O que bota medo no Exército Brasileiro?
Quarta-feira, 13 de maio de 2020

O que bota medo no Exército Brasileiro?

Arte: Justificando

 

Por Martel Alexandre Del Colle

 

Não, a parte que se aliou ao governo Bolsonaro no exército brasileiro não tem medo de uma invasão da Venezuela, nem da França. O alto escalão do oficialato brasileiro bolsonarista não teme o poder de fogo dos países vizinhos, nem a existência de infiltrados e espiões no país. O corpo bolsonarista do exército pouco se importa com os pontos sensíveis do país. Talvez se preocupem com o ponto mais sensível no momento, que é justamente o ego do presidente.

 

Mas tem algo que bota muito medo na extrema direita do exército brasileiro. Algo que faz com que eles tremam. Antes de contar o que é, eu preciso contar um pouco da história das forças armadas no país.

 

A primeira expedição para ocupação do território do que viria a se chamar Brasil foi uma expedição militar. Portugal tinha receio de que outras nações tentassem ocupar o local, portanto, ela precisava de força militar para impedir que isso acontecesse. Outro fator é que a terra não estava desocupada, havia moradores por aqui. Portugal teve de trazer uma força militar para ocupar a terra dos indígenas. As terras da nova colônia portuguesa eram muito extensas. Portugal não dispunha na época de efetivo e equipamentos o suficiente para colonizar as terras, patrulhar os mares – a fim de evitar ataques de outras nações e cuidar da proteção de sua própria nação. Por isso a decisão de dividir o território em capitanias hereditárias. Cada chefe de capitania teria poderes quase absolutos sobre o território que lhe fosse disponibilizado. Como contrapartida havia algumas exigências: cito o comércio exclusivo com a metrópole e proteção do território com exército próprio como exemplos.

 

Portugal então cuidava dos mares e dispunha de um efetivo para dirimir os problemas maiores que fossem grandes demais para as capitanias administrarem sozinhas. O povo que aqui se formou teve de se proteger desde cedo. A paixão pela terra foi fator fundamental para que alguns se arriscassem sem nada a ganhar. Nada além de proteger um projeto de nação, um sonho. Além dos exércitos regulares, a ajuda da população constituía fator muito importante para a defesa brasileira. Tudo isso mudou bastante quando a família real portuguesa veio para o Brasil. O receio de que esses pequenos exércitos pudessem fazer frente ao poder do monarca criaram uma série de normas no país. Os exércitos particulares foram paulatinamente enfraquecidos e um exército formal começou a se fortalecer.

 

Várias disputas por território ocorreram, mas a grande mudança veio com a guerra do Paraguai. Até esse momento, as patentes mais altas do exército era dadas aos nobres, aos oligarcas. Entretanto, quando a guerra emergiu o país precisava de efetivo. Efetivo que poderia morrer. A visão da elite local era a de que precisava-se encontrar pessoas descartáveis para a missão. As finanças das forças armadas não estavam boas e não seriam capazes de atrair pessoas para a linha de frente. Foi nesse momento histórico que as forças armadas começaram a recrutar pobres, negros, escravos. A ação destes guerreiros mudou a concepção do jovem oficialato envolvido na guerra. Aqueles que viam a dedicação do povo brasileiro na missão começaram a mudar. A visão de que o povo brasileiro era fraco, corrupto, preguiçoso, burro não se sustentava na frente de batalha. A visão de que o homem branco era superior também não. Logo surgiram oficiais negros, das camadas pobres, ex-escravos. O oficialato gourmet, aquele que ganhava postos nos jantares e nas amizades com a elite, foi substituído pelo oficialato chão de fábrica, linha de frente, guerreiro. O exército se tornou uma das maiores forças revolucionárias do país. Eram contra a escravidão, lutavam por direitos fundamentais, eram nacionalistas, acreditavam no desenvolvimento de uma nação poderosa e com pessoas felizes. Essa guinada das forças armadas assustou as elites e os poderes que desejavam um povo pobre e sob controle.

 

O Brasil decidiu então criar uma força militar paralela ao exército: a guarda nacional. A guarda nacional era tudo aquilo que o exército era antes de batalhar. Só filhos da elite podiam entrar. Para enfraquecer ainda mais o exército, o governo brasileiro começou a reduzir ainda mais as verbas do exército. Não havia fardamento o suficiente, não havia soldo para pagar à tropa, não havia equipamento adequado. As deserções eram enormes. As fardas estavam em farrapos, as missões eram cumpridas com o sacrifício da vida de soldados e oficiais. Tudo para enfraquecer o exército.

 

Como forma de humilhar ainda mais o exército, este recebeu uma incumbência que eles consideravam vexatória: o exército passou a exercer a função de perseguição dos escravos que fugiam. Uma forma de fazer com que o exército, agora negro, agora pobre, agora brasileiro, tivesse de ir contra os seus. Contra o seu próprio povo.

 

Não foi o suficiente para acabar com o poder de mudança do exército junto ao povo. O exército então participou da promulgação da república brasileira, lutou contra a escravidão, envolveu-se na política, criou projetos para um país soberano e de economia forte. 

 

As elites brasileiras estavam muito assustadas. Não foi possível acabar com o exército. Foi a parte revolucionária do exército que incentivou campanhas como a do petróleo nacional, das indústrias, da soberania. As elites tiveram de encontrar oficiais dispostos a vender a própria pátria, corruptos, para tentar reverter o quadro.

 

As elites locais juntamente com poucos oficiais de extrema direita começaram uma campanha de domínio das forças armadas. Com a ajuda dos poderes centrais, começaram as iniciativas golpistas que culminaram com o golpe de 1964. Além dos poderes centrais, um outro agente começa a influenciar a política brasileira: Os Estados Unidos da América. Considerando a américa inteira como colônia, os EUA começaram a enviar agentes, a ameaçar os regimes, a colaborar com golpes. John. F. Kennedy muda a postura do país para uma ação mais agressiva nos países americanos. Começam os treinamentos das forças militares da américa para a tortura, para o golpe, para a supremacia das extremas direitas, para a queda das democracias. Documentos e investimentos começam a chegar ao Brasil. Documentos que definiam a ideologia da extrema direita militar: Esses documentos diziam que cabia aos Estados Unidos a proteção da américa, que cabia aos EUA o controle da américa e que as forças armadas dos países deviam lutar contra o inimigo interno. Os EUA cuidariam da proteção e os exércitos cuidariam de controlar o próprio povo. O inimigo do exército deveria ser o seu próprio povo.

 

Enquanto a esquerda, o centro e os nacionalistas procuravam desenvolver o país e a democracia, a direita agia através de golpes, da corrupção. Prendendo e afastando oficiais progressistas, enquanto atentavam contra a soberania e os poderes nacionais, a extrema direita começou a ganhar espaço. Os golpistas eram anistiados pelos poderes centrais como forma de desmoralizar o exército. A briga foi intensa, mas a postura dos liberais e progressistas do exército e dos poderes constituídos permitiu que a extrema direita ganhasse poder dentro do exército. Poder o suficiente para emplacar, depois de várias tentativas, um golpe. Um golpe que foi amparado pelos Estados Unidos. Goulart foi informado de que um navio americano estava na costa brasileira para o caso de resistência ao golpe. Goulart decidiu não lutar, mesmo com o Rio Grande do Sul pronto para resistir, porque não queria uma guerra civil, temia o domínio estrangeiro do país.

 

Durante o golpe muita coisa aconteceu. Mais de 7000 militares foram expulsos ou mortos. Os oficiais progressistas, os que resistiam aos golpes, foram mortos, afastados, aposentados, expulsos. A extrema direita tomou conta do exército, das escolas militares, de tudo. Foi aí que o exército se tornou um centro de formação da ideologia da extrema direita, do fetiche fascista. E é claro que o apoio americano ao golpe não foi gratuito. A entrega do país e de seus recursos foi intensa. O clube militar, um dos centros das discussões progressistas, tornou-se o propagador das ideias de extrema direita.

 

Toda essa história ensinou a extrema direita militar algumas lições para manter as forças armadas sob controle, e, mantendo-as sob controle, controlar o povo. As lições são: Mentira e afastamento.

 

Para manter as forças armadas sob controle é preciso mentir. É por isso que os militares não aprendem sobre o que eu falei aqui. Os militares não sabem da história do seu próprio país, não sabem da história do seu próprio povo, não sabem da história da sua própria força. Não sabem das influências internacionais. São mantidos no ódio através da mentira.

 

E chegamos onde eu queria. Chegamos ao maior medo da extrema direita nas forças armadas. O medo de que as forças armadas se aproximem do seu povo. O medo existe porque eles sabem que a mentira se desmonta quando o soldado se aproxima da sua gente. É por isso que o exército não foi acionado para ajudar nas ruas durante a pandemia. É por isso que o exército só é ativado para conter o povo, para tratar o povo como ignorante, como inimigo, como aconteceu nas intervenções na segurança pública. E é por isso que algumas polícias do país estão endurecendo seus métodos de abordagem durante essa crise, em vez de auxiliar na prevenção da Covid-19. A ideia é manter as forças armadas e o povo afastados. Afastados para que não percebam a mentira, para que não se unam, para que não façam desse país um lugar diferente. Em Curitiba, cidade onde eu moro, diversas denuncias chegaram informando que o comandante do policiamento da Cidade fez diversas reuniões a portas fechadas com os policiais, passando por cima das determinações do Governador, para passar instruções à tropa. Uma forma de mostrar que ele não liga para a saúde dos policiais e de sua população. Tornou-se policial para quê, então? Além disso, esse mesmo oficial colocou os policiais em quatro em diversas viaturas que antes patrulhavam em dois policiais. Mais uma forma de mostrar que ele manda e acredita que a doença não existe. E para garantir que o policial não se sensibilize com a realidade, ele pediu para que os policiais realizem diversas abordagens padrão. Assim o policial fica ocupado procurando em todo o lugar criminosos e não tem tempo para olhar a miséria do seu povo.

 

Esse é o método, esse é o medo. É por isso que você vê generais como Vilas-boas, Mourão, Heleno. Porque não é a inteligência, não é o amor à pátria, o amor ao povo que promove essas pessoas a generais. É o ódio, a mesquinhez.

 

E é por isso que o povo morre e essas forças não conseguem fazer quase nada para ajudar o seu povo nesse momento. Não conseguem, pois a extrema direita só quer poder, não importa quantas vidas brasileiras sejam perdidas no processo. 

 

Cabe a você, policial. Cabe a você, soldado. Cabe a você, oficial. Cabe a vocês mudar essa realidade. Abandonar a nossa população nesse momento é um crime que manchará as corporações por muito tempo. Portanto, faça a sua parte. Você entrou na força por isso, você treinou para isto. Agora que seu povo precisa, não o abandone. Ordem manifestamente ilegal não se cumpre.

 

 

Martel Alexandre Del Colle tem 28 anos, foi policial militar por 10 anos.

 


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Quarta-feira, 13 de maio de 2020
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