O Bicho
Sexta-feira, 8 de maio de 2020

O Bicho

Imagem: Revista do ônibus

 

 

Por Priscila Aurora Landim de Castro

 

“Perguntei a mim e a Deus, ali dentro daquele ônibus, será que só tinha bicho?” 

 

 

Eis a cena:

Dois homens agarram a coisa enquanto ela se esforça em resistir como fazem os bichos acuados diante o predador. A cena é acompanhada por uma plateia que assume o papel de torcida ecoando pedidos para que se retirem a coisa do ambiente. Ela é arrastada para a porta e resiste travando o corpo entre as barras e a cada ato de resistência aumenta-se a potência da violência infringida a ela. Um homem capitaneia as agressões e dirige-lhe uma sequência de chutes, arranca-lhe das barras nas quais se sustentava. Outro homem desce para somar os esforços de retirá-la do veículo. Enquanto um dos inquisidores chuta a coisa, o outro a agarra, puxando-a para o ambiente externo. Finalmente, as portas se fecham, ela está fora, mas um dos homens que providenciou a sua retirada acabou ficando do lado de fora e ele precisa regressar para o interior do veículo. Abrem a porta rapidamente de modo a permitir o retorno do homem. Ele consegue entrar e a coisa persiste tentando regressar para o ônibus do qual foi retirada. Pelo menos três outros homens passam a sustentar a porta fechada, enquanto vozes pedem que o motorista siga o seu caminho e se afaste da coisa. 

 

Essa poderia constituir uma cena de captura de um bicho, mas refere-se a um episódio recente, relativo à expulsão de uma mulher de dentro do interior de um ônibus durante a pandemia. O vídeo está correndo as redes sociais e foi exatamente por meio de uma dessas redes que recebi o vídeo que retratava o ato de horror. Alguns comentários minimizavam a violência infringida à mulher alegando que ela teria se comportado de maneira violenta ao se recusar a utilizar a máscara, que atualmente figura como item obrigatório na cidade onde o episódio aconteceu. Os que virtualmente apoiavam o ato de retirada da mulher, alegavam que o vídeo diria respeito a um trecho cujo contexto teria sido deslocado, demonstravam que a análise integral da cena justificaria o estado de ânimos e o desenrolar dos fatos. 

 

Mesmo sem julgar válido o argumento, busquei o vídeo mais longo e a sequência de atos que precederam a retirada da mulher ocorreu da seguinte forma. A mulher preta, de cabelo curto, vestida com uma bermuda, camiseta e boné encontrava-se sentada enquanto era interpelada por um homem que se localizava em pé, em frente a ela. Não é possível identificar o que ele diz, todavia é possível ouvir claramente a resposta da mulher cuja fala era embargada aos moldes de quem se encontra levemente embriagado. Ela diz:

– É corona vírus. Eu tô passando mal, você vai me matar, é? Eu tô morrendo irmão.

Essas palavras foram responsáveis por acionar todo o imaginário de medo, caos e foram sucedidas da prova final de que a mulher configurava um risco. Ela tossiu em direção ao chão. A máscara, que deveria estar no rosto, estava localizada nas mãos. Ela tossiu e o homem a atingiu com um chute nos ombros. É significativa a figura do chute, afinal, não se toca com as mãos aquilo que pode nos contagiar. Temos sido lembrados constantemente dos cuidados com as mãos, portanto, se há de bater, que se bata com os pés.

 

Ela se levantou e confrontou o agressor, aproximando-se dele enquanto falava:

– Qual é, meu irmão? Eu tô tossindo, vou fazer o que?

 

Nesse momento, as vozes se juntaram em coro determinando que a mulher descesse do ônibus. Evidenciavam-se as vozes femininas, que não se aproximaram da mulher e que reivindicaram a expulsão dela providenciada pelos homens à pontapés. 

 

Ela foi expulsa a chutes. Os agressores integraram as lições de higiene pessoal e sanitarismo às de valentia. A mulher portadora da chaga não deveria ser tocada com as mãos, todo modo, a sua teimosia em resistir impôs a necessidade de tocá-la quase que com o corpo todo. Em razão da sua resistência, coube aos agressores se revirarem com ela e persistirem revirados por ela assombrados pelo risco do contágio. Talvez tenha sido esse o trunfo da mulher na batalha. Deixaram sobre ela marcas roxas e inchaços que saltaram ao corpo durante o ato de agressão. Por sua vez, ela deixou sobre eles o rastro do terror invisível. A ela caberá remédios, compressas e traumas. Eles, talvez, tenham sucedido uma sequência infinita de banhos que se mostraram inúteis, pois o invisível não se desfaz com sabão. Ele percorre as entranhas das células, se instala e come a gente de dentro para fora. 

 

Alguns sites veicularam o relato da mãe da mulher expulsa do ônibus. Não é possível certificar a veracidade das informações, mas alegam que a mulher que ocupou a cena da violência teria 27 anos, seria usuária de crack e estaria internada após o episódio, sem que fosse conhecido o seu estado de saúde. Segundo uma das reportagens, a mãe da mulher teria tomado conhecimento dos fatos por meio de um amigo que lhe mostrou as imagens. A mulher estaria internada sem poder receber a visita da mãe que é cardiopata e hipertensa, configurando, portanto, grupo de risco do covid-19. 

 

A fala da mãe é marcada por um realismo visceral. Entre outras coisas, ela questiona:

“Perguntei a mim e a Deus, ali dentro daquele ônibus, será que só tinha bicho? Porque o que fizeram com minha filha, ali estava sendo um bocado de bicho. Que entrou um bicho e os outros bicho foram pra matar”.

“Parece que tinha um bocado de pitbull e aí entrou um cachorro vira-lata. Minha filha é gente, não é cachorro. E se fosse cachorro não podia ser tratada assim”.

 

Sim, aquela era uma cena entre bichos e a mãe capturou o espírito da coisa. Tratava-se de uma mulher preta, pobre e com traquejos que não se ajustavam aos padrões estéticos e comportamentais de feminilidade. Sim, ela era uma vira-lata. Ela era uma vira-lata como todos os outros que ocupavam o ônibus e que, possivelmente, era composto por pessoas que não puderam se dar ao luxo de se recolher em suas casas durante a pandemia e que, muito provavelmente, dirigiam-se ou retornavam dos seus postos de trabalho. Sim, eram todos vira-latas e, talvez, tenham se esquecido que essa é a condição de toda a classe operária. Gente de pedigree não precisa percorrer estações de ônibus, muito menos nessa conjuntura. 

 

Episódios como esse demonstram que não nos tornamos iguais na pandemia e que os contextos de crise cumprem o papel de evidenciar as diferenças de classe, ao invés de apagá-las. Nossa humanidade é, sim, diferente. Existem vidas mais matáveis e morríveis do que outras. 

 

Esse episódio também delata que o medo mais afasta do que aproxima. Diante do medo, erguemos muros, dirigimos pontapés, embaralhamos a linha entre razão e desrazão, relativizamos a nossa própria humanidade e, também, a do outro que se apresenta diante de nós. Quando o medo não congela, ele desracionaliza. Todo projeto de civilização se prostra inválido diante do medo. Tomados por ele, assumimos a forma humana primordial de homem-bicho, a qual foi capturada pelo poeta ao retratar que

 

“O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem”.

(Poema “O Bicho” de Manuel Bandeira)

 

 

Priscila Aurora Landim de Castro é doutoranda em Sociologia pela Universidade de Brasília e pesquisadora Associada ao Núcleo de Estudos Sobre Violência e Segurança – NEVIS/UNB.

 


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Notas:

[1] Texto extraído da matéria “Mulher expulsa a chutes de ônibus por estar sem máscara está internada” veiculada pelo site “O Correio 24 Horas”, disponível no link: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/mulher-expulsa-a-chutes-de-onibus-por-estar-sem-mascara-esta-internada/. Acessado em: 7 de maio de 2020.

[2] Texto extraído da matéria “Mulher expulsa a chutes de ônibus por estar sem máscara está internada” veiculada pelo site “O Correio 24 Horas”, disponível no link: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/mulher-expulsa-a-chutes-de-onibus-por-estar-sem-mascara-esta-internada/. Acessado em: 7 de maio de 2020. 

O conteúdo foi reproduzido por outras muitos sites, a exemplo de “O Globo”. Matéria: “Minha filha não é bicho, é gente’, diz mãe de jovem agredida e expulsa de ônibus em Salvador após tirar máscara”. Link:

https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2020/05/07/minha-filha-nao-e-bicho-e-gente-diz-mae-de-jovem-agredida-e-expulsa-de-onibus-em-salvador-apos-tirar-mascara.ghtml. Acessado em: 8 de maio de 2020. 

 

Sexta-feira, 8 de maio de 2020
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