Os evangélicos brasileiros e a pandemia: Deus vs Diabo
Sexta-feira, 17 de abril de 2020

Os evangélicos brasileiros e a pandemia: Deus vs Diabo

Arte: Ivy Frizo/Justificando

 

Por Matheus Alexandre

 

O Instituto Datafolha divulgou, no dia 03/04, pesquisa de opinião sobre a pandemia do COVID-19 [1] . Segundo os dados divulgados, os evangélicos tendem a avaliar melhor as ações do governo de Jair Bolsonaro e a relativizar a pandemia.

 

A posição de que o isolamento social deve ser respeitado ainda é majoritária, entre este grupo religioso. No entanto, alguns dados merecem uma atenção cuidadosa: enquanto 37% da população geral defende que os trabalhadores devem voltar ao trabalho, entre os evangélicos esse número sobe para 44%. Os índices de “bom” e “ótimo” atribuídos à condução da crise pelo presidente entre a população geral é de 33%. Entre os evangélicos esse número também salta para 41%.

 

Esses são fatores interessantes e que não podem ser desconsiderados de nossas análises sobre o momento político que vivemos. Os evangélicos crescem em número e em capacidade de lobby. Ainda segundo o Datafolha, eles são 31% dos brasileiros e ocupam 107 das 513 cadeiras da Câmara Federal. Compreender o comportamento político desse grupo é, portanto, fundamental para percebermos com nitidez o desenrolar dos fatos no cenário político nacional.

 

Para compreender essa reação dos evangélicos diante da crise, no entanto, não podemos partir de explicações simplistas. As críticas que apontam esses posicionamentos ora como frutos da manipulação dos fiéis por parte de suas lideranças, ora como o simples alinhamento político ao governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, não dão conta da complexidade que constrói o imaginário religioso de boa parte dos evangélicos contemporâneos. Esse texto não pretende refutar essas hipóteses, mas apresentar e introduzir outras perspectivas para que o nosso entendimento seja enriquecido.

 

Duas teologias ganharam força entre os evangélicos brasileiros, nas últimas décadas: a teologia da prosperidade e a teologia da guerra espiritual. Essas perspectivas teológicas ingressaram no Brasil em momentos diferentes. A primeira, a partir da década de 1970 e a segunda na década 1990. Apesar de chegadas em períodos diversos da vida social e política do país, ambas possuem pontos comuns e, como aponta o sociólogo Ricardo Mariano (2014), elas fizeram milhões de adeptos através da expansão das igrejas neopentecostais. Esses pontos comuns extrapolam o fato de terem sido forjadas e exportadas para o mundo a partir das igrejas evangélicas estadunidenses.

 

A teologia da guerra espiritual ou da batalha espiritual (MARIZ, 1999), conhecida nos Estados Unidos como “Dominion Theology”, refere-se à luta dos cristãos contra o diabo. Essa teologia prega que tudo o que se passa no “mundo material” é resultado da guerra travada entre as forças divinas e as demoníacas no mundo espiritual. Problemas como enfermidades, fome, pobreza e desemprego são problemas espirituais. A pobreza seria, portanto, causada pelo “espírito da pobreza”, a doença pelo “espírito da doença”, as dificuldades financeiras na família pelo “espírito devorador” etc. Sendo esses problemas sociais transformados em problemas espirituais, a solução seria igualmente espiritual: uma intervenção divina por meio da oração com fé. Uma guerra espiritual em que os fiéis são “soldados” e essa coletividade, um “exército de Cristo”.

 

Max Weber aponta, em “Sociologia das Religiões” (1991), que o cristianismo primitivo concedeu importante destaque para o diabo. Tal doutrina não fez parte do repertório católico, muito menos do protestante. O diabo era tratado, nesses subcampos da religiosidade cristã, como uma abstração. No entanto, há um retorno, na contemporaneidade, através da crença na guerra espiritual, que está presente em grandes e importantes igrejas evangélicas brasileiras. A figura do diabo recebe novamente maior importância, sendo o responsável pelos males do mundo e explicando a coexistência entre um deus “onisciente”, “onipresente” e “onipotente”, e o sofrimento humano injusto.

 

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A teologia da prosperidade, conhecida entre os norte-americanos como “Health and Wealth Gospel”, chega ao Brasil em meados da década de 1970 e subverte a crença de desvalorização do mundo predominante entre os pentecostais, promovendo a ideia de que o mundo é o locus da felicidade, do sucesso financeiro e da abundância de bens materiais para os cristãos, os quais são “herdeiros de Deus”, e este o criador do mundo. Para ser próspero, ter o corpo saudável e ser feliz é necessário, apenas, ter fé e ser dizimista. Sim, dar o dízimo, pois é “dando que se recebe” (MARIANO, 2014). Com esses dois elementos, os fiéis reuniriam as condições espirituais necessárias para cobrarem de Deus uma vida melhor e determinar – pela palavra – as suas bênçãos. Nessa teologia, os males materiais e naturais também são espiritualizados. A explicação comumente está na falta de fé, na não contribuição dizimista ou, ainda, nas ações diabólicas.

 

Ao analisarmos, agora, a partir desses elementos, não soa estranho que líderes evangélicos afirmem que a pandemia é “coisa de Satanás”[2], que o vírus será “queimado pelo hálito de Deus” [3], que “[o coronavírus] é a coroa do Diabo”[4] ou que a oração é a principal “arma” de proteção do cristão, nesse momento [5]. São inúmeros os posicionamentos de pastores, bispos e apóstolos nesse mesmo sentido. Essas teologias, todavia, não estão presentes apenas nas igrejas neopentecostais. Inúmeras igrejas pentecostais de tradição ascética e históricas renovadas aderiram a essas doutrinas em razão da enorme disputa numérica por fiéis no mercado da fé. Não à toa, o principal instrumento de propagação desse discurso, tanto nos Estados Unidos, como no Brasil, foi a televisão.

 

O aceite das principais igrejas do país à convocação de Jair Bolsonaro para um jejum nacional contra o vírus, no último dia 05 de abril, representa bem não apenas o alinhamento político dessas denominações ao governo federal, mas também a capilaridade dessas teologias e como elas podem ser instrumentalizadas politicamente. Em um vídeo divulgado por Jair Bolsonaro em suas redes sociais, o pastor e deputado federal Roberto Lucena afirma que o presidente convocou “o exército de Cristo para a maior campanha de jejum e oração já vista no país” e que “a igreja de cristo na terra irá clamar e o inferno irá explodir”[6].

Precisamente em razão desses perigos com que a natureza nos ameaça foi que nos unimos e criamos a cultura, que, entre outras coisas, também deve possibilitar a nossa convivência. E a tarefa capital da cultura, sua verdadeira razão de ser, é nos defender contra a natureza (FREUD, 1969).

 

Sigmund Freud, em “O futuro de uma ilusão” (1969), aponta que as ideias religiosas surgem da necessidade humana de defender-se da superioridade da natureza e que a figura de “Deus” foi criada para substituir a figura do pai. Adulto e sentindo-se desamparado, precisando da proteção de alguém mais forte contra a condição estrutural do humano, a vulnerabilidade, transfere esse poder paterno para um deus.

 

Essa insegurança existencial abordada por Freud (1969) que, em certa medida, é sanada pela crença em um Deus-pai, é sanada igualmente pelas instituições da civilização. Giddens (1991) também fala dessa segurança/insegurança ontológica. Segundo ele, são os serviços de educação, transporte, segurança, saneamento, energia elétrica etc., que garantem a segurança existencial. Na ausência deles, a segurança seria ameaçada por riscos presentes no dia-a-dia. É a confiança nesses sistemas que, segundo Giddens, possibilita o intuito de continuar vivendo.

 

Ao trazer para a realidade brasileira e considerando que os evangélicos são compostos majoritariamente por pobres, negros e mulheres [7], grupos sociais mais excluídos do acesso aos serviços essenciais no Brasil, a necessidade de crer que o vírus é uma ameaça de ordem espiritual e que é preciso, por isso, recorrer a Deus, parece tomar uma dupla dimensão: além de abandonados pela figura paterna, estão abandonados também pelos serviços públicos, que são insuficientes e precários. A teologia da guerra espiritual e a da prosperidade encontram o solo perfeito: confortam, sim, a angústia de muitos brasileiros, mas, na mesma medida, oferecem um risco mortal em tempos pandêmicos.

 

Assim, como crianças com medo do escuro, nós, os humanos, sentimos medo daquilo que nos ameaça e não podemos enxergar. O vírus invisível é como um monstro no guarda-roupa. Ele é o Diabo e Deus, nosso pai, o protetor. Que Deus nos proteja, então.

 

 

Matheus Alexandre é cientista social e mestrando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará.

 


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Notas:

[1] Datafolha: opinião sobre a pandemia coronavírus. Disponível em: <http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2020/04/1988648-aprovacao-a-ministerio-da-saude-cresce-enquanto-sobe-reprovacao-a-bolsonaro-na-crise-do-coronavirus.shtml?_ga=2.183315686.1384109855.1586824168-526518891.1553972692&_mather=148195c8303c8f4f>. Acessado em: 13/04/2020.

[2] Edir Macêdo diz que coronavírus é inofensivo e tática de satanás. Link: <https://www.poder360.com.br/midia/edir-macedo-diz-que-coronavirus-e-inofensivo-e-tatica-de-satanas/>. Acessado em 13/04/2020.

[3] Valdomiro Santiago reclama que política atrapalha igreja em tempos de coronavírus. Link:< https://revistaforum.com.br/coronavirus/video-pastor-valdemiro-santiago-reclama-que-politica-atraplha-a-igreja-na-pandemia-do-coronavirus/>. Acessado em 13/04/2020.

[4] Megaigrejas continuam abertas e dizem que fé cura coronavírus. Link: <https://apublica.org/2020/03/megaigrejas-continuam-abertas-e-dizem-que-fe-cura-coronavirus/>. Acessado em 13/04/2020.

[5] Silas Malafaia diz que não vai fechar igreja por causa do coronavírus. Link: < https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/03/14/silas-malafaia-diz-que-nao-vai-fechar-igreja-por-causa-do-coronavirus.htm>. Acessado em 13/04/2020.

[6] Bolsonaro faz chamado para jejum religioso neste domingo contra coronavírus. Link: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/bolsonaro-faz-chamado-para-jejum-religioso-neste-domingo-contra-coronavirus.shtml>. Acessado em: 13/04/2020.

[7] Cara típica do evangélico brasileiro, segundo o Datafolha. Link: < https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/01/cara-tipica-do-evangelico-brasileiro-e-feminina-e-negra-aponta-datafolha.shtml>. Acessado em 13/04/2020.

Referências:

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Porto Alegre: LP&M, 2010.

GIDDENS, Anthony. Consequências da modernidade. São Paulo: UNESP, 1991.

MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. 5. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014.

MARIZ, Cecília Loreto. A teologia da batalha espiritual: uma revisão bibliográfica. : uma revisão bibliográfica. BIB, Rio de Janeiro, v. 1, n. 41, p. 33-48, jan. 1999.

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