O novo coronavírus e a bolha mitificadora
Terça-feira, 7 de abril de 2020

O novo coronavírus e a bolha mitificadora

Imagem: Agência Brasil / EBC – Edição: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Bruno Antonio Barros Santos

 

A professora Lucia Santaella, no livro “A pós-verdade é verdadeira ou falsa?”, fala de três palavras que entraram abundantemente em nossa vida depois da eleição de Donald Trump, nos EUA. São elas: bolhas, notícias falsas (fake news) e pós-verdade.

 

 

Em relação às bolhas (na internet), Santaella, que prefere usar o termo “bolhas filtradas”, cita várias expressões de estudiosos, tais como “câmaras de eco”, “salas espelhadas”, “molduras ideológicas”, “ciberbalcanização”. Em resumo e de forma bem simplificada, são expressões que traduzem a lógica dos algoritmos da internet em identificarem nossos perfis, através dos nossos cliques, para espelhar tão somente aquilo que nos interessa. Em outras palavras, o que aparece para nós no ambiente da internet é basicamente o que nos acostumamos a navegar. É a bolha de confirmação, personalizada por nossos cliques.

 

Isso é um prato cheio para as pessoas que ignoram os fatos e só acreditam naquilo que, seletivamente, querem enxergar. Cria-se, portanto, um mundo autorreferencial, dentro de uma moldura impenetrável, e que não dialoga com algo que não seja o reflexo de si mesmo ou da bolha a que pertence. E, para além da visão limitada, politicamente, esse fechamento alimenta a lógica do engajamento, no sentido de “convencer” – de forma histriônica e intimidadora – outras pessoas para a defesa de uma crença determinada. Não importam os fatos. Não há visão crítica. Não há questionamentos. Não há problematização. Há, apenas, certezas. Há somente o absoluto. Dentro desse contexto, há os negacionistas que, movidos por interesses de bolha, negam a ciência, os dados empíricos, as evidências, os fatos, além de serem anti-intelectualistas.

 

A pandemia do novo coronavírus (COVID-19), decretada oficialmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mobilizou o mundo na luta contra o vírus. Então, supus que agora, sim, até os negacionistas vão se sensibilizar diante desse inimigo perigoso e invisível. Com base em estudos científicos e com o respaldo de notórios e respeitados especialistas, muitos locais que geram aglomeração – escolas, cinemas, teatros, museus, pontos turísticos, parques, centros comerciais – foram fechados; shows e eventos cancelados; a Olimpíada de Tóquio foi adiada para 2021, as corridas da Fórmula 1 foram canceladas; o Papa Francisco rezou sozinho na Praça São Pedro (Vaticano); praias, praças e avenidas vazias. Tudo isso no sentido de preservar vidas (sobretudo de idosos e grupos vulneráveis), a fim de possibilitar o achatamento da curva do crescimento e disseminação do vírus, para que os hospitais não ficassem sobrecarregados, evitando, assim, o colapso no sistema de saúde.

 

Entretanto, os negacionistas tiveram a inacreditável “irresponsabilidade” de negar a gravidade da situação. Mesmo os sucessivos recordes de mortos, por dia, na Itália (em apenas 24 horas, mais de 900 mortos), e a fila enorme de caminhões militares, lotados de caixões, não foram suficientes para sensibilizar essas pessoas. No Brasil, o presidente da República, Jair Bolsonaro, em sucessivas falas de diferentes dias, brigou com governadores de vários estados e disse que o novo coronavírus é uma gripezinha, um resfriadinho, uma pequena crise de fantasia, e que a mídia criava a histeria. Além disso, contra as medidas restritivas defendidas por especialistas, chegando a defender até                   a volta às aulas presenciais nas escolas. Essa é uma postura muito contraditória para alguém que vive em paranoia, criando espantalhos para bater e olhando poderosos inimigos imaginários em tudo (comunismo, globalismo, marxismo cultural, ideologia de gênero, ditadura gayzista), mas que não vê um inimigo real (vírus) que o mundo inteiro se mobiliza para combater.

 

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Bolsonaro é o pai do bolsonarismo. E o bolsonarismo é um exemplo de bolha, com a ressalva de que, não necessariamente, um eleitor de Bolsonaro esteja mergulhado no bolsonarismo. Em várias situações, bolsonarismo e negacionismo se confundem. E, nesse ponto, acrescenta-se aquilo que eu chamaria de bolha mitificadora, na já cristalizada imagem de Bolsonaro em “mito”, por parte de seus seguidores. Em meio à pandemia do novo coronavírus e às posturas irresponsáveis do presidente, ainda houve panelaço a favor de Bolsonaro, embora, comparativamente, fosse muito menor do que os vários panelaços contra o governo durante os últimos dias. Porém, da varanda do meu apartamento, ouvi, perplexo, vizinhos gritando “Mito, mito, mito!”.

 

A “militância” digital bolsonarista, inserida nessa bolha mitificadora, não admite que se apontem erros de seu pai fundador. Quando ocorrem erros do presidente, o engajamento dos seguidores desloca e terceiriza a culpa, sempre, para outros atores ou inimigos imaginários. Desse modo, existem vários núcleos bolsonaristas com grande projeção nas mídias sociais; e o bolsonarismo é um modo específico de sentir, pensar e agir. A ação é pautada na lógica de seita fanática que idolatra e mitologiza o líder, além do discurso de ódio, que tem por objetivo destruir o “outro”. Imaginem a avalanche de compartilhamentos no WhatsApp, Instagram, Facebook, Twitter etc. A força colonizadora desses compartilhamentos é muito grande na formatação do pensamento. São viralizações em massa, com um engajamento virtual muito forte.

 

Nesse sentido – em que pese que a popularidade de Bolsonaro tenha caído nessa pandemia, com sucessivos panelaços contra o governo e várias demonstrações públicas de pessoas que se arrependeram do voto dado ao atual presidente – é assustador pensar que, de acordo com a última pesquisa Datafolha (insuficiente e limitada, já que, diferentemente das anteriores, não foi feita de forma presencial), 33% da população brasileira apoia a postura do presidente em relação à pandemia.

 

Isso mostra a força aprisionadora de se viver numa bolha. Nesse ambiente virtual e de repetições ininterruptas na defesa de algo, Santaella diz que “a unilateralidade de uma visão acaba por gerar crenças fixas, amortecidas por hábitos inflexíveis de pensamento, que dão abrigo à formação de seitas cegas a tudo aquilo que está fora da bolha circundante.”. É como se a pessoa estivesse entorpecida por uma “moldura ideológica”.

 

Assim, o maior desafio consiste em como furar essa bolha? Portanto, se pudesse dar uma sugestão, não seria a leitura de nenhum autor de direita ou de esquerda. Sugeriria a leitura do livro “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles (384 a.C – 322 a.C), em que o pensador fala sobre mediania, meio-termo, para evitar excessos e extremos. E, em tempos atuais, é um apelo ao bom senso.

 

 

Bruno Antonio Barros Santos é Defensor Público do Estado do Maranhão


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