Nem mitos, nem heróis
Terça-feira, 28 de abril de 2020

Nem mitos, nem heróis

Ao fundo: pintura “The Fall of the Rebel Angels” de Pieter Bruegel the Elder – Foto: Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Ricardo Lodi Ribeiro, reitor da UERJ

 

Acompanho nas redes sociais a reação dos eleitores do presidente Bolsonaro diante da conflituosa demissão do ministro Sérgio Moro. Em comum a todos eles, uma grande decepção. Afinal, Moro era um dos personagens centrais da articulação que desaguou na vitória eleitoral do presidente.

 

 

E nesse contexto, vemos esse eleitorado se dividir, perdendo o bolsonarismo uma das suas colunas centrais, representada pelos admiradores da Operação Lava Jato. Muitos abandonam o Mito e migram para as hostes de Moro, o herói, que já desponta como candidato à presidência da república em 2022.  Outros se mantém teimosamente fiéis ao capitão, indiferentes à decomposição pública das práticas palacianas. Afinal, em uma sociedade polarizada, é muito difícil reconhecermos que adotamos um caminho que deu errado.

 

Uma das coisas que mais chamam atenção em todo esse episódio, é que o ex-juiz saiu atirando como se não tivesse nenhuma relação com os dezesseis meses de atuação impune da família do presidente nos casos policiais mais comentados dos últimos tempos. Como se só agora, com a popularidade do presidente evaporando na proporção em que aumentam assustadoramente os mortos pela Covid-19, é que o Ministro percebesse que o presidente quer intervir nas instituições do Estado para proteger os seus rebentos.  

 

No entanto, passada a decepção pela frustração com o malogro da cruzada contra a corrupção, que catapultou ao centro do poder esses dois festejados personagens, seria muito importante que cada um desses eleitores, antes de escolher entre o capitão e o juiz, fizesse uma profunda reflexão sobre tudo o que ocorreu no Brasil nos últimos dez anos e como canalizaram a sua legítima aspiração por um país mais honesto.

 

Nessa reflexão hipotética, e, infelizmente, improvável em um cenário pouco reflexivo, caberia superar o maniqueísmo que todos nós herdamos das estórias infantis, de que o mundo é dividido entre mocinhos e bandidos, e perceber que, historicamente, o uso político da moralidade pública sempre foi empenhado por aqueles que, sem qualquer contribuição pretérita ou futura à ética pública, procuraram imputar aos seus adversários políticos a pecha da desonestidade, independentemente do maior ou menor grau de conformidade destes, ou de si próprios , com a probidade.  

 

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É impressionante como, em todos os lugares e em todos os tempos de sua existência, a democracia sempre foi alvo dos moralistas sem moral, com dedo em riste para apontar os deslizes éticos de seus adversários, escondendo os seus próprios e de seus amigos, para debaixo do tapete, ou, quando isto não é possível, atenuando ou perdoando sua corriola.

 

Assim, a sociedade unge os seus mitos e heróis para a sua grande redenção moral a partir da maior virulência e agressividade com que o falso moralista ataca os seus adversários, a quem são atribuídas todas as mazelas nacionais.  

 

Em consequência, o debate político é privado dos verdadeiros problemas da população e das propostas para a sua superação, escondendo as contradições e desigualdades sociais e regionais, bem como as verdadeiras causas da corrupção, arraigadas à manutenção de nossa estrutura oligárquica, e do longo e acidentado caminho para a sua superação.

 

Dentro dessa lógica, são escolhidos os piores governantes, fenômeno que se potencializa na era da pós-verdade e das fake news, pavimentada pela explosão das redes sociais e dos pesados investimentos financeiros para manipulá-las.

 

Ainda na esperança quanto ao resultado da proposta de reflexão, é preciso evitar que troquemos um falso moralista por outro, a partir do abandono de nossas crenças, que trazemos desde a infância, de que precisamos de um mito ou herói para nos redimir.  Devemos encarar que os problemas comuns estão nas mãos de todos nós, e que o enfrentamento do sistema ou dos poderosos, que agudizam o mal estar da desigualdade, cenário perfeito para o surgimento de demagogos que oferecem soluções simples para problemas complexos, não está na atuação fantástica de um indivíduo dotado de características extraordinárias. Mas na participação política de todas as pessoas nas decisões importantes do nosso cotidiano, do nosso local de trabalho ou de estudo, da nossa comunidade e da arena pública em geral.

 

É preciso superar o ódio à política para nos livrarmos daqueles políticos profissionais que gostam de dizer que não são políticos e fomentam esse nojo a ela, com o objetivo de afastar o cidadão da tomada de decisão sobre os destinos comuns de todos nós, a fim de atender aos interesses inconfessáveis que garantem a sua chegada e perpetuação no poder.

 

Como dizia Zygmunt Bauman, na obra Em Busca da Política, a liberdade individual só pode ser produto do trabalho coletivo, e que precisamos da política para superar as tentativas de privatização dos meios de garantir, assegurar e firmar essa liberdade.  

 

Se cada um de nós assumir a responsabilidade pessoal pelo nosso destino coletivo, dificilmente haverá espaço para mais uma decepção com mitos ou heróis.

 

 

Ricardo Lodi Ribeiro é advogado e reitor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ.


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