Aconteça o que acontecer, não abriremos mão de…
Terça-feira, 12 de maio de 2020

Aconteça o que acontecer, não abriremos mão de…

Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil

 

Por Vítor Queiroz de Medeiros

 

A esperança é um desafio. E em meio ao caos que vivemos, particularmente no Brasil, ter esperança se tornou uma necessidade. Aliás, quem é pobre sempre teve. Talvez a baixa calibragem ética de nossas respostas políticas às crises atuais, seja algo que tem reduzido nossa eficácia e nos tornado reféns das manchetes, do imobilismo pessimista, do taticismo e dos joguetes do Planalto. Precisamos de um ponto de vista fora das circunstâncias – in abstractus – que nos aclare convicções éticas e na triagem dos afetos para trocarmos as velhas respostas por promessas humildes e dignas.

 

 

A cada crise global aparecem figuras de elevada sapiência para decretar o fim do capitalismo. “O mundo não será como antes”. Uma constatação ou uma prece? É preciso lembrar que o capitalismo vive de crises há séculos e costuma se atualizar nelas. Ainda que eleve suas contradições a novos níveis, demonstrou desde sempre grande capacidade de adaptação para se reproduzir e desmentir o diagnóstico de morte. Em outras palavras: A crise do Covid-19 por si só não cumprirá tarefas que nós precisamos efetuar no plano da política. O mundo pode sim voltar a ser como era antes ou até pior! Que essa crise valha como oportunidade, depende das respostas coletivas que estamos dando e, sobretudo, de nossa capacidade de aprender.

 

A supressão parcial da experiência pública e a reprivatização das relações é uma oportunidade de aprendizado. O valor da convivência e do abraço, da solidão, do ócio e do trabalho, da liberdade e da solidariedade não são deduzidos diretamente da experiência de reclusão. Logo voltaremos às ruas e o que seremos? O que seremos após haver cumprido quarentenas lotadas de entretenimento com lives e o pessimismo das más notícias compartilhadas aos montes nas redes sociais? Teremos alcançado a introspecção necessária para ganhar em discernimento e lucidez. Prova disso é o drama pequeno-burguês protagonizado por quem lamenta à exaustão o ter que ficar em casa. Ora, a crise é uma oportunidade pare refletirmos sobre nossos futuros.

 

No Brasil a situação da pandemia acomodada à arquitetura de um capitalismo periférico-dependente está sendo agravada pela crise política e pelo desatino da extrema-direita, blindada ainda pela covardia e pelo oportunismo do centrão. Do lado de cá, os líderes da oposição se limitam a xingar o presidente nas redes sociais, outros ensaiam suas ideias mirabolantes nas colunas de jornais, e assim se segue o falatório.

 

Mas a medida que as crises avançam, no Brasil e no mundo, vão se aclarando as apostas que o povo “do lado de cá” têm feito. Os camaradas do século XIX se animam com a força da China e sua maravilhosa Revolução ou celebram o desempenho de Maduro na Venezuela. Radicais do pouco. E perigosos, não hesitam sacrificar qualquer um de nós em nome de seus elevados ideais. Ainda outros comemoram a possível reedição do Welfare State, afinal parece haver um novo consenso de que o Estado deve assegurar saúde como direito universal, proteger os mais vulneráveis e intervir no mercado. Keynes a rogar pela economia de mercado. São gerentes de sintomas. Bom, ao menos agora podemos voltar a ser social-democratas em paz, não é mesmo? Esses são até mais respeitáveis pelo senso de realidade e pela sinceridade histórica, mas o futuro que rascunham é a reedição de algo frágil e passageiro que durou vinte anos no século passado. Os radicais do pouco, iludidos com o poder e os moderados reféns da realidade são iguais: não tratam o passado como fonte de inspirações e conselhos a que recorrer, antes o tratam como bula de remédio e buscam ali receitas prontas para o presente sob a desculpa de que “dessa vez vai dar certo”. E eles também lidam mal com o futuro: o veem como uma folha em branco. É fácil descambar para um moralismo heroico ou para um realismo tecnocrático. Como convém ao inferno, todos mui bem intencionados.

 

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Mas a História é um espaço comum precário. Esse é o X da questão, nosso ponto de partida para além das manchetes. A História é um espaço comum precário porque enquanto vivemos, não sabemos o que estamos vivendo. Só sabemos depois. O sentido do presente se revela a posteriori, sempre. Vivemos às cegas. O que não quer dizer, contudo, que não haja sentido na história. Ele existe, ainda que seja desconhecido e vá se dando a conhecer aos poucos. Os operários ludistas tentaram acabar com o capitalismo quebrando máquinas, não sabiam que a tragédia que enfrentavam era feita de relações sociais que estavam se estabelecendo e que se tornariam hegemônicas. Os protestantes ascéticos, de que nos falou Weber, não sabiam que seu comportamento econômico religiosamente motivado obedecia e reforçava a um processo milenar de racionalização. Assim como os jacobinos não sabiam onde ia dar a República que criaram. Tampouco os estudantes franceses em Maio de 1968 sabiam que seus desejos mais íntimos eram frutos maduros do individualismo moderno, a quem ninguém pôde resistir completamente e a quem estabeleceram definitivamente sob a força de palavras de ordem gritadas em semi-consciência. Rosa Parks não sabia que sua resistência dentro de um ônibus em Montgomery desencadearia uma série de protestos que culminaram na conquista dos direitos civis pelos negros nos EUA. Nem sabia que sua ação só era concebível historicamente em razão de tendências maiores que sua vida individual. Seu ato foi central, mas se não fosse ela, Rosa Parks, a se recusar a ceder o lugar a um branco no ônibus, outro negro o faria.

 

Nossas vidas fazem e servem à História a um só tempo. Nossas ações são em si frutos de processos em curso, aos quais servimos de veículo, e nossas ações também são gatilhos que desatam processos já latentes, os desviam mais para lá ou para cá, graças a força dos episódios aleatórios; a História também é feita deles. Em suma, vivemos às cegas. Uma história bíblica ilustra bem isso; narra o momento em que os cristãos cresciam e repercutiam no mundo de sua época, apesar da forte perseguição que sofriam. Os judeus, perseguidores, se lhes opunham com torturas e assassinatos. Um dia levantou-se Gamaliel, um rabino muito sábio e piedoso. Ele interviu como um oráculo ao dizer aos seus irmãos judeus: “Deixem estes homens (os cristãos), porque se essa obra vem de homens, perecerá; mas se é de Deus, não podereis destruí-los, para que não sejais, porventura, achados, lutando contra Deus”. Já dizia o nobre Riobaldo: “o que tem de ser, tem muita força”. O destino se impõe como um rio caudaloso. Alguém pode mudar curso do Rio Amazonas? É um fato, nossa intervenção no mundo é precária para mudar o sentido dos processos históricos e o primeiro motivo é este: a inconsciência histórica, apenas mitigada pela capacidade de intuição e percepção dos sinais dos tempos.

 

Um segundo motivo que precariza nossa capacidade de intervenção no mundo/História é o próprio poder de nossas ações. Não apenas sofremos a História sem saber o que ocorre, nós também agimos sobre ela sem saber o que nossas ações provocarão e o que fazer de seus efeitos. A filósofa Hannah Arendt nos ensinou sobre como nossas ações ultrapassam nossos poderes e intenções e se prolongam para além de nós mesmos, de modo incerto. Desse processo resultam duas realidades: fazemos coisas que produzem efeitos inesperados e equivocados, erramos e produzimos estragos no mundo. Uma vez ocorridos, ocorridos estão. Sua reparação será sempre uma nova aposta, um remendo; mas em diferentes graus, os atos não podem ser desfeitos e são irreversíveis. Para lidar com a irreversibilidade, porém, diz Arendt, temos o recurso do perdão. Perdoamos o irreversível. A outra realidade que resulta das ações de homens limitados, é a própria imprevisibilidade. Toda ação é uma aposta que se choca com outras apostas e com a densidade do mundo e depende de muitas variáveis incontroláveis para que se concretize perfeitamente. Para lidar com o imprevisível, diz a pensadora, temos o recurso da promessa. Prometer como apontar para onde se quer chegar, é o nosso jeito de rascunhar horizontes que acreditamos necessários e possíveis.

 

Não sabemos o rumo e não podemos o leme da história nas mãos com total confiança. Mas podemos intuir o sentido dos processos históricos – estão aí as ciências humanas para nos ajudar –, podemos reparar os erros reparáveis, perdoar os irreversíveis e podemos prometer. Não a promessa ingênua, heroica e arrogante de quem acha que o futuro é um papel em branco, como dissemos, mas a promessa que parte das impotências. A promessa/compromisso. Podemos nos comprometer com valores independentemente dos rumos do mundo. Algo como “aconteça o que acontecer, não abriremos mão de…”. O que a hora nos pergunta é: O que é inegociável para nós? É preciso pactuar claramente quanto a isso, é preciso dizer que não abriremos mão da democracia, dizer que não abandonaremos os idosos e os mais vulneráveis, que  não abriremos mão do Acordo do Clima, não permitiremos mais que se troquem recursos públicos por políticas burras de austeridade. Devemos prometer a nós mesmos e uns aos outros que nos guiaremos por certos valores e nos deixaremos conduzir por certos afetos, que elegeremos prioridades e urgências e alcançaremos consensos os mais amplos possíveis em torno da vida comum. Toda vida é comum em algum nível porque ninguém vive sozinho. Períodos de crise como guerras, pestes e outros flagelos, são ótimas ocasiões que nos lembram do quanto a civilização é um esforço e uma reposta às fragilidades individuais. Hobbes acertou. E para esconjurar o estado de natureza, essa terrível hipótese da guerra de todos contra todos, precisamos desnudar, conhecer e afirmar nossa interdependência. Estamos juntos nessa nave-Terra. Oikoumene. Casa comum. 

 

Que o mundo mude ao menos um pouco, portanto, dependerá de nossa firmeza em reescrever tanto quanto possível e assinar comprometidamente um contrato social mais justo. E isso depende da força com que nós, reles mortais, faremos valer nossas promessas no mundo.

 

 

Vítor Queiroz de Medeiros é cientista social e mestrando em sociologia na Universidade de São Paulo (USP). 

 


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