Atenção aos sinais de violência doméstica durante a pandemia
Quarta-feira, 22 de abril de 2020

Atenção aos sinais de violência doméstica durante a pandemia

Imagem: Agência Brasil

 

Coluna Féministas

Por Simony dos Anjos

 

A reação mais comum quando uma mulher é estuprada, é dizer que se ela  estivesse em casa, isso não aconteceria. Acontece que no Brasil a mulher não está livre de violência de gênero em nenhum lugar! Vemos casos de crianças estupradas nas escolas, igrejas, mulheres estupradas em hospitais etc. Assim, enquanto as mulheres forem vistas como objetos que devem servir o lar e aos homens, não haverá lugar seguro para nenhuma de nós.

 

 

Aqui no Brasil, cuja taxa de feminicídio é a 5ª maior do mundo, 7 a cada 10 mulheres são mortas dentro de casa (OMS). E com a pandemia de Covid-19 que enfrentamos ficar em casa é a recomendação que deve ser seguida, mas e os casos de violência doméstica? Como devemos reagir a este cenário que pode ser  aterrorizante para as mulheres?

 

Segundo o portal de notícias G1, houve o aumento de 30% dos casos de violência doméstica e também foi verificado o aumento das prisões em flagrante, em caso de doméstica. 

 

Neste cenário, a primeira coisa para a qual devemos nos atentar, é para o ciclo da violência doméstica. Ela não inicia com a agressão física, mas geralmente com insultos e agressão psicológica. Em um contexto de isolamento, a mulher pode confundir cuidado com violação patrimonial. Vejamos, o seu parceiro passa a controlar o seu dinheiro, a sua saída ao mercado, ele decide o que é essencial ou não, não quer que faça as unhas ou se maquie, mesmo que seja para ficar em casa? Sinal de alerta! Ele está violando o seu direito patrimonial!

 

No artigo 5º da Lei Maria da Penha, a violência doméstica é tipificada como: 

 

“Art. 5º Para os efeitos desta Lei configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”

 

Segundo o Instituto Maria da Penha, a violência doméstica pode ser tipificada como física (espancar, bater, empurrar etc.), psicológica (dizer coisas para confundir, diminuir ou desvalorizar a mulher), sexual (obrigar fazer sexo contra vontade da mulher), patrimonial (subtrair dinheiro ou pertences da mulher – como o celular) e moral (espalhar para familiares e conhecidos informações com o intuito de desmoralizar a mulher, principalmente por meio digital).

 

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Em um momento de isolamento social, no qual estamos inseguros quanto a nossa saúde, questões econômicas, políticas, dentre outras incertezas, o ciclo da violência pode se intensificar. Desta forma, um parceiro que nunca agrediu pode rapidamente ir da violência psicológica à física, em dias. O abuso do álcool ou outras substâncias pode também aumentar muito nesta situação, resultando no aumento do número de casos de violência doméstica. Deste modo é necessário que estejamos atentas ao comportamento dos nossos parceiros para que possamos nos proteger e a nossos filhos.

 

Existem aplicativos como o “Penhas”, da Revista Azmina, que dão orientações de como reagir e criar provas contra o agressor e mesmo como calcular a rota mais próxima a uma delegacia da mulher. É bom que saibamos que a violência é situacional, você pode se surpreender com alguém que vive há anos – isto se dá justamente pela sociedade desigual e violenta na qual vivemos, onde homens querem a ter o controle de tudo, e quando perdem, reagem de forma violenta.

 

Se perceber qualquer sinal, fique ALERTA, não descarte a possibilidade de sofrer violência. Em um momento de instabilidade emocional, as pessoas podem ter reações diversas, e é importante que a família dialogue sobre isso, como estão se sentindo e como a quarentena tem afetado a cada um. Lembrem-se, não estamos em um momento de normalidade, e é normal que nos sintamos vulneráveis, isso deve ser conversado e tratado em família- ignorar pode levar ao caos mental e familiar.

 

Prevenir é a melhor solução, ou seja, tenha uma chave reserva, caso seu companheiro venha a esconder as chaves. Tenha um código de ajuda entre as vizinhas, tenha uma mala com coisas necessárias para fuga, na casa da sua amiga, essas medidas são importantes principalmente para mulheres que já sofreram algum tipo de agressão.

 

É importante que toda mulher saiba que durante a quarentena as Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs), a Casa da Mulher Brasileira e os demais centros de acolhimento a mulher, continuam funcionando. Se não souber onde tem um desses aparelhos, procure um pronto socorro ou UBS, eles saberão como te encaminhar (principalmente em caso de violência física e sexual).  A prefeitura de São Paulo criou a campanha #seguimosjuntas, para acolher e encaminhar mulheres que sejam vítimas de violência. Veja mais detalhes do serviço aqui. O Tribunal de Justiça de São Paulo lançou o projeto “Carta de Mulheres com um formulário que, após preenchido, possibilita que uma equipe especializada entre em contato e oriente esta mulher.

 

Por fim, devemos lembrar que o combate à violência doméstica é uma tarefa de toda a sociedade. Em um momento em que tanto se fala da família, pouco se fala do efeito do machismo dentro dos lares. Como toda e qualquer instituição, a família é constituída por pessoas, se as pessoas não estão seguras, a família nunca estará!

 

 

Simony dos Anjos é graduada em Ciências Sociais (Unifesp), mestranda em Educação (USP) e tem estudado a relação entre antropologia, educação e a diversidade.


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