O aumento das mulheres transexuais em situação de rua requer atenção
Quinta-feira, 9 de abril de 2020

O aumento das mulheres transexuais em situação de rua requer atenção

Imagem: Rovena Rosa / Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Cassiano Ricardo Martines Bovo

 

“(…) os mais nobres gestos de amizade, companheirismo e solidariedade que já testemunhei no convívio com a população de rua também foram protagonizados pelas travestis. A rivalidade entre os homens e entre as mulheres no universo da rua obviamente existe. A rivalidade entre travestis de rua, contudo, parece mais efêmera à  medida que as diferenças se superam e a coesão se restabelece no momento em que uma travesti observe outra travesti sendo subjugada ou vitimizada pelas diversas formas de injustiça e violência que as acometem nas ruas”.[1]

 

 

Em meio a ruas e avenidas, pontes, viadutos e becos das grandes cidades sobrevive vasta multidão de pessoas em situação de rua, em vertiginoso crescimento; cracolândias emergem e se expandem nas fendas do dinamismo econômico de nosso capitalismo selvagem. 

 

No meio fio de uma avenida vemos uma mulher sentada junto a outras pessoas, olhar perdido, alheia aos carros e ônibus que freneticamente passam à sua direita e esquerda. Se nos aproximarmos mais, percebemos que se trata de uma mulher transexual. Não acontece com Brenda o apagamento dos registros corporais femininos que a condição de rua acaba impondo a algumas trans, embora elas usem todas suas forças para que isso não aconteça.  

 

Brenda faz parte de trágica estatística, de difícil mensuração, nacional e localmente. Marco Antonio Carvalho Natalino embasado em metodologia consistente estima em 101.854 o número de pessoas nessas condições para o Brasil, no ano de 2015[2]. Considerando-se a queda no nível da atividade econômica e o desemprego, de lá para cá, muito possivelmente esse número está hoje em torno de 150 mil pessoas. Embora sob contestação e suspeitas de subnotificação[3], o Censo da Prefeitura de São Paulo para 2019, por ex., aponta 24.344 pessoas nessa situação, com crescimento de 53% em relação ao Censo de 2015. 

 

Nossa personagem já vivenciou a euforia e o glamour do dinheiro que a prostituição permite (não a todas) e passou pelo clássico itinerário trilhado pela maioria das mulheres transexuais do país. Foi expulsa de casa (talvez a mais cruel violência, porque é o início de tudo), a escola lhe negou o término do ensino formal, caiu em casa de cafetina, paulatinamente – com todas as dores – foi transformando seu corpo, sofreu toda a conhecida sucessão de violências (simbólica e física, espancamentos, estupros) por parte de diferentes pessoas, agentes e instituições, inclusive no sistema de saúde.  

 

Também aconteceu com ela uma desgraça cada vez mais comum: passou a usar cocaína nos programas, sob exigência dos clientes, que, por isso, costumam pagar bem. O vício foi decorrência e, junto, a sucessão de consequências conhecidas, afetando seu trabalho. Dinheiro escasseando e cada vez mais vontade da droga. Começou a traficar para sustentar o vício e caiu na prisão, roteiro que é a causa da maioria das que lá estão. Não posso me deter aqui para a vivência sofrida por Brenda na prisão, porque contar o que é esse ambiente para uma mulher trans demandaria páginas e páginas; a comoção também talvez não me deixasse terminar. Saiu ela do cárcere, mas o vício não saiu dela. Próxima etapa: a rua.  

 

Nos primeiros dias de rua se não aprende como as coisas funcionam, a morte é certa. Já na primeira noite, dormindo só, acordou sendo chutada por um homem que disse que ela teria que dar para ele. Como ela não aceitou, levou um soco na cara e caiu desmaiada. Na segunda noite teve que fugir de um homem com uma faca na mão. Na fila da sopa (fornecida por instituições religiosas) sofreu zombaria, retrucou, veio um policial e lhe deu um tapa na cara.

 

Percebeu também o quanto é duro para uma mulher transexual pedir cigarro, dinheiro, comida, ajuda. Entrar em lugares públicos, mais complicado. O já conhecido preconceito e a discriminação da sua condição de gênero se junta às da situação de rua. 

 

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Brenda assustou-se com a grande quantidade de transexuais vagando pelas ruas. De fato, os relatos para as grandes cidades do país, sobretudo vindos de profissionais de equipamentos de assistência social em vários bairros, impressionam. Captar o fenômeno estatisticamente é um desafio; seguramente a subnotificação é realidade, e é dupla: pela própria dificuldade de registrar o total de pessoas em situação de rua, como já disse, e de identificar as pessoas transgênero, tanto visualmente (devido os apagamentos corporais e estéticos) como pela autoidentificação. Nacionalmente não temos a informação, já o Censo da Cidade de São Paulo de 2019 registrou 386 pessoas como “transexuais, transgêneros e travestis”. Não temos a mesma base de comparação classificatória no Censo de 2015, porém, consta lá 106 pessoas que se declararam não heterossexuais. Por baixo, isso significa um crescimento de mais que o triplo, em quatro anos, muito superior, portanto, ao crescimento de 53% da população total em situação de rua no mesmo período.  

 

Voltando à nossa personagem, percebeu ela que nas ruas a “união faz a força” e o “juntos somos mais fortes” é tudo. Se tornou amiga de Suzy e Diana, transexuais como ela, Rebeca, uma lésbica, e Bruno, um gay. Assim, cotidianamente, reforçando seus laços de afeto e amizade, o grupo passou a vagar pelas ruas. Na hora de dormir revezavam-se, alguém do grupo sempre acordado.  

 

Infelizmente outra companheira de Brenda era a droga, sobretudo cocaína e, quando não dava, o crack, o que leva muitas pessoas para a situação de rua e as mantém lá. É a “drogadição”, no dizer de Elizabeth Marques, profissional de um Centro de Referência LGBT de Belo Horizonte.[4]

 

O grupo decidiu conhecer um albergue. De cara perceberam o funcionamento na lógica do binarismo heteronormativo, homem x mulher. Rebeca ficou na ala feminina, os demais na masculina. Brenda se deparou com a seguinte dificuldade: poderia ficar também na ala feminina, mas outras trans já a tinham alertado para futuras dificuldades; seria maltratada por muitas mulheres que as veriam como homem. Não tem um lugar apropriado para mim?, pensou ela.   

 

Ao tomar banho, já na longa fila de espera, fora assediada, ouviu chacotas, a coisa mais rotineira ali dentro. Quando chegou sua vez, o incômodo: portas abertas, homens parando vendo-a tomar banho. Um deles indignado disse: uma bicha aqui? Disseram para ela que albergues com portas fechadas também é um saco, porque ficam batendo e dizem: “tem uma bicha aqui!”. Assediada novamente à noite, logo ela percebeu que ali não é lugar para mulheres transexuais, como quase tudo na sociedade, a família, a escola, a prisão, o posto de saúde etc. Da qualidade do café da manhã é melhor nem falar…e não é só de abrigo e alimentação que ela precisa. Como Brenda não é uma imaginação, ela existe, e a população trans de rua aumenta, não adianta adiar, uma hora tem de enfrentar.  

 

A partir de certa noite, no hostil ambiente do albergue, na hora de dormir seu grupo chamou outras trans e gays, tomaram um cômodo inteiro. Chegou um homem que quis entrar para dormir; disseram “não, aqui é nosso espaço”. Ele não gostou e quase apanhou. A partir daí ali se tornou a ala de trans e gays do albergue: “nos respeitem!”.    

 

Ficou Brenda sabendo de um abrigo, uma casa de acolhida para trans, gerida pela Prefeitura. Dizem que lá não há esses problemas, que é um ambiente mais apropriado para ela, além disso passam o dia, estudam, trabalham, têm apoio psicológico e de saúde. Pleiteou, mas a fila de espera é enorme. Por que não abrem mais vagas? Não constroem mais? Pergunta-se.   

 

Nossa personagem acabou apaixonando-se por um homem chamado Gabriel, o que é visto, em geral, como uma proteção nas ruas. No início muito amor e carinho, ele a tratava muito bem, estavam sempre juntos e se sentia, de fato, protegida. Pouco depois Gabriel começa a mudar, ele pede para ela vender e transportar droga. Coloca na cabeça que ela tem que fazer programas para eles terem dinheiro e foi ficando violento. Como a maioria das mulheres (inclusive trans) nas ruas, começou a ser usada e maltratada pelos ditos companheiros. Voltou aos seus amigos Suzy, Diana, Rebeca e Bruno, e os laços fortaleceram-se mais ainda.

 

Um dia, sob efeito da droga, o grupo andava no meio fio de uma avenida, titubeante e zonza Suzy sai da calçada e entra na via. Um ônibus passa por cima dela. Ver a amiga daquela maneira, sentir o calafrio da morte (poderia ser ela também) a fez desmaiar. Depois que acordou, sem a melhor amiga, foram dias terríveis. 

 

Brenda se vai logo depois, mas cara leitora e leitor não fui eu que inventei sua morte. Ela começou a ser assassinada a partir do dia que resolveu encarar o voo do masculino em direção ao feminino, rumo ao desejo. Invisibilizada, sua agonia será apenas mais uma dentre as tantas trans assassinadas, assim como provavelmente não se saberá quem foi que, na calada da noite e num momento de descuido (talvez embalada pela tristeza da perda de sua melhor amiga), lhe deu tantas facadas. A ânsia em arquivar e não investigar provavelmente falará mais alto, sobretudo em se tratando de uma mulher trans numa sociedade hipócrita e transfóbica.

 

 

Cassiano Ricardo Martines Bovo é doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e Ativista de Direitos Humanos na Anistia Internacional Brasil.


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Notas:

[1] GIORGETTI, Cassio. Vida que segue, rua que muda. São Paulo: Ed. Clube de Autores, 2017, p. 93-94. 

[2] NATALINO, Marco Antonio Carvalho. Estimativa da população em situação de rua no Brasil. Brasília: IPEA, Texto para discussão 2246, 2016. 

[3] “Estão divulgando uma mentira. São mais de 32 mil pessoas em situação de rua em São Paulo”, disse Anderson Miranda, que afirmou ter feito parte da pesquisa como recenseador, segundo o jornal Folha de S. Paulo. Ao lado de outros integrantes do Movimento Pop Rua, ele acusou recenseadores de terem excluído entrevistados da pesquisa (….) O padre Julio Lancellotti, representante da Pastoral do Povo de Rua, afirmou também que a pesquisa de 2019 usou o mesmo itinerário do censo anterior, desconsiderando as mudanças espaciais da população de rua entre 2015 e 2019, segundo o jornal O Estado de S. Paulo”. https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/02/03/O-perfil-da popula%C3%A7%C3%A3o-de-rua-de-S%C3%A3o-Paulo-em-5-pontos

[4] http://transite.fafich.ufmg.br/transito-das-ruas/

Quinta-feira, 9 de abril de 2020
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