O que podemos aprender com as manifestações de Hong Kong?
Terça-feira, 21 de abril de 2020

O que podemos aprender com as manifestações de Hong Kong?

Imagem: Reprodução / HKFP

 

Por Mateus Catunda Marques e Cassiano Ricardo Martines Bovo

 

“Seja forte como gelo e fluído como a água, agregue-se como o orvalho, mas saiba dispersar como o vapor”¹

 

 

Noite de sete de agosto de 2019 em Hong Kong. Fachos de laser cruzam-se no ar, em suas trajetórias que vão das canetas na multidão em direção à cúpula do Museu do Espaço. Cones luminosos que começam finos e vão se alargando em aberturas de diferentes tamanhos e que magicamente inundam de verde, azul e violeta a noite honconguêsa, espetáculo que os manifestantes chamaram de “observação das estrelas”. Mas não se trata exatamente de uma encenação (embora também o seja) e sim de uma manifestação, dentre as tantas que se desdobraram depois que, em março de 2019, o governo chinês anunciou uma lei de extradição cuja aplicação possibilitaria o julgamento de cidadãos de Hong Kong pelo sistema judicial chinês.

 

As canetas de laser saindo das mãos de manifestantes se tornaram mais que um espetáculo; viraram armas para atrapalhar a fiscalização de câmeras de segurança e o reconhecimento facial nas manifestações. Desdobra-se daí outra impactante imagem nessas ocasiões: o embate entre fachos de laser e poderosos projetores luminosos intensamente brancos disparados pelos policiais; um encontro de duas forças assimétricas em uma “luta de luzes. Esta batalha começou por conta da prisão arbitrária de um estudante que portava dez canetas de laser, acusado de “porte de arma ofensiva”. Lição: ao invés de intimidar-se, por conta do comportamento arbitrário das autoridades, explorá-lo de maneira simbólica e criativa em um contra-ataque ordenado. 

 

Um símbolo? Guarda-chuvas, desenvolvimento multicolorido (embora numa só cor em algumas ocasiões: o amarelo) que vem da “revolta do guarda-chuva”, em 2014, quando manifestantes saíram às ruas para exigir o voto direto na eleição do chefe do executivo, reivindicação agora ressuscitada no embalo destas manifestações. Impacto visual sim, mas os guarda-chuvas organizadamente recebidos são também proteção, sobretudo para a linha de frente, como escudos contra o spray de pimenta atirado pelos guardas e os sistemas de identificação. 

 

Em meio ao formigueiro humano por entre avenidas e ruas, três manifestantes seguram um gigante estilingue: dois, à frente, cada um em uma ponta. Atrás, na outra extremidade, o terceiro manifestante segura o enorme elástico, ligado às duas pontas, de onde sairão pedras e objetos arremessados contra a polícia.  

 

Ouve-se o som da multidão, na sua lenta marcha, a cantar incessantemente não palavras de ordem e exigências (embora isso também ocorra), mas uma canção cristã que virou hino dos manifestantes: “Cante Aleluia ao Senhor”, mundialmente conhecida como Sing Hallelujah to the Lord,  que evoca a Páscoa. É mais uma estratégia, um desarme: em Hong Kong ninguém pode ser preso ou reprimido se estiver envolvido em alguma atividade relacionada à religião, por exemplo, entoar cânticos. 

 

Carros da polícia vão em direção aos manifestantes; param no caminho. Diante deles, enormes tijolos estrategicamente fixados nas ruas, não os permite seguir. Grandes faixas transparentes, como se fossem fitas adesivas gigantes, unem os dois extremos das ruas.  Objetos de todos os tipos (cones de rua, pedaços de madeira, grades, placas, metais em geral) criativamente são redefinidos em relação às suas funções originais e viram barreiras, obstáculos, fecham ruas, avenidas, túneis, pontes, vias importantes, às vezes simultaneamente; viram também barricadas. Chamam isso de “Florescer em todas as partes” (Blossom Everywhere), estratégia essa de longo alcance, pois em várias ocasiões os manifestantes conseguiram paralisar o metrô, os trens, o aeroporto, as estradas, assim como fechar shoppings, lojas, comércio e diversos serviços. Trata-se da ideia de asfixiar economicamente a cidade. O impacto foi sentido no Produto Interno Bruto de 2019. E mais: há mudanças rápidas de rotas e de locais, ou estar em vários simultaneamente, novas divisões e focos, reordenações repentinas denominadas de flash mob protests. Reinventa-se a ocupação da rua. Os manifestantes conseguem rapidamente, em grande número, deslocarem-se para diferentes locais, às vezes bem distantes. 

 

Aeroporto de Hong Kong, um dos mais movimentados do mundo. A multidão para lá caminha e o local começa a ser cercado, em seguida invadido. O acesso é bloqueado, causando repercussões no trânsito, voos paralisados, trens suspensos e os manifestantes por dias lá permanecem. Não foi uma só vez. Ação de apoio: cotidianamente manifestantes abordam quem chega dos voos para informar e conversar sobre suas reivindicações.

 

Organização e logística. Corredores humanos para passar alimentos, água, remédios, de mão em mão até chegar ao seu destino final, geralmente a linha de frente ou alguma situação emergencial; códigos que todos entendem, facilitam e dão a agilidade necessária. Um exemplo: a famosa imagem “viral” da passagem de uma ambulância em meio à multidão, quando os manifestantes rapidamente cederam o espaço. Em geral, se valem da “linguagem” dos sinais com as mãos para seguirem organizados em tais momentos.  

 

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Troca rápida de informações (tanto para a logística como para conseguir máscaras, garrafas d’água, óculos de proteção, capacetes e outros artefatos de resistência, assim como endereços de postos de primeiros socorros), grupos com profissionais de várias áreas (comunicação, advogados, médicos e enfermeiros, observadores de locais de concentração de policiais) assim como grupos comunitários. Crucial apoio para o sucesso do movimento.   

 

Criação de redes de solidariedade entre e para além dos manifestantes. Para evitar usar cartões magnéticos, que são facilmente rastreados, muitos deixam tickets à mão para ajudar quem está sem dinheiro para comprar. A solidariedade também é simbólica: um manifestante que teve o olho ferido virou símbolo de resistência e muitos honconguêses colocaram falsos tapa-olhos com gaze e tinta vermelha.

 

Cenas até aqui descritas assim como a articulação entre os manifestantes não lograriam êxito em termos de organização sem as redes sociais e outras ferramentas tecnológicas. Uma miríade de canais e possibilidades são utilizados em clima de rápido aprendizado e transmissão de conhecimentos: chats, fóruns, Telegram, Reddit e assemelhados (que possibilitam a criação de grupos específicos), plataformas de streaming, AirDrop, Bluetooth (alternativas pragmáticas para os momentos em que o governo corta a internet), jogos, Tinder (para pedir apoio às manifestações). Manifestantes recebem adicional estímulo para (aprender a) lidar com essas ferramentas e não deixar rastros – cautela importantíssima frente ao avanço de recursos tecnológicos de censura, vigilância e controle do governo chinês. Comunicação e rapidez fazem a diferença. Alternativas incessantemente vão sendo criadas na luta.  

 

E quanto às bombas de gás lacrimogênio disparadas pelos policiais? Guarda-chuvas, tampas de bueiro, placas, tudo isso pode proteger a face, mas não evitam a aspiração, que é danosa à saúde. Lenços, capacetes e óculos de esqui e natação são usados pelos manifestantes, mas também não resolvem (embora ajudem a conter o impacto de balas de borracha). Jogar água enquanto as bombas não explodem ou colocar garrafas de água nos cones de trânsito, retardam o problema. Só máscaras de filtro de carvão ativado usadas pelos policiais resolvem, embora sejam vistas em alguns manifestantes, o que também contribui para burlar a identificação. Outra frente: legalmente embasado, o movimento exige informações sobre os componentes dos gases.

 

Obviamente, como todo movimento, há pessoas que se aproveitam e agem por conta própria, de maneira desconectada da maioria, por exemplo, um indivíduo que atirou uma flecha que matou um policial. Esse é um efeito colateral que infelizmente não há, na prática, como evitar; emerge como custo da luta. Também é necessário lembrar a violência extrema (tiros de arma de fogo, espancamentos, balas de borracha na face etc.) que em algumas ocasiões partiu dos policiais.   

 

Chama atenção que o movimento não tem líderes e nem porta vozes, algo que não é fácil em processos duradouros e nessa magnitude, ainda mais quando se considera o alto nível de organização e logística exigidos. Complementarmente, a reforçar o desafio da empreitada, temos um amplo conjunto de atores (ativistas, organizações, movimentos e partidos) que conseguiu deixar de lado antagonismos e divergências (em alguns casos, tratando-se de visões completamente opostas) em nome de um objetivo comum. Esse foi um aprendizado em relação às manifestações de 2014, quando ocorreu o oposto e o movimento se dividiu. 

 

Ademais, um fator que explica a continuidade das manifestações é o fato de que uma vez atingida à reivindicação original, o processo foi alimentado por outras demandas em direção à democracia e à autonomia frente ao governo chinês. Deste modo, foi atestada a capacidade estratégica em aproveitar o ímpeto da população para novas reivindicações, atingida uma, se aproveita o embalo para outras. Isso requer saber trabalhar com a paciência, ter clareza em relação ao horizonte temporal que se tem à frente.  

 

Neste contexto, um indicador de resultado das manifestações foram as eleições municipais para os representantes distritais (que influenciam na escolha do chefe do executivo) ocorridas em novembro de 2019 com dois desdobramentos inéditos. Por um lado, a ampla adesão dos eleitores num país em que normalmente o comparecimento de votantes à urna não chega nem a 50%. Se na penúltima eleição (recorde à época), a participação foi de 58%, nesta, a cifra chegou a 71,2%. Por outro lado, o resultado dos votos; a oposição democrática obteve 351 dos 452 assentos distritais, derrotando largamente os candidatos pró-governo chinês.

 

Por fim, cabe destacar que não é nosso intento, por meio do presente ensaio, abordar as questões políticas, interesses e nem sequer os objetivos do movimento. Tal empreitada nos levaria para o terreno da análise geopolítica e de uma discussão analítica acerca do posicionamento ideológico das manifestações em Hong Kong – debate importantíssimo, que já tem sido realizado com frequência e profundidade em várias instâncias. Assim, tão somente desejamos que os retratos aqui desenhados, para além dos famosos guarda-chuvas, nos embalem em aprendizados que fortaleçam nossas lutas no sentido estratégico e pragmático de mobilizações sociais. Tais aprendizados, acreditamos, podem ser de grande valia, sobretudo no Brasil, onde temos tanto a fazer diante das injustiças e governantes insanos.

 

 

Mateus Catunda Marques é formado em Relações Internacionais pela Unesp Franca e é Presidente da Rede Brasileira de Egressos do Programa para o Fortalecimento da Função Pública na América Latina

 

Cassiano Ricardo Martines Bovo é graduado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1984), mestre em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1992) e doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo


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Notas:

[1] Trata-se de uma frase de autoria de Bruce Lee e que se tornou lema das manifestações em Hong Kong.

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