As Buzinas na Paulista
Quarta-feira, 22 de abril de 2020

As Buzinas na Paulista

Imagem: Notisul

 

Por Osvaldo Estrela Viegaz

 

Moro em São Paulo, mais especificamente no cruzamento da Av. Paulista com a Rua da Consolação de um lado e da Av. Paulista com a Angélica de outro. Há todo um charme e um encanto pela região que vai para muito além de toda e qualquer questão econômica – que certamente existe -, como também pela localização privilegiada na Cidade, as belas vistas (e daí vejo o porquê do nome do bairro, Bela Vista), todos os bares, restaurantes e possibilidades ao alcance das mãos. Moro de aluguel, mas desfruto da mesma vista e localização privilegiada daqueles que são proprietários no mesmo condomínio.

 

Desde o início da quarentena, o presidente da república (sim, para ele considerado em minúsculas), aproveita-se de toda e qualquer oportunidade para promover aglomerações e defender a reabertura do comércio, pois mais importante do que salvar vidas é salvar a economia, na contramão de todos os governantes mundiais de países em que podemos considerar democráticos, salvo algumas exceções como os ditadores de Belarus, Nicarágua e Turcomenistão, que preferem ignorar a gravidade da situação, como o faz o presidente brasileiro.

 

Escrevo este pequeno texto ao som de buzinas. E não são poucas, lhes garanto. Ouvi as primeiras exatamente às 15h18, deste sábado, dia 18 de abril de 2020, acompanhadas de um carro de som que, para além de repetir as mesmas asneiras presidenciais, agradecia à Polícia Militar do Estado de São Paulo, responsável pela escolta desses “manifestantes”, pelo grande apoio fornecido neste momento. Sim, a Polícia Militar do Estado de São Paulo auxiliou o que se viu e já se posicionou dizendo não ser contrária a essas manifestações ditas populares.

 

À despeito do que o Governador de São Paulo, João Dória (PSDB), defendeu no dia anterior, estendendo a quarentena e o fechamento do comércio não-essencial, pude presenciar palavras de ordem pelo seu impeachment, bem como pela necessidade de intervenção militar, além, é claro, da necessidade de reabertura do comércio para salvar a economia (mesmo que para isso se coloquem vidas em riscos, vidas de pobres, que não valem a pena serem vividas). Rodrigo Maia e o Supremo Tribunal Federal também foram lembrados na volumosa carreata que ganhou a participação de inúmeros caminhoneiros (um dos caminhões, em seu enorme baú, trazia a inscrição “Fora Dória” em garrafais letras vísiveis de longe) e de perueiros escolares, protestando pela “volta às aulas”.

 

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Não se trata, aqui de uma posição política contra ou a favor de João Dória (PSDB), mas sim de como não apenas ele, mas como a grande maioria dos governadores brasileiros, do Sul ao Norte, Sudeste e Nordeste, de partidos da oposição e da situação, ignorando o presidente da república, tomam medidas para contenção do coronavírus (COVID-19), tendo pouco resultado, contudo, na contenção de um outro vírus, que há quatro anos, quando do golpe contra a Presidenta da República, Dilma Rousseff (PT) – essa sim com letras maiúsculas -, se enveredou pelas entrâncias do poder e, agora, da própria vida em sociedade, colocando em risco não somente quem participa das carreatas e fura a quarentena como outras pessoas que necessitam sair, seja por prestarem serviços essenciais ou para ir ao mercado ou na farmácia.

 

Enquanto todo o mundo lida com o coronavírus (COVID-19), o Brasil precisa lidar com outro vírus que ocupa a presidência e que reverbera em seus “apoiadores”: o primeiro vírus, desta pandemia mundial, aflige a todos e pode levar à morte e ao colapso do sistema de saúde; o outro, que igualmente aflige a todos e encontra-se na política, pode, também, levar à morte, até mesmo porque é a política de morte aquela colocada em pauta.

 

O presidente da república, de forma mentirosa (e cometendo mais um dos muitos crimes de responsabilidade), corre às portas do Palácio do Planalto para encontrar apoiadores, incita a subversão contra os governadores e para que seus apoiadores se manifestem contra os governadores, contra o Congresso Nacional e contra o Supremo Tribunal Federal, ou seja, contra aqueles que tentam, dentro de suas competências, colocar freios nos arroubos fascistas que permeiam esse vírus político.

 

No meio de uma pandemia mundial esse mesmo presidente da república demite o seu ministro da saúde, Henrique Mandetta (DEM), que até então fazia um trabalho coerente com a Organização Mundial da Saúde (OMS), e a justificativa fornecida para sua demissão foi simples: o ministro se preocupa muito com a vida das pessoas. [1] Aqui, também, não pretendemos fazer juízo de valor, à exemplo dos governadores, da posição política do ministro, inclusive pelo apoio ao impeachment da Presidenta da República, Dilma Rousseff (PT), tendo caído, ora vejam!, no mesmo dia em que, há quatro anos, postava foto em suas redes sociais em apoio ao golpe perpetrado em 2016. O que se tem, doutro lado, é o trabalho correto que o Ministério da Saúde como um todo estava levando em consonância com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e em dissonância com o presidente da república. Este foi o motivo de sua demissão, óbvio.

 

Giorgio Agamben, em seus estudos, trabalha há décadas com a posição do homo sacer frente à vida nua e tem na forma de construção do nazismo uma de suas principais teses.[2] As relações do campo de concentração não se findaram com o silêncio das bombas após o fim da Segunda Grande Guerra Mundial (1939-1945), simplesmente porque continuam a existir entre nós, inclusive como fundamento das democracias modernas.

 

Existe uma lacuna intransponível que as democracias, ao invés de lidarem com elas, simplesmente a ignoraram, como um problema que já se encontra no passado e definitivamente resolvido. Nossa incapacidade de lidar com essa lacuna torna-se evidente na atualidade, em que as democracias naufragam juntamente aos homines sacri existentes na sociedade, cujas vidas não importam, podendo o Estado fazer o que bem entender com elas, cuja política de morte atinge não somente aos entregadores de aplicativos que precisam enfrentar a doença com suas bicicletas para conseguir poucos reais ao fim do dia, como igualmente àqueles que simplesmente são impedidos de atravessar a rua em função de uma carreata que, a bem da verdade, não prega outra coisa que não a pandemia sanitária e política.

 

Se no dia a dia, em nosso cotidiano, esbarramos com pessoas nessa situação, como os moradores de rua, ou mesmo transformamos outras quando ultrapassamos um semáforo vermelho e quase atropelamos um pedestre, certamente devemos a esta incapacidade de lidar com aquilo que os campos de concentração produziram e em como essas relações se fazem presentes, ainda na atualidade, como mote de evidenciação da vida dita democrática. [3]

 

As buzinas diminuíram gradativamente, mas ainda consegui ouvi-las até por volta das 17h37, mais de duas horas após seu início, com períodos de maior e menor intensidade, de pessoas infectadas com um outro tipo de vírus, que certamente possuem ciência plena do que o coronavírus (COVID-19) pode causar, confinadas e “seguras” em seus carros blindados de meio milhão de reais, protestando para que a vida volte ao normal, como se fosse possível ignorar o vírus e como se o normal ainda fosse possível, pois foi justamente o normal político que nos levou ao atual estágio do fascismo pós-moderno.

 

Essas pessoas não descem de seus carros, como é típico de quem se encontra no poder não descer do seu pedestal. Enquanto furavam semáforos vermelhos, pessoas se aglomeravam tentando atravessar a rua, impedidos pelos carros que aceleravam. Protegidos em seus “palácios motorizados”, pouco se importavam com aqueles que realmente se encontram em situação de risco. Isso sem contar o congestionamento gerado e que atrapalha a vida de pessoas que saíram para ir ao mercado ou mesmo de um ônibus levando trabalhadores que, obrigatoriamente, precisam se deslocar e sair de casa.

 

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Mais do que isso, sem considerar os inúmeros hospitais que existem na região, como é o caso do Complexo que abriga o Hospital das Clínicas, o Hospital Emílio Ribas e o Hospital da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, distante um quarteirão dessa carreata antidemocrática, que em certa ocasião até mesmo impediram ambulâncias com infectados de passar. [4]

 

Essas vidas não importam, essas pessoas não importam. São invisíveis, como o próprio coronavírus (COVID-19) o é. Mas interessante de se notar que, ao contrário dos campos de concentração, uma criação humana, o vírus e a decorrência dele não são humanos. Diferentemente dos campos de concentração, na qual sua existência decorre da própria existência humana, o vírus que se alastra é natural. [5] É a natureza agindo contra o ser humano, em mais uma demonstração possível de como podemos ser destrutivos.

 

Nosso poder destrutivo é ainda maior quando vemos tudo o que somos capazes de fazer contra outros seres humanos. Se os campos de concentração nos mostraram algo é que a natureza aleatória do ser humano não possui limites mesmo quando do outro lado existem seres humanos e é exatamente isso que se demonstra quando vemos carreatas não apenas na Av. Paulista, em São Paulo, defendendo o fim do isolamento social e reabertura do comércio, como igualmente em todas as falas e ações do presidente da república que, ao invés de defender a vida e a sociedade brasileira, prega o aniquilamento social com a reabertura do comércio em nome da economia.

 

Mas, afinal de contas, o importante foi tirar o PT… tudo melhorou desde que o PT saiu do poder… a culpa disso tudo é do PT… não iremos sofrer a “ameaça comunista” novamente porque tiramos o PT…

 

Enquanto isso, continuamos naufragados na incredulidade. Sabia que existia uma porcentagem de apoio ao presidente da república; o que não sabia é o apoio ainda maior que estes destilam ao coronavírus (COVID-19), arriscando a vida alheia dentro de seus carros milionários.

 

Por mais de duas horas ouvi buzinas enquanto assistia à entregadores de aplicativos em suas bicicletas e motos passando por carros cujo valor talvez nunca tenham ganho em toda a vida. É por estas pessoas que os carros estão buzinando, pois elas precisam dos empregos (como se os aplicativos concedessem o mínimo dos direitos trabalhistas para que possam se manter).

 

A tanatopolítica se apresenta como a real fomentadora das democracias, já que é no cálculo sobre a morte que o Estado, detentor do poder, poderá dizer quem vive e quem morre, que se lastreia sua forma de atuação. Apesar de o governador João Dória (PSDB) pregar a necessidade de quarentena, sua Polícia Militar nada faz para impedir tais tipos de manifestações, que cada vez mais se mostram presentes. No mínimo, temos aqui a conivência com algo que talvez o governador, que antes de qualquer coisa é um empresário, concorde totalmente.

 

Termino esse texto assistindo novamente à “Democracia em Vertigem”, filme de Petra Costa que concorreu ao Oscar de melhor documentário, em 2020. Novamente, assisto sem conter as lágrimas que escorrem. A democracia, no Brasil, vive de golpes e eis aqui, mais um, de lastros fascistas, que nos fazem lembrar e chorar que, na verdade, a Constituição Federal de 1988 não passa de uma folha de papel, em que todos os direitos se realizam, mas nada se faz no real da sociedade, apenas em suas linhas.

 

Como a Presidenta da República Dilma Rousseff (PT) se sentiu com o golpe de 2016, me sinto também ao ouvir essas buzinas e, creio, muitos brasileiros também sentem: somos todos Joseph K., aqui julgados por um crime que, aos olhos do carrasco defensor de Bolsonaro, parece bárbaro: simplesmente, por defendermos a vida acima da economia!

 

 

Osvaldo Estrela Viegaz é mestre em Filosofia do Direito e Teoria do Estado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2017). Bacharel em Direito pela Universidade Nove de Julho (2014). Licenciado em História pelas Faculdades Integradas de Guarulhos (2009). Pesquisador do Grupo “Epistemologia Política do Direito”. Advogado em São Paulo, sócio do escritório Lima & Silva Sociedade de Advogados.

 


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Notas:

[1] REVISTA FÓRUM. Petra Costa e a metáfora perfeita para Bolsonaro: demitiu Mandetta porque era voltado à vida. In: Fórum. 17.abr.2020. Disponível em: <https://revistaforum.com.br/coronavirus/petra-costa-e-a-metafora-perfeita-para-bolsonaro-demitiu-mandetta-porque-era-voltado-a-vida/>. Acesso em: 18.abr.2020.

[2] Cf. AGAMBEN, Giorgio. O Que Resta de Auschwitz: O Arquivo e a Testemunha [Homo Sacer III]. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013.

[3] Cf. VIEGAZ, Osvaldo Estrela. Relações do Campo de Concentração e Violência no Contemporâneo – Política, Direito e Exceção em Giorgio Agamben. Dissertação de Mestrado em Direito. Orientador: Willis Santiago Guerra Filho. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), 2017.

[4] KOTSCHO, Ricardo. Horda nazifascista desfila em carreata da morte na véspera da Páscoa. In: Coluna – Balaio do Kotscho. 12.abr.2020. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/colunas/balaio-do-kotscho/2020/04/12/horda-nazifascista-desfila-em-carreata-da-morte-na-vespera-da-pascoa.htm>. Acesso em 18.abr.2020.

[5] AMARAL, Ana Carolina. Coronavírus tem origem natural e não foi feito em laboratório, mostra estudo. In: Folha de São Paulo. 18.mar.2020. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/03/coronavirus-tem-origem-natural-e-nao-foi-feito-em-laboratorio-mostra-estudo.shtml>. Acesso em: 18.abr.2020.

 

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