A Cloroquina e o Presidente que gritava lobo
Quarta-feira, 15 de abril de 2020

A Cloroquina e o Presidente que gritava lobo

Imagem: “Puer Mendax” de laurakgibbs via Flickr

 

Por Tiago C. Vaitekunas Zapater

 

É conhecida a história do jovem pastor que, entediado com suas ovelhas, voltava correndo à aldeia gritando “lobo! lobo”, só para chamar atenção. Quando, enfim, um lobo efetivamente ataca o rebanho e o menino grita “lobo, lobo!”, ninguém acredita e o lobo acaba com as ovelhas. Em algumas versões, o próprio menino é devorado. Em outras, aprende a lição de que “na boca do mentiroso, o certo é duvidoso“. Essa pode ser uma lição sobre Bolsonaro e a Cloroquina. 

 

 

Bolsonaro mente com frequência espantosa, mesmo para um político. Maquiavel aconselhava o uso da mentira na política, contudo, quem quer que o tenha lido para Bolsonaro parece não ter feito um bom trabalho, pois também Maquiavel advertia que “é preciso saber bem disfarçar essa qualidade e ser hábil em fingir e dissimular“. Como em muitas outras áreas, Bolsonaro não é um bom mentiroso. Não porque seja honesto, mas porque, além do caráter, lhe falta a habilidade de dissimular. Em compensação, o que lhe falta em capacidade de dissimulação lhe sobra em medo de perder o poder. 

 

As mentiras que saem de sua boca são acompanhadas não só pelos perdigotos, mas também por uma violenta exploração do medo e do ódio coletivos. Suas mentiras não pretendem parecer verdadeiras, pretendem apenas reforçar uma visão de mundo do seu eleitorado. Como foi isso que o levou ao poder, e está apavorado com a hipótese de perdê-lo, Bolsonaro oferece mais do clima eleitoral que lhe beneficiou antes. Esqueça qualquer tentativa de união, pacificação ou segurança, tudo tem que ter um lado: o vírus (chinês/não-chinês), o tratamento (pró-isolamento/contra-isolamento), a cura (pró-cloroquina/contra-cloroquina).

 

Já não se trata (se é que já se tratou) de evitar as mortes. Nem de salvar a economia, que vinha mal desde 2019. Trata-se de salvar o governo e o projeto de poder bolsonarista. A desesperada criação de narrativas visa a justificar politicamente as mortes, atribuindo-as aos inimigos do bolsonarismo. A mais recente empreitada nesse sentido é a apresentação da cloroquina como “remédio do Bolsonaro”. 

 

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Em toda epidemia, é possível saber de antemão que (i) haverá doentes e mortos; e (ii) com o tempo a população se imunizará. Logo, nada mais simples do que se apresentar como portador de uma cura que poderia ter evitado as mortes se ao menos lhe tivessem dado ouvidos antes. Foi assim que, no início, Bolsonaro apostou em ser contrariado na proposta de levantar o isolamento social, para poder culpar a oposição pelos danos econômicos do isolamento; agora, aposta em poder culpar a oposição pelas mortes, já que estariam impedindo o uso da “cloroquina de Bolsonaro“.  

 

É preciso desmascarar a farsa: não há nenhuma proibição para que os médicos prescrevam a cloroquina, quer para pacientes graves, quer para pacientes em estágio inicial. Como ocorre com qualquer medicamento com nível elevado de toxicidade, é preciso analisar o caso de cada paciente e considerar seu histórico individual. A lista de contraindicações é longa, assim como os efeitos colaterais da cloroquina que, como outros medicamentos anti-inflamatórios e anticoagulantes, tem sido testada como uma das opções no tratamento da Covid-19.

 

Mas, se não há nenhuma proibição para o uso — e, de fato, ele vem ocorrendo — é preciso se perguntar, qual o motivo para tanto debate? Ninguém busca autorização legal para o uso da cloroquina, porque isso é absolutamente desnecessário, o que se quer é uma narrativa que permita ao governo capitalizar politicamente as mortes como algo que ele poderia ter evitado (e talvez contratos para compras de cloroquina em grande quantidade). 

 

Pode dar certo porque, para muitas pessoas, encarar a complexidade a partir de uma visão simplista do mundo ajuda a manter as próprias convicções. De outro lado, Bolsonaro pode estar subestimando o efeito de longo prazo de tantas e tantas mentiras repetidas: mesmo que a Cloroquina pudesse vir a ser anunciada como A Cura da Covid-19, alguém terá razão de apontar que a culpa de qualquer demora é do próprio Bolsonaro, já que “na boca de um mentiroso, até o certo é duvidoso“.

 

 

Tiago C. Vaitekunas Zapater é professor de Direito na PUC-SP, doutor em Filosofia do Direito


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