Pandemia e o enfrentamento de problemas filosóficos
Sexta-feira, 24 de abril de 2020

Pandemia e o enfrentamento de problemas filosóficos

Imagem: Justificando

 

Por Igor Ferreira Fontes

 

O comportamento de líderes políticos durante a pandemia da COVID-19 tem sido um dos vários assuntos discutidos por filósofos sobre a situação em que vivemos. Da decisão de agirem contra o vírus ou de esperarem para apenas reagirem, a Filosofia fornece uma série de instrumentos para avaliar e fundamentar as ações tomadas. Contudo, uma das questões filosóficas que mais se fazem presentes é a transformação em realidade dos experimentos mentais, os quais deixaram de ser meros dilemas abstratos.

 

 

Resumidamente, os experimentos mentais estão entre os principais objetos de estudo da Ética aplicada desenvolvida sobretudo pelos filósofos anglo-americanos e têm como objetivo operar e resolver dilemas morais. Um dos exemplos mais conhecidos é o das pessoas amarradas num trilho: imaginemos que um trilho se divida, em um determinado momento, em dois, e que alguém tenha amarrado cinco pessoas no caminho que o trem seguiria caso nada fosse feito e duas pessoas no caminho que o trem seguiria caso a alavanca responsável por alterar a trajetória fosse puxada. Não há tempo de salvar todos e você precisa escolher: puxar a alavanca para matar dois, mas salvar a vida de cinco pessoas, ou não puxar a alavanca, poupar duas vidas e matar cinco?

 

É de se notar que em ambos os casos alguém morreria, mas em um cenário é possível reduzir o número de mortes caso se tome uma ação. Contrariamente, no outro cenário, cinco pessoas morreriam, seja pela decisão de matá-los intencionalmente, seja pela decisão de se abster, não fazer nada e deixar as coisas seguirem o rumo que estariam seguindo – em outras palavras, não fazer nada seria tomar uma decisão: a de deixar que mais pessoas morressem. Esse tipo de dilema moral, que há décadas os filósofos da ética aplicada discutem em suas mais variadas complexidades e formulações, agora se tornou real e tem assombrado os governantes.

 

Na esfera da saúde, esse tipo de dilema tem sido enfrentado pelos médicos. Em alguns locais os médicos podem se deparar com o dilema de ter que escolher quem deverão atender, porque não têm condições de atenderem a todos; ou seja, eles precisam escolher um critério para determinar quem terá prioridade no hospital: os que estão em situação mais grave e por isso precisam de mais cuidados ou os que teriam mais tempo de vida se sobrevivessem? O problema, no fim das contas, é filosófico: que grupo deverá receber prioridade e por quais motivos? Qual deve ser o objetivo da medicina? Quais princípios estão por trás da escolha?

 

Os líderes políticos, na esfera da saúde pública, se deparam com o dilema, mas numa formulação diversa. Tomemos como exemplo o modelo matemático elaborado pelo Imperial College of London: se nada fosse feito para tentar conter a disseminação do vírus no Brasil, estima-se que mais de 1 milhão e 150 mil pessoas morreriam; contudo, se houvesse uma ação rápida e precoce contra o vírus, de distanciamento social e testes em massa, o número de mortos cairia para pouco mais de 44 mil pessoas. Cada medida de contenção reduziria o número de mortos e o pior dos cenários, no qual mais pessoas morrem, é o em que nada é feito. Agir significaria causar a morte de muitos, mas não fazer nada causaria um número muito maior de mortos. A diferença entre os números de mortos para os dois cenários supramencionados pode causar estranhamento, para alguns, de qual seria o dilema existente, afinal a diferença seria tão grande que não haveria porque hesitar em agir para reduzir os danos. O dilema aparece, contudo, quando consideramos que, além da ação implicar numa relação direta com algumas mortes (relação à qual se poderia tentar fugir caso se optasse pela omissão, apelando ao discurso de alguma força sobrenatural incontrolável e contra a qual nada poderia ser feito, ou com o discurso de que não deu ordem alguma e por isso não teria responsabilidade alguma), no caso específico da pandemia a adoção das medidas mais eficazes possuiria efeitos colaterais econômicos, sociais, psicológicos, educacionais, culturais etc.

 

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Em termos de governabilidade o dilema passa a assumir uma nova formulação: qual a melhor medida a se tomar? Por um lado, o novo coronavírus exige isolamento e distanciamento social e quanto mais rigorosos o isolamento e o distanciamento, mais eficaz é a ação; por outro lado, o sistema econômico no qual vivemos não possibilita isso e fazer o necessário para salvar o máximo possível de vidas resultará em problemas financeiros. Em sua participação na live Prendiamola com Filosofia: stafetta di filosofi – strumenti pratici per affrontare la quarentena, do dia 04/04/2020, Peter Singer observou que os estadunidenses até se faziam perguntas filosóficas sobre a quarentena, tais como: haveria sentido em adotar a quarentena? Colocando tudo numa balança, as vidas salvas pelas medidas de contenção compensariam os prejuízos econômicos? Os estadunidenses, entende Singer, apesar de se fazerem tais perguntas, não estariam capacitados para as responderem nem para as discutirem adequadamente – isto é, com a Filosofia.

 

Se recorrermos à História, entretanto, podemos observar que a suposta oposição entre saúde e economia não passa de uma falsa dicotomia e que agir para reduzir o número de mortos também reduz, simultaneamente, os prejuízos econômicos. Quando houve a gripe espanhola as cidades que tomaram medidas mais rígidas de distanciamento social tiveram um crescimento econômico mais rápido que o das cidades que demoraram a agir, além de terem registrado menos mortes; em outras palavras, agir rápida e rigorosamente, apesar de ainda causar algumas mortes, reduz drasticamente as consequências negativas (tanto de saúde quando econômicas) em relação a não fazer nada ou demorar a agir. Tomemos como exemplo ainda a Florença pós-Peste Negra: a peste causou uma drástica redução populacional na cidade, mais severa que a estimativa da média de mortos na Europa, e esta redução populacional foi responsável pela falência de inúmeros comerciantes florentinos, dando início a medidas econômicas que sufocaram os comerciantes restantes e tornavam o comércio praticamente inviável; ademais, a crise econômica na qual Florença se encontrou após a peste foi responsável por uma série de reformas (sobretudo fiscais) que se arrastaram por décadas e, mais de um século depois, a cidade ainda se encontrava economicamente em crise (a qual foi agravada pelos gastos extraordinários com as guerras nesse período). A peste pôs fim à prosperidade comercial que a cidade desfrutou no final do século XIII e começo do XIV, e a redução populacional causada pela peste marcou o início do declínio da economia florentina.

 

Na esfera econômica, portanto, adotar as medidas necessárias para conter o vírus enfraqueceria a economia, gerando desemprego e falência de vários negócios. Contudo, não fazer nada causaria um estrago ainda maior, obrigando o governante a encarar o problema do mal menor: é preferível um estrago grande ou um estrago gigantesco? Formulando o problema a partir de um exemplo, como uma fabricante de celulares poderá produzir se seus funcionários adoecerem e não puderem trabalhar? E se houver uma forte redução populacional, para quem essa empresa venderá aquilo que insistiu em produzir durante a pandemia, considerando o número menor de habitantes e, consequentemente, de possíveis compradores? Adotando ou não as medidas necessárias para a contenção do vírus haverá algum prejuízo econômico, disso não há como fugir; mas em um cenário o prejuízo pode ser muito maior do que no outro. Resta, então, decidir: agir e minimizar os danos econômicos ou deixar que as coisas marchem em direção aos piores cenários? 

 

O problema, portanto, diz respeito ao quão capacitado para lidar com os fatos e com o mal menor um governante é. Assim, trata-se de uma contemporânea formulação ética, sob a forma de dilemas morais, do problema do mal menor e do enfrentamento de novas circunstâncias impostas pelo acaso ao líder político. É, consequentemente, um problema filosófico que infelizmente se tornou realidade. Alguns líderes políticos perceberam o dilema no qual se encontravam e optaram por agir de modo a minimizar os estragos. Mas outros líderes, por desprezarem a Filosofia e não estarem familiarizados com suas reflexões, mostraram-se de todo incapazes e despreparados para gerir a pandemia, porque não aprenderam a lidar com o mal menor, ou com o conceito de redução de danos, muito menos a pensar em longo prazo e trabalhar com diferentes cenários e constantes mudanças nas exigências impostas pelo acaso. Ou, talvez, seja exatamente o pior dos cenários que eles querem e por isso não mudam a direção do trem.

 

 

Igor Ferreira Fontes é mestrando em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e graduado em Filosofia – Licenciatura pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)


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Referências

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