Dias Sem Fim: Discriminação Estrutural e Intergeracional
Segunda-feira, 11 de maio de 2020

Dias Sem Fim: Discriminação Estrutural e Intergeracional

Imagem: Reprodução – Edição: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Michael Leonel

 

O filme Dias Sem Fim produzido pela Netflix teve sua estreia no mês de maio de 2020, se mostrou um filme muito profundo e sombrio, este drama racial protagonizado por um jovem negro que relata sua curta vida na periferia de Oakland, California. Em sua trajetória o protagonista Jakor (Ashton Sanders) se encontra em diversos momentos com diferentes formas de violência, a violência doméstica contra sua mãe, violência física entre os alunos da escola e violência nas ruas da periferia em que reside. 

 

 

O protagonista quando relata sua vida se encontra condenado por prisão perpétua pelo assassinato de duas pessoas, entre elas Malcolm (Stephen Barrignton), ele que era líder da gangue rival de Jakor pelo domínio do tráfico na periferia que residia. [1]

 

O filme escancara o racismo estrutural tão presente em sociedades com altos de graus de desigualdade social, estas que em muitos casos passaram por um sistema escravocrata ou que sofreram domínio colonial de outras países e seus resquícios ainda são sentidos no século XXI, como bem expressa o jurista Silvio Almeida, os “os países centrais, as marcas da escravidão poderiam ser vistas na discriminação econômica e política a que são submetidas as minorias raciais, como é o caso da população negra e latina nos Estados Unidos e dos imigrantes não brancos na Europa.” [2]

 

Conforme narrado no filme, as pessoas sentem grande dificuldade para se articular até mesmo na metrópole do mundo capitalista o Estados Unidos, como exemplo Jakor em determinado momento descobre que será pai, então decide procurar um emprego e encontra como vendedor em uma loja de roupas esportivas mas como ocorre com muitos negros ele sofre preconceito somente pelo sua aparência, uma mulher ao se adentrar na loja se questiona sobre o vendedor e ele se identifica, só que a mulher em gesto claro de preconceito se retira da loja.

 

A existência do racismo estrutural se apresenta de muitas formas no filme, já que esta forma é a mais difícil de ser detectada pelos cidadãos comuns e pelos sistemas jurídicos em que acaba por desconsiderar esta forma de racismo, dando credibilidade somente para a forma de racismo direta, por ser aparente e público. Para esclarecer a presença do racismo em sua forma estrutural, destaco as palavras do professor Adilson José Moreira.  

 

Podemos dizer que discriminação contra minorias tem um caráter estrutural quando identificamos a presença de alguns processos que não expressam atos individuais, mas sim forças sociais alimentadas por relações assimétricas de poder. Por esse motivo, podemos dizer que uma forma de discriminação tem um caráter estrutural por que faz parte da operação regular das instituições sociais, causando desvantagens em diferentes níveis e em diferentes setores da vida dos indivíduos[3]

 

A forma da discriminação estrutural atua no filme diretamente da dificuldade dos jovens negros em sair da periferia, o protagonista Jakor tem um amigo que desde infância seu sonho era sair da periferia, ele consegue, mas acaba voltando depois de se ferir atuando no exército. Uma premissa repetida em algumas cenas do filme expressa que a periferia é igual ao presídio, todavia na periferia os muros são invisíveis, isto mostra como atua o racismo estrutural no corpo dos negros. 

 

Leia também:

O não dito do racismo brasileiroO não dito do racismo brasileiro

A outra forma de discriminação que se pretende analisar conforme apresenta no título do artigo é a discriminação intergeracional. No filme o que se nota de presença desta é quando se analisa a vida do pai de Jakor, este personagem que pode ser considerada como antagonista, já que a violência que o pai expressa sobre a mãe e no próprio Jakor. Como os outros personagens deste drama racial, o pai apresenta grandes nuances e contradições pois em algumas cenas demonstra atenção sobre o filho, mas nunca teve uma paternidade plena, este problema ainda figura de grande forma sobre a masculinidade negra que sofre a negação de uma masculinidade completa por opressão dos padrões machistas brancos, em decorrência disto sua violência se manifesta nesta insatisfação. 

 

Ao se analisar a discriminação intergeracional percebe-se presente no filme na imagem de Jakor e seu pai se encontrarem presos no mesmo presídio condenados a prisão perpétua, esta forma de discriminação demonstra que as diferentes formas de racismo não se manifestam somente no presente porem afetam outras gerações. Segundo Adilson José Moreira, 

 

O que chamamos de discriminação intergeracional indica que efeitos de exclusão social podem se reproduzir ao longo do tempo, fazendo com que diferentes gerações de um mesmo grupo sejam afetadas por práticas discriminatórias. (…) Como a discriminação tem por objetivo manter as vantagens materiais de grupos minoritários, os membros da próxima geração também sofrerão as consequências dos mesmos processos discriminatórios.[4]

 

A relação entre Jakor e seu pai, antes da prisão dos dois, era pautada por muita violência, já que seu pai acreditava que o filho deveria resolver todos os problemas com agressão, em consequência destas ações Jakor se desenvolveu como um sujeito que agia de forma muito fria e violenta no momento de resolver questões que aparecia em sua vida. 

 

A discriminação estrutural e intergeracional forjaram a vida de Jakor pois ele tinha dificuldades em se desenvolver socialmente e acabou se envolvendo com o crime de forma intergeracional igual seu pai e de forma estrutural parecida com muitos jovens negros da periferia de Oakland e de muitos lugares no Brasil.

 

Por fim, o filme apresenta diversas questões e nuances e se torna mais um drama racial de grande necessidade para entender as formas de discriminação e a formação da masculinidade negra, neste artigo destaquei a forma estrutural e intergeracional de discriminação no entanto esta obra apresenta muitas camadas que precisam  ser reveladas, então convido a todos a assistirem e destacar muitas outras questões que o filme levanta.

 

 

Michael Leonel é graduando em direito na Pontifícia Universidade Católica do Paraná Campus Londrina. Foto em Anexo. Espero que seja aceito e estou na aguardo sobre feedback e alterações. Desde já agradeço a possibilidade publicação.


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Notas:

[1] Informações disponíveis em: https://cinepop.com.br/critica-dias-sem-fim-drama-racial-da-netflix-recheado-de-armas-violencia-drogas-e-hip-hop-249659/

[2] ALMEIDA, Silvio de Luiz. Racismo Estrutural, São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019. Pg. 183.

[3] MOREIRA, Adilson José. O que é discriminação?. Belo Horizonte (MG): Letramento: Casa do Direito: Justificando, 2017. Pg. 137

[4] MOREIRA, Adilson José. O que é discriminação?. Belo Horizonte (MG): Letramento: Casa do Direito: Justificando, 2017. Pg. 138.

Segunda-feira, 11 de maio de 2020
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend