Sim, Regina Duarte, nós carregamos alguns cemitérios nas costas
Sexta-feira, 8 de maio de 2020

Sim, Regina Duarte, nós carregamos alguns cemitérios nas costas

Arte: Justificando

 

 

Por Isabella Piovesan Ramos

 

“Os que lavam as mãos, o fazem numa bacia de sangue” Bertolt Brecht

 

 

O Brasil é marcado e foi edificado sob muito sangue: sangue indígena, sangue negro, sangue dos inconformados, sangue dos que buscaram interromper a roda da opressão, sangue dos perseguidos políticos e dos perseguidos pelo Estado. A violência, infelizmente, é parte indissociável de nosso DNA e o horizonte de superação parece cada vez mais se distanciar. 

 

Em tempos como os que vivemos, em que o Presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores tentam distorcer fatos e reviver períodos obscuros da história brasileira, parece urgente reviver a memória coletiva das tragédias, ou ainda, dos cemitérios que nos acompanharam e que definiram os rumos da nossa história enquanto nação. 

 

É preciso que as pessoas se lembrem e conheçam a brutalidade trazida pelo processo de colonização, em que a violência era um imperativo, pois foi neste período que vivenciamos duas de nossas maiores tragédias: o extermínio e escravização da população indígena e negra. Em um país em que até 1888 o regime econômico se pautava no direito de um ser humano ser proprietário de outro, e deste dispor como mercadoria, esperava-se mais consciência em relação à perversidade da escravidão e seus efeitos que até hoje produz. 

 

Ao contrário do que muitos pregam hoje, a ignorância não é uma virtude e o conhecimento científico deve ser valorizado, pois ele é condição para emancipação. É necessário conhecer nossas origens, ainda que trágicas, para traçarmos um futuro melhor. No entanto, continuamos a falhar. Ano após ano, não faltam notícias sobre o aumento de assassinatos dos povos indígenas, bem como dos assassinatos e encarceramento em massa do povo negro, que sofre nas mãos do nefário sistema de justiça criminal brasileiro.

 

Da mesma forma, isso acontece com a memória de um dos períodos mais obscuros da história do Brasil: a ditadura militar, na qual 434 pessoas foram mortas por resistirem às opressões perpetradas pelos militares no poder. Hoje, infelizmente, não é incomum ver manifestações pedindo intervenção militar, o fechamento do Congresso Nacional, e a favor da instituição de um novo AI-5. A última manifestação do dia 19/04/2020, em Brasília, contou com a participação do Presidente da República, que discursou ressaltando que acreditava nas reinvindicações feitas pelos manifestantes.

 

O seu apoio à intervenção militar não surpreende. Desde o início de sua carreira política, Jair Bolsonaro nunca escondeu suas motivações, interesses e seu desprezo pela democracia. Não faltaram ocasiões em que o Presidente tentou manipular fatos incontestes, como a morte do jornalista Vladmir Herzog, alegando que ele teria praticado suicídio, e não teria sido torturado e assassinado pelos militares.

 

Como não poderia ser diferente, Regina Duarte, Secretária da Cultura do atual governo, rezou na cartilha bolsonarista em sua última entrevista à CNN, e minimizou as torturas e mortes ocorridas no período da ditadura militar, dizendo que: a humanidade não para de morrer. Se você falar vida, do lado tem morte.” .

 

A fala da Secretária é sintoma de uma doença bem maior que assola o Brasil há alguns bons anos: a desvalorização sistemática do conhecimento científico, a inexistência da memória coletiva sobre nossas tragédias e ausência de construção social pautada no respeito aos direitos humanos. Trata-se, em verdade, de um projeto político hegemônico fascista baseado no desrespeito total aos direitos fundamentais, que não tem qualquer compromisso com a justiça social. 

 

Precisamos urgentemente superar também a ideia baseada na responsabilidade individual daqueles que “não estudaram história” e, portanto, defendem violações aos direitos humanos, pois o problema não é tanto o estudo, mas sim a forma de educação. Afinal, o ensino deveria proporcionar o pensamento crítico sobre os acontecimentos históricos, contudo, como já diria Paulo Freire “seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”. 

 

O panorama atual com a pandemia de “Coronavírus” também é, infelizmente, um bom exemplo de como o governo não tem qualquer compromisso com o bem-estar de sua população e não se importa em carregar mais um cemitério nas costas. 

 

O Brasil já conta com mais de 9.000 mortos em decorrência da pandemia e o Presidente não perde a oportunidade de desrespeitar todas as recomendações feitas pelas autoridades técnicas no assunto e minimizar estas mortes, ao utilizar expressões como “gripezinha” e “histeria”. O desrespeito aos direitos fundamentais também se evidencia quando o ex-ministro da Justiça Sergio Moro analisava a possibilidade de colocar detentos idosos ou acometidos com coronavírus em contêineres de metal

 

Em que pese este breve artigo não fazer jus a todos nossos mortos, é bom que se anote: sim, Regina Duarte, nós carregamos alguns cemitérios nas costas. E eles são fundamentais pelo peso histórico que carregam, por não nos deixar esquecer da nossa história e de todos que morreram para que hoje pudéssemos estar aqui. Eles servem para que se aprenda com o que passou e para incentivar a constante luta por justiça social. É dever do governo impedir que caminhemos em direção ao precipício, mas atualmente este governo cada vez mais nos empurra para beirada. 

 

 

Isabella Piovesan Ramos é bacharel em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

 


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