Circo Canibal
Quarta-feira, 8 de abril de 2020

Circo Canibal

Imagem: Pinterest / Reprodução

 

Por Andrés del Río

 

Era uma vez um circo que num momento da história conheceu a gloria, mas, com o passar dos anos, ficou nas sombras. Era um circo pequeno que, pelas trapalhadas constantes, conseguia fazer poucos shows pelas cidades. Apesar da rapidez do seu fim, ficou na memória, como o circo que seduzia aos de menos simpatia.

 

Não se sabe ao certo como acabou, mas se recorda que começou com uma doença, que no início pensavam que era gripe, mas na verdade ela afetava algo mais alto, na altura da cabeça, deixando as pessoas doidas que nem os homens das cavernas. Falam que pareciam pessoas com raiva ou demência. Ou uma mistura delas. Por esses motivos é que todos o apelidaram de Circo Canibal. Seu fim seria sanguinário, eliminando-se entre eles, até não existir nem um pedaço dos raivoso vermes

 

Eu lembro do meu vô contar o caso. Sempre narrava essas estórias enquanto se mexia na cadeira de balanço. Ele ria sozinho, no ritmo da cadeira. E, quando suas palavras saíam, elas pareciam uma antiga poesia. O que ele lembrava eram algumas de suas estrelas. Não alumbravam nem guiavam, eram seres deste planeta.

 

De quem mais gostava era do palhaço. Lembro bem. Era o coração da comédia, um palhaço resmungão e desalinhado. Meu vô era por ele apaixonado. Era conhecido como o Palhaço Bunda Suja. Contava que uma vez ele quis fechar o circo para se tornar a principal figura. Ironicamente, terminou perdendo o circo, o trabalho e a graça. Mas ele nunca aparecia sozinho no cenário. Quando ele alcançava o centro das luzes, no centro do palco, saíam de trás do picadeiro, três palhacinhos. Eles eram engraçadíssimos porque estavam grudados entre si pela sujeira, pareciam palhaços saídos da lixeira.

 

Assim que saíam, tentavam fugir do palhaço. Mas, como estavam todos amarrados, caíam rapidamente empilhados, deixando o povo animado. O menor deles, era ranzinza, sempre de braços cruzados, parecia um palhaço frustrado. Quando a luz não o iluminava, chorava bem alto, dedurando o iluminador que só estava trabalhando. O palhaço Bundão ficava revoltado, ajeitava o seu paletó rosa, alçava a calça amarela por cima da cintura, perto da faca de mentira que sempre tinha, e se dirigia ao iluminador com seu dedo acusador. Mas assim que começava a caminhar, se desestabilizava com as laranjas caídas dos erráticos malabares dos outros palhacinhos, e todos juntos terminavam enredados na areia do circo. Mas o bravo Bunda Suja ficava em pé, colocava os garotos nas costas, e saía resmungando, mostrando o dedo para quem o desafiasse. Às vezes parecia que tinha raiva de tanta espuma. Quanto mais bravo ficava, mais o adoravam.

 

Atrás do palhaço sempre vinha o domador de animais, o sargento Haitiano. O pequeno domador vestia um insólito terno verde obscuro, dois tamanhos maior que sua estatura, poucos entendiam qual era sua postura. O terno tinha uns chamativos medalhões de ouro que pareciam melões de tão grande. Não eram medalhas de suas batalhas, tinha comprado de um herói esquecido que precisava de uns trocados para encher a barriga que rogava por comida. Apesar de sua cara de seriedade, tudo o que fazia era um disparate. O gigante terno o obrigava a se ajeitar como um macaco em estado de felicidade. As palmas do público e a música do local marcavam o ritmo de marcha militar que o velho haitiano nunca conseguia acompanhar. Se não fosse pelo chicote na mão, ninguém acharia que o pequeno domador alguém comandaria. Com seu andar engraçado, o velho do chicote desengonçado levava um elefante branco para o meio do tablado.

 

O elefante, de tromba grande, mas cabeça pequena, se movimentava de forma rasteira. Era uma espécie estranha que vinha do Sul. O enorme elefante tinha medo dos ratos, amigos do palhaço, que corriam para todo lado comendo as migalhas que em algum momento tinham furtado. Porém, quando a luz o iluminava, o elefante se enchia de orgulho e caminhava exibindo seu tamanho frente a um público admirado, e a cada flash que via sempre posava com ar de prócer e alegria. Mas sua enorme corpulência era inversamente proporcional a sua inteligência, e o máximo que conseguia era obedecer a seu ilustre guia. Depois de ficar equilibrando em duas perna num banco, com a tromba fazia malabares com dois pesos e duas medidas, e rapidamente vazava da pista quando assim o pediam.

 

Da sombra do elefante aparecia na cena o equilibrista na corda bamba. O velho anão era conhecido como o diabo das moedas, tinha poucos cabelos, poucos amigos e quase nenhuma ideia. Ele cuidava dos gastos, e sempre resmungava que muito se desperdiçava. Mas os burburinhos sussurravam que todas as noites ele contava as notas que ganhava, bebendo champagne sozinho, no camarote do pobre circo. O equilibrista anão tentava atravessar numa luxuosa bicicleta o cenário de ponta a ponta pendurado por um fio. A confiança do equilibrista se opunha ao pânico da plateia, que tapava os olhos para não assistir uma tragédia. Mas, como parte da comédia, o anão sempre caia nas mãos daqueles que usufruíam os lugares mais acomodados. Ele era conhecido, no camarote dos ricos, por entregar os objetos do circo sem pensar no coletivo.

 

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Da outra ponta do picadeiro, duas fortes luzes se encontravam iluminando o brincalhão do fogo. O malabarista, homem alto e feio, sempre fantasiado de amazona, entrava na cena expelindo até fogo pela boca. O público delirava. Mas ele tinha pouco controle do fogo e, a cada vez que expelia, alguma madeira queimava da velha arquibancada. O público assustado corria e gritava pelo fogo que se espalhava. Era quando a diva da noite aparecia, a esperta contorcionista. Apesar da idade, o corpo dela resistia os avatares da profissão. De forma rápida, a namoradinha do circo, como era conhecida, se lançava para cima da chama, conseguindo a proeza de apagar o fogo, ganhar o aplauso e queimar sua dignidade. O público a aclamava em pé vigorosamente, com uma mistura de surpresa e aflição, ela se retirava achando que era a melhor. Todos desfrutavam do delírio que parecia organizado, mas longe estava o evento de ser civilizado.

 

Na tenda, o calor se estendia em tudo quanto é canto, um prenúncio do mal que se estava gestando. A audiência estava em sintonia com estrelas poucas reconhecidas. Ainda assim, a sintonia não entendia aqueles que não aplaudiam. De tanto calor que existia, só a cerveja descia. E com a espuma da Bavária, os ânimos se excitavam, tornando o ambiente num caldo de gente.

 

O engolidor de espadas era sem sombra de dúvidas uma das atrações que mais impressionava. Ele sempre entrava num ônix velho e enferrujado. Dentro do carro o acompanhavam sete pequenas pessoas que vestidas de verde faziam parte do seu exército pessoal. Era uma parte muito engraçada, meu vô sempre falava. Assim que ele abria a porta do carro, se esbarrava com as cascas de laranja, caía de cara na bosta do elefante e se cortava com as espadas que tinha nas suas costas. Os sete soldados tentavam levantá-lo, mas terminavam todos no chão, entre o fogo do malabarista e os restos do elefante. As espadas se transformavam em bengalas momentâneas para sair do meio do cenário, todos visivelmente envergonhados por terem se enfiado num show que os ridicularizava. No final, o engolidor todo sujo não tinha espadas, não tinha as chaves do carro e voltava atrás dos soldados reclamando que não o cuidavam. Mas na beira do picadeiro o esperava a namoradinha do circo. Todos os soldados estavam apaixonados por ela, que sem saber os torturava com sua indiferença.

 

No intervalo ascendiam as poucas luzes que tinham, muitas delas funcionavam quando o show terminava. Uma música de fundo tranquilizava a manada, parecia Wagner em plena Alemanha. No alto da arquibancada, à direita da entrada, havia um senhor com um charuto e um baralho de cartas. Ele com todos brincava mas de ninguém gostava. Alguns falavam que era o dono da parada e, que entre a fumaça, com os olhos comandava. Os astrólogos diziam que de muito longe ele vinha. Com signo e lua complexos, ele falava palavrão a quem não gostava do show. Entre os números deambulava, por toda arquibancada. Todos sabiam que tinha um arma embainhada, mas a ninguém preocupava. Não era um homem de ação: era a filosofia, como Platão. Mas os amigos diziam que era perito em mentiras. 

 

Depois de arrumarem o palco, entrava o enigmático mago. Ele sempre chamava alguém da plateia para acompanhar o palhaço. Se sabia que o mago era muito crente, e em cada número, falava da importância da palavra. Mas quando procurado por dívidas, o mago desaparecia. No número, o mago pedia a carteira e o relógio de um espectador, entregava tudo ao palhaço bundão, e o colocava dentro de uma caixa retangular. Cortava ela no meio, numa rachadinha, cada um levava uma parte, para cada esquina da pista. No centro só ficava a cabeça do palhaço com sua cara rabugenta. O mago falava que seu milagre seria que o palhaço voltasse andar com suas próprias pernas. O público mais fanático, raivoso e excitado, gritava para que o Bunda Suja caminhasse sem necessidade de aliados. Unidos pelo canto, em favor do palhaço, a tenda parecia uma igreja no sábado, e o regente era o picareta do mago. Depois de fazer desaparecer tudo o que existia baixo um enorme manto vermelho, o retângulo aparecia inteiro, mas o palhaço bundão reclamava da cor do manto sem importar se suas pernas estavam por baixo. “Não gosto do vermelho” repetia chateado a palhaço. Todos sabiam que era a cor de um amor que tinha quebrado o coração. Era o sangue que derramou pela frustação de ter sido abandonado por uma mulher que se respeitava. Voltando ao centro do cenário, as luzes remarcavam a figura do mago com os braços bem no alto, não por ser assaltado, mas por acreditar que estava perto do céu pela felicidade que gerava o som dos aplausos, seu canto de sereia. Enfim, o espectador recebia a carteira vazia. O relógio ficou com o palhaço e o resto do dinheiro era dividido entre o mago e os soldados. A vista de todos se repartiam o que não lhes pertencia, os seus credores bem mansos já festejavam por adiantado. Enquanto todos riam, os soldados desapareciam no obscuro porão do circo, para que ninguém colocasse em dúvida a honestidade que já não tinham. 

 

Ante tanto riso e alvoroço, o público mais fanático já era parte do espetáculo. Para chamar a atenção entrou rapidamente em cena o severo domador. Pedia para todos pararem de gritar, mas a euforia era difícil de controlar. O velho do chicote ameaçava fechar o circo. No meio do buchicho, um menino entrou no palco, e sem que o velho notasse, começou a imitá-lo. Na urgência, o domador chamou o elefante, que na ponta do pé evitava esbarrar nas laranjas, no fogo, mas acima de tudo, nos ratos da cidade. 

 

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A música do final era tocada, e todas as figuras do espetáculo apareciam no centro do palco. O público não parava de berrar e bater palmas, os mais raivosos entravam no cenário tentando levantar o palhaço. Aí o show terminava. Já não se distinguia quem era parte do show e quem da arquibancada. Na desorganização absoluta, no meio de fogo, calor e sujeira, o público esgotado sai da tenda, para poder respirar depois de tanta baderna.

 

Se fala que na última apresentação, quando todas as figuras estavam no centro do picadeiro, excitados pelos gritos do público mais fanático, o malabarista expeliu longe demais o fogo, alcançando a parte mais alta da tenda, arrancando aplausos da pequena plateia. O palhaço Bunda Suja, com ciúme pela enorme atenção recebida pelo malabarista, foi direto a seu braço e deu uma mordida tão forte que arrancou um pedaço e jogou a carne para o elefante já desnorteado. Medroso, o elefante saltou do susto quebrando a coluna principal da tenda. Na polaroide da cena estavam todos correndo sem noção da fatalidade da quebra.  O anão equilibrista, de reflexos rápidos, se escondeu dentro de um chapéu que só os ricos têm. O levaram em custódia porque achavam que cotizava na bolsa alguém que dominava os outros sem perguntar nem lucrar demais, só por respeitar as hierarquias do capital. Na arquibancada só continuavam os fanáticos de sempre, achando que toda destruição e raiva eram um tumulto coerente. A diva, sendo escutada por ninguém, tentava convencer aos soldados de animar mais uma vez os espetadores para que eles não saíssem, mesmo com a tenda pegando fogo. Já nesse momento o carro ônix estava em chamas. Furioso, começou a discutir bravamente com o malabarista. O domador, com o longo chicote em chamas, tentava apagar a ponta, mas quanto mais movimentava, mais a espalhava.

 

Tudo estava pegando fogo, e no meio do cenário, estavam todos discutindo, brigando e gritando. Mas na verdade era a doença que tinha infectados a todos, as figuras do circo e os fanáticos da tenda. O palhaço Bunda Suja estava no alto, levantado pelos fanáticos, fazia banana para o malabarista. Num momento tudo ficou em silêncio, quando repentinamente a tenda desabou, com todos dentro, salvo o equilibrista. Nada ficou em pé, os fanáticos jamais foram encontrados. Tudo tinha se tornado um cinzeiro estranho. Ficaram no chão restos de laranjas, o relógio roubado, o chicote apagado e alguns medalhões que pareciam lustrados. Nunca se soube do mago, mas as más línguas falam que todos os domingos ele tem um show numa pequena televisão. 

 

Meu vô quando terminava de contar a estória, parava a cadeira de balanço, girava a cabeça e me olhava sorrindo: por sorte o Circo Canibal não se expandiu como peste antiga. A doença que tornava todos raivosos se esfumou com a última apresentação. E cada cidade onde o circo passou, a raiva se desvanecia, como um sonho ou fantasia. Apesar do baixo nível e da tragédia conhecida, todos concordam que o mais engraçado do circo era a seriedade dos que a faziam. Nunca acharam que estavam num circo, mas num palanque de política. As vezes de tanto brincar com fogo, as chamas consumiam, tanto os que atuavam como os que assistiam. 

 

Andrés del Río é doutor em ciência política pelo IESP-UERJ e professor adjunto da UFF. 

 

 


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