O jogo de xadrez do ex-ministro Mandetta
Terça-feira, 21 de abril de 2020

O jogo de xadrez do ex-ministro Mandetta

Foto: Marcelo Casal Jr / Agencia Brasil – Foto: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Ariston Pereira de Sá Filho, Fábio Augusto Ribeiro Aby Azar, Marcos Rodolfo Araújo Sá e Thiago de Oliveira Sampaio

 

Os organismos internacionais de saúde alertaram o mundo que a crise do COVID-19 (coronavírus) desencadearia mortes em níveis alarmantes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e comunidade científica, a solução mais coerente para que os países possam conter o avanço do vírus, sem que o sistema de saúde entre em colapso é o isolamento coletivo. Em face disso, o ex-ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta adotou como orientação oficial as recomendações da OMS e dos especialistas da área de infectologia, como fez a maioria dos países do mundo. 

 

 

Ocorre que, embora correta, a opção adotada por Mandetta ela é, acima de tudo, política. Manter dissonante seu discurso em relação ao discurso do presidente Jair Bolsonaro demonstrou que, racionalmente, o ex-ministro não queria pagar a conta das possíveis mortes, caso o isolamento coletivo fosse afrouxado. O presidente Bolsonaro precisava de alguém para assumir esse risco e Mandetta, como velho político que é, não caiu nesse engodo. 

 

A história política de Luiz Henrique Mandetta nem de longe pode ser tratada como uma espécie de amadorismo político. O ex-ministro já foi filiado ao PMDB e hoje compõe a base do DEM, ambos partidos políticos que representam a mais velha fisiologia político-conservadora brasileira. Mandetta tem sua história política iniciada no Mato Grosso do Sul e sua família, também de políticos, é composta por diversos caciques da política regional do centro-oeste brasileiro. Nesse contexto, seria ingênuo esperar outro posicionamento do político senão o de obedecer às orientações dos cientistas e da OMS. Pensar que ele assumiria o risco e a responsabilidade de um possível colapso do sistema público de saúde seria tratá-lo como alguém que não sabe como a banda toca em Brasília, e Mandetta sabe muito bem como funciona os mecanismos políticos no planalto central. Foi justamente por ser um político do “centrão fisiológico”, ligado as tradicionais elites do poder que seguiu à risca todo o cronograma dos organismos mundiais de saúde, contrapondo-se às recomendações do presidente da república. Mandetta não levaria consigo a chaga das mortes causadas pela doença viral baseando seu ministério em caprichos alucinantes do presidente da república, o ex-ministro é muito mais esperto que isso e conhece a trama política que se traça em Brasília, ele faz parte dela.   

 

É tão retórica e política as escolhas feitas pelo ex-ministro em prol do SUS que não precisamos ir muito longe para demonstrar isso. O apoio de Mandetta à PEC 241 (a chamada PEC do congelamento de gastos público), que retirou cerca de 22,5 bilhões de reais da saúde pública*, revela como o SUS nunca foi uma prioridade para o ex-ministro. Foi apenas em face da atual pandemia que a narrativas se modificou e aquele que outrora fora visto como vilão do sistema de saúde público ressurge como herói e defensor do SUS. 

 

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Vale a máxima: “em terra de cego, quem tem olho é rei”. Diante da pueril e completa irresponsabilidade com que o presidente Jair Bolsonaro lida com a pandemia, figuras como as de Mandetta nos parece ser as mais sensatas da cena política atual. Talvez se o presidente estivesse feito a coisa mais óbvia e coenrente a se fazer nesta pandemia, que seria seguir as orientações dos organismos internacionais de saúde, não estaríamos discutindo se devemos ou não manter o isolamento social, isso seria um ponto pacífico na estratégia de combate ao vírus. Se o presidente estivesse defendendo o isolamento social em harmonia com seu ex-ministro da saúde, governadores de estados e prefeitos de municípios estaríamos discutindo outros pontos igualmente fundamentais para salvar vidas, como, por exemplo, a compra e produção de mascaras, testes, respiradores, e tantas outras demandas essenciais.

 

A divergência entre o discurso economicista do presidente Jair Bolsonaro e o discurso de Mandetta tinha prazo certo para se encerrar. Essa tensão, obviamente, não duraria muito tempo. Primeiro, porque para se afrouxar o isolamento social seria necessário um parecer técnico do Ministério da Saúde. Se Mandetta assumisse a narrativa do chamado “isolamento vertical” e este não fosse capaz de impedir a propagação acelerada do vírus e nem o colapso do sistema de saúde, a culpa das mortes recairia sobre o ex-ministro. Por outro lado, caso o “isolamento vertical” proposto pelo presidente fosse assumido pelo ministério de Mandetta e surtisse os efeitos desejados pelo Presidente e o sistema de saúde comportasse a aglomeração de infectados, a glória da medida seria do Presidente da República, que tratou a pandemia publicamente como uma “gripezinha”. O ex-ministro foi colocado em xeque, pois as chances de o “isolamento vertical” surtir efeito, nesse momento, é quase um delírio. Por isso, Mandetta chutou o tabuleiro, como velho político que é, e não assumiu a conta do delírio presidencial.   

 

Assim, o fato que nos parece não ter sido considerado pela estratégia do presidente, talvez pela completa incapacidade cognitiva e de raciocínio lógico de Bolsonaro, é que Mandetta é um político profissional e jamais tomaria essa rasteira. Caso Mandetta assumisse a narrativa presidencial, demonstraria um amadorismo inconsequente, típicos daqueles que veem a política como um encontro de amigos sem interesses diversos, como nos parece ser a postura do novo ministro da saúde, Nelson Teich. 

 

Nelson Teich assumiu o Ministério da Saúde corroborando a narrativa do presidente, ainda que de maneira tímida. No entanto, o que o novo ministro parece ainda não ter entendido, é que política se faz com políticos, e aquele discurso Bolsonarista de não dialogar com os outros poderes é meramente retórico, sem efetividade, beira a alucinação. Logo, do cenário posto ao atual Ministro da Saúde, temos que Nelson Teich ou será engolido pela velha política e assumirá toda a culpa dos erros do seu ministério, deixando os acertos como bônus presidencial; ou inventará a roda e terá uma saída extraordinária para crise da pandemia que assola o mundo certamente se consagrando como um exímio gestor e sendo certo também que ninguém no mundo repetirá tal feito.      

 

 

Ariston Pereira de Sá Filho é advogado criminalista graduado pela USP-SP, pós-graduado em direito processual pela Escola Paulista de Direito (epd). 

Fábio Augusto Ribeiro Aby Azar é advogado criminalista graduado pela UNESP. 

Marcos Rodolfo Araújo Sá é advogado criminalista graduado pela USP-RP, pós-graduando em direito penal econômico na PUC/MG.

Thiago de Oliveira Sampaio é economista graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP.


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