o nome de “ultrapassagem da barreira de espécie”.

 

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Como explicita, em texto obrigatório, a pesquisadora Sonia Shah: “(…) O problema está em outra parte: com o desmatamento, a urbanização e a industrialização desenfreados, nós oferecemos a esses micróbios meios de chegar e se adaptar ao corpo humano. A destruição dos habitats ameaça de extinção inúmeras espécies, entre elas plantas medicinais e animais que sempre abasteceram nossa farmacopeia. Quanto às que sobrevivem, não têm outra escolha a não ser fugir para restos de habitat que o povoamento humano lhes deixou. Resulta daí uma probabilidade maior de contatos próximos e repetidos com o homem, que permitem aos micróbios passar para nosso corpo, onde, de benigno, tornam-se agentes patogênicos mortíferos”. 

 

Esse evento, frisa a mencionada pesquisadora, não é novo. Surgiu durante a revolução neolítica, quando a humanidade começou a estabelecer as bases da agricultura e a domesticar animais, iniciando o processo secular de extinção dos habitats naturais. Por isso, fomos agraciados com epidemias de sarampo e tuberculose vindas das vacas, coqueluche  e gripe suína (H5N1) dos porcos e inúmeras gripes devastadoras dos pássaros.

 

No mesmo artigo, enfatiza Sonia Shah, “(…)os riscos do surgimento de doenças não são acentuados apenas pela perda dos habitats, mas também pelo modo como os substituímos. A fim  de saciar seu apetite carnívoro, o homem arrasou uma superfície do tamanho do continente africano para criar gado. Parte deste toma a seguir o caminho do comércio ilegal e é vendido em mercados de animais vivos (wet markets). Ali, espécies que talvez nunca se cruzassem na natureza ficam enjauladas lado a lado e os micróbios podem alegremente passar uma a outra. Esse tipo de progresso, que já engendrou em 2002-2003 o coronavírus responsável pela epidemia da síndrome respiratória aguda grave (Sars, na sigla inglesa), está provavelmente na origem do coronavírus desconhecido que hoje nos ataca”.

 

Todo esse cenário de estupidez socioambiental, no Brasil, ganhou contornos de tragédia quando alicerçou os fundamentos de uma tempestade perfeita, fomentando prognósticos dos mais tenebrosos, pois, além de estarmos sob a égide de um verdadeiro desgoverno federal, tripulado por um bando de ministros desabridamente antipovo, anticiência e claramente irradiador de narrativas anticivilizatórias, desde seus primórdios, a administração Bolsonaro fez o que pôde para intensificar o processo de sucateamento de instrumentos de fiscalização socioambiental importantes como IBAMA e outros mecanismos de proteção ambiental; como ossificou, e sequestrou,  a atuação que deveria ser independente de instituições como as cúpulas do Ministério Público Federal, Polícia Federal, Judiciário, etc, numa alegoria de cunho ideológico-estorcida, que simplesmente pôs a Amazônia e outros importantes biomas em rota de destruição provavelmente irreversível, estimulando o aumento exponencial de áreas desmatadas em escalas nunca vistas. 

 

Ainda parafraseando os ensinamentos de Sonia Shah, sublinhemos as advertências do epidemiologista Larry Brillant: “as emergências de vírus são inevitáveis; as epidemias, não. Todavia, só seremos poupados destas últimas se fizermos tanto esforço para alterar nossa política quanto temos feito para perturbar a natureza e a vida animal”.

 

Que pelo menos a crise global ora em curso, nos sirva para refletirmos acuradamente sobre esses ensinamentos.

 

 

Wagner Giron De La Torre é Defensor Público no Estado de São Paulo, especialista em demandas socioambientais.


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Notas:

[1]MARX, Karl. O Capital, Livro I. SP, Ed. Boitempo. 2ª reimpressão, p. 117, 2014.

  • MÉSZAROS, István. A teoria da alienação em Marx. SP. Boitempo, p. 161, 2016

[2] MARQUES, Luis. Capitalismo e Colapso Ambiental. SP, Unicamp, 2ª ed. 2016.

[3] DE LA TORRE, Wagner Giron. Os limites do capital e crise ambiental em Karl Marx. Acessível:  http://www.biodiversidadla.org/Recomendamos/Os-limites-do-capital-e-crise-ambiental-en-Karl-Marx

[4] SHAH, Sonia. Contra a pandemia, ecologia. Jornal Le Monde Diplomatique Brasil. SP, ano 13,, ed. nº  152, março 2020.

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