Mulheres governam melhor que homens?
Quinta-feira, 14 de maio de 2020

Mulheres governam melhor que homens?

Imagem: Governo da Nova Zelândia Arte: Justificando

 

Por Giulia Yumi Zaneti Simokomaki

 

Uma breve reflexão de questões de gênero ante os bons resultados do enfrentamento à pandemia por países governados por mulheres.

 

 

Neste período em que o mundo se ocupa em enfrentar um inimigo global, o vírus COVID-19, alguns países já despontam como casos de sucesso e passaram a ter destaque na mídia.[1]

 

Um dado em especial tem chamado atenção. Há um considerável número de países liderados por mulheres tidos como modelos gerenciais da presente crise, tais como Taiwan, Alemanha, Nova Zelândia, Dinamarca, Islândia, Finlândia e Noruega[2]. Há países liderados por homens também: Vietnã, República Checa, Grécia e Austrália.[3]

 

Em pesquisa apresentada pelas Nações Unidas em 2019, de 193 países do globo, há apenas 11 chefes de Estado e 12 chefes de governo[4] do gênero feminino. Inclusive as pesquisas apontaram um decréscimo na representação política das mulheres no ano de 2019.[5]

 

Muitos apontarão, e com razão, que estes países liderados por mulheres possuem fatores econômicos, culturais e sociais que facilitam a gestão. Ao mesmo tempo, a desproporção astronômica na distribuição de gênero entre as lideranças políticas mundiais apontam, prima facie, haver uma taxa de sucesso também astronomicamente maior relacionada à liderança de mulheres. Afinal, há também tantos outros países com fatores econômicos, culturais e sociais mais estáveis e, infelizmente, não têm sido destacados como modelos no enfrentamento à pandemia. Portanto, estes fatores (econômicos, culturais e sociais), por si só, não determinam o sucesso no enfrentamento.

 

Mulheres são melhores que homens na gestão da crise?[6] Esta pode ser a primeira pergunta quando nos deparamos com essas informações. E é tentador afirmar que sim. Isto seria, contudo, um silogismo baseado em premissas absolutamente reducionistas que apenas reforçariam a fixação de estereótipos de gênero. 

 

É verdade que há inúmeros estudos que tentam averiguar como características atribuídas ao feminino influenciam (positiva ou negativamente) no volume de participação política das mulheres. Levam em consideração as expectativas da sociedade local, bem como a subjetividade da mulher política, ou seja, como esta mulher se vê. Há dados interessantes que indicam maior sucesso em eleições em esferas menores (municípios); que grande parte da proveniência dessas mulheres são de movimentos sociais, ou seja, previamente engajadas; e que a principal motivação para a vida política é retribuir à comunidade[7]. Mas eles não tratam de hierarquizar a participação como melhor conforme o gênero e sim de entender o comportamento da sociedade e a relação travada com mulheres na política.

 

Portanto, uma relação direta de gênero e administração pública não parece ser o melhor caminho para avaliar o saldo da crise sanitária (lembrando que ainda é muito cedo para essas avaliações) e nem para estimular o combate à desigualdade de gênero. Devemos, outrossim, questionar por que tamanha diferença de gênero na participação política. 

 

Na sociedade global, na qual em maior ou menor grau há o domínio do patriarcado, para conseguir uma posição de liderança, seja no campo público ou privado, as mulheres normalmente têm que ser mais preparadas, melhores e impecáveis, pois, ante à mínima falha o arquétipo do sexo frágil é levantado[8]. A população negra, e, sobretudo, mulheres negras, sabem muito bem o que é isso, vez que o domínio global não é só do patriarcado, mas do patriarcado branco.[9]

 

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Isto posto, não é absurdo imaginar que a assertividade destas mulheres no combate ao coronavírus pode ser maior. Nisto se inclui, por exemplo, a invejável capacidade de comunicação delas com seu povo. Nesses governos tem havido estratégia, objetividade, transparência e empatia nos discursos, o que faz com que os governados entendam os comandos e o resultado se aproxime do planejado.

 

Após fechar escolas, Erna Solberg, primeira-ministra da Noruega, surpreendeu o mundo ao convocar uma coletiva de imprensa destinada para as crianças, respondendo suas dúvidas sobre o coronavírus e assegurando que não há problema em “sentir medo” durante o surto.[10]

 

Jacinda Ardern, num discurso de apenas 8 minutos, comunicou a população da Nova Zelândia do enorme desafio que estavam prestes a enfrentar utilizando a escala de alerta de incêndio do país, com a qual toda a população está familiarizada, chamando atenção para o trabalho em conjunto da população.

 

Ângela Merkel, por sua vez, fez um discurso[11]  que viralizou nas redes sociais afirmando que “desde a Segunda Guerra Mundial não houve um desafio para o nosso país que dependesse tanto da nossa ação conjunta e solidária”. Como o contexto da II GM é familiar aos europeus, em especial aos alemães, a chanceler, só nesta frase – pegando como exemplo -, conseguiu dimensionar a gravidade do problema ao povo alemão, ao mesmo tempo em que indicou o caminho do trabalho em conjunto para solução.

 

Jacinda e Ângela, enquanto figuras políticas, não possuem o perfil similar. Jacinda é tecnológica, “descolada”, empática, do campo dito progressista, proveniente de um partido de centro esquerda (Partido Trabalhista), e possui bom trânsito com relação às minorias. Ângela é sisuda, pouco carismática, disciplinada, científica, do campo dito conservador e proveniente de um partido de direita (União Democrata Cristã). Ambas, no entanto, têm obtido sucesso no enfrentamento da pandemia adotando determinadas estratégias, agindo de forma firme e transparente: exercendo a política. 

 

Não parece ser o gênero feminino a arma secreta contra o coronavírus, mas uma coisa é certa. O sucesso delas e de outras mulheres serve para mostrar uma verdade que metade do mundo[12] custa a acreditar: mulheres podem governar e ser competentes na política tanto quanto homens podem.

 

Se podem e são competentes por que números tão baixos na participação política? Luciano Bivar, presidente do Partido Social Liberal, em entrevista da Folha sobre uma candidata laranja, sugere que as mulheres têm outras preferências e que entrar para política “não é muito da mulher”.[13]

 

Este tipo de pensamento senso comum reforça a delimitação de espaço por gênero e representa a crença limitante que constrói o arquétipo do sexo frágil, doméstico, submisso, dócil e maternal que atravessa séculos de história da humanidade. Falar em “preferência” significa entender que homens e mulheres têm o mesmo ponto de partida para fazer suas escolhas. Não têm.

 

Há aqui uma questão que grande parte da população tem dificuldade para compreender, que é a diferença entre igualdade formal e igualdade material. A confusão entre os dois conceitos geralmente produz máximas do tipo “se mulheres e homens são iguais, deveriam se aposentar com a mesma idade”, “para que cota de gênero na política se homens e mulheres são iguais?”. É o mesmo raciocínio deficitário de grande parte dos avessos às cotas raciais.

 

Ensina-se na faculdade de Direito que o princípio da igualdade formal aparece com as revoluções liberais e que “os homens nascem e são livres e iguais em direitos.” (art. 1º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, 1789). Mas o que não se ensina é que o art. 1º se referia, à época, aos homens no sentido do gênero masculino. 

 

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Pois é, a igualdade formal nasceu com pênis e testículos. Olympe de Gouges, dramaturga francesa, questionou os revolucionários Robespierre e Marat pedindo para que essa igualdade, digamos, também usasse saias. Não aceitaram. Gouges então fez a “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã”[14] em 1793, pelo qual “A Mulher nasce livre e permanece igual ao homem em direitos” (art. 1º). Ficaram com medo que a igualdade formal perdesse suas bolas e cortaram a cabeça de Gouges, que, antes de ser executada disse: “se a mulher tem o direito de subir ao cadafalso, ela deve ter igualmente o direito de subir à tribuna”.

 

Já a igualdade material vem impulsionada pelo socialismo e o desenho político do Estado Social de Direito. Aqui começa a preocupação por medidas que preconizam a erradicação da pobreza e de outros fatores de inferiorização que impedem a plena realização das potencialidades do indivíduo.

 

Nancy Fraser em artigo sobre dilemas da justiça pós-socialista[15] propõe duas perspectivas genéricas da injustiça: a econômica (por exemplo, na divisão desigual de trabalho) e a cultural/simbólica (padrões sociais de representação, interpretação e comunicação). Para cada uma dessas injustiças há um tipo de remédio que Fraser define como: redistribuição (o que remete a Jonh Rawls) e reconhecimento (o que remete a Axel Honneth).

 

Gênero seria atravessado pelas injustiças econômica e cultural. A característica central do problema de gênero reside no androcentrismo: há uma construção autorizada de normas que privilegiam os traços associados à masculinidade. Por normas se compreende no sentido amplo, podendo abarcar, por exemplo, normas sociais no sentido comportamental como associar posição de liderança à masculinidade.

 

Junto do androcentrismo há também o sexismo cultural: desqualificação generalizada das coisas socialmente identificadas como femininas. Aqui abarcam desde a desvalorização do trabalho das mulheres (incorrendo em desigualdade de salários) até a desvalorização da figura de uma mulher que enfatiza características da feminilidade na política: “Paulinha (PDT) a primeira dePUTAda que mostrou a que veio, Esperamos que vc mostre a sua capacidade sem precisar tirar a roupa para conquistar o seu lugar” . Esta é a transcrição literal de um comentário em meio a uma enxurrada de ofensas na rede social da deputada estadual Paulinha, criticando a roupa que vestia durante sua posse na Assembleia Legislativa de Santa Catarina em 2019.[16]

 

O comentário acima transcrito está recheado das crenças limitantes com relação às mulheres na política. Sugere incapacidade/incompetência política da deputada, e que, para compensar, usou uma roupa decotada; sugere o uso do corpo para conseguir lugar na política, já que não possuiria atributo intelectual para tal; sugere ter havido uma troca de lugar, vez que a designação de “puta”, para além da ofensa, representa também uma função, e, neste sentido talvez seu lugar seja em um prostíbulo e não uma assembleia legislativa (delimitação de lugar aparecendo de novo)… Leituras infinitas. Fato é que ao negar elementos de vaidade que enfatizariam a feminilidade e beleza estética da deputada (roupa, maquiagem, cabelos), ele afirma que a política deve ser dominada pela masculinidade.

 

A desqualificação e a sujeição às normas androcêntricas fazem com que as mulheres pareçam inferiores ou desviantes (Gouges e a “dePUTAda” que o digam) e por isso o ponto de partida sempre será a desvantagem: círculo vicioso de subordinação cultural e econômica. 

 

Por isso Fraser nomeia gênero (e também raça) como uma coletividade bivalente, atravessada por dois tipos de injustiça, necessitando, portanto, dos dois tipos de remédio. A redistribuição consiste na reestruturação político-econômica, podendo envolver redistribuição de renda e reorganização da divisão do trabalho. O reconhecimento deve envolver revalorização das coletividades desrespeitadas, e a “transformação abrangente dos padrões sociais de representação, interpretação e comunicação, de modo a transformar o sentido do eu de todas as pessoas”. Isto é, desconstruir noções de hierarquia, capacitância e limitabilidade atreladas a gênero que são introjetadas nas individualidades e reproduzidas a nível social.

 

Por isto não se deve cair na tentação de dizer que mulheres governam melhor que homens, reproduzindo uma lógica de hierarquia de gênero de sinal trocado. Devemos, outrossim, reafirmar a capacidade das mulheres de governar e trabalhar para que as injustiças de gênero sejam diminuídas de modo a aumentar sua participação política e em outros tantos setores da sociedade.

 

Ângela Merkel, no evento de 100 anos do sufrágio feminino em Berlim, enfatizou que não obstante haja conquistas na Alemanha no quesito igualdade de gênero, há muito o que se fazer e que sua liderança não é álibi de paridade de gênero. Sob intensos aplausos, ao menos reconhece que cumpriu uma missão: “Ninguém mais ri se uma garota diz que quer se tornar chanceler.”[17]

 

 

Giulia Yumi Zaneti Simokomaki é mestra em Filosofia do Direito pela PUC-SP, graduada em Direito pela mesma instituição, professora universitária e advogada.


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Notas:

[1] https://brasil.elpais.com/icon/2020-05-05/e-se-as-mulheres-estiverem-administrando-esta-crise-muito-melhor-que-os-homens.html?utm_source=Facebook&ssm=FB_BR_CM&fbclid=IwAR1ZF1AV2m7msXQmBIhfz-Maa30SBUJLDlvYzpqH26BDxIk0q0gf0cH4Xis#Echobox=1588723117 <acesso em 08/05/2020>

[2] https://www.forbes.com/sites/avivahwittenbergcox/2020/04/13/what-do-countries-with-the-best-coronavirus-reponses-have-in-common-women-leaders/#6efb50913dec <acesso em 08/05/2020>

[3] https://www.theguardian.com/world/2020/apr/25/why-do-female-leaders-seem-to-be-more-successful-at-managing-the-coronavirus-crisis < acesso em 08/05/2020>

[4] https://www.unwomen.org/en/what-we-do/leadership-and-political-participation/facts-and-figures#notes <acesso em 08/05/2020>

[5] https://apnews.com/61cae53214ac4c36a19546b273465039 < acesso em 08/05/2020>

[6] Estudos apontaram que bancos com grande representação feminina na liderança tiveram menos prejuízos decorrentes da crise de 2008: https://www.forbes.com/sites/tomaspremuzic/2020/04/10/are-female-leaders-better-at-managing-the-covid19-pandemic/#5dc6fe6628d4 <acesso em 08/05/2020> 

[7] ROMBOUGH, Shirley; KEITHLY, Diane. Women in Politics: An Analysis of Personal Characteristics Leading to Success in Gaining Local Elective Office. Race, Gender & Class. Vol. 17, No. 3/4, Race, Gender & Class 2010 Conference (2010), pp. 173-188 (16 pages); Abrahams, N. Negotiating power, identity, Family ad comunity: Women’s community participation. Gender and Society, v.10, n.6 (Dec. 1996), pp. 768-796. Luana Pinheiro explana o perfil das deputadas pós constituinte e traz informações bastante interessantes no livro Vozes femininas na política : uma análise sobre mulheres parlamentares no pós-Constituinte, publicado em 2007 em Brasília pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres

[8] https://www.theguardian.com/commentisfree/2020/apr/11/secret-weapon-fight-against-coronavirus-women e <acesso em 08/05/2020> ; aqui um pouco da formação das líderes em destaque no combate à pandemia: https://www.theguardian.com/world/2020/apr/25/why-do-female-leaders-seem-to-be-more-successful-at-managing-the-coronavirus-crisis

[9] Sobre o cruzamento de opressões: AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.

[10] https://g1.globo.com/olha-que-legal/noticia/2020/03/17/primeira-ministra-da-noruega-diz-a-criancas-que-esta-tudo-bem-sentir-medo-da-pandemia-de-coronavirus.ghtml <acesso em 09/05/2020>

[11] https://www.dw.com/pt-br/alemanha-enfrenta-maior-desafio-desde-segunda-guerra-diz-merkel/a-52830391 <acesso em 08/05/2020> ; https://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/297071/do-ponto-de-vista-verbal-discurso-de-angela-merkel.htm <acesso em 08/05/2020>.

[12] Pesquisa efetuada pelas Nações Unidas demonstra que 90% da população mundial tem algum preconceito com relação às mulheres e 50% da população mundial considera que homens são melhores líderes políticos que mulheres: https://www.dw.com/pt-br/onu-90-da-popula%C3%A7%C3%A3o-mundial-tem-preconceito-contra-mulher/a-52652634 <acesso em 09/05/2020>

[13] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/02/politica-nao-e-muito-da-mulher-diz-presidente-nacional-do-psl.shtml <acesso em 09/05/2020> ; sobre candidaturas laranja: https://oglobo.globo.com/brasil/entenda-as-suspeitas-de-candidaturas-laranjas-do-psl-investigadas-em-acao-da-policia-federal-1-23767312

[14] Disponível em: http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/declaracao-dos-direitos-da-mulher-e-da-cidada-1791.html

[15] Fraser, Nancy. (2006). Da redistribuição ao reconhecimento? Dilemas da justiça numa era “pós-socialista”. Cadernos De Campo (São Paulo 1991), 15(14-15), 231-239, disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9133.v15i14-15p231-239 

[16] https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2019/02/04/deputada-sofre-onda-de-ataques-nas-redes-sociais-por-uso-de-decote-ao-tomar-posse-em-sc.ghtml <acesso em 09/05/2020>.

[17] https://www.dw.com/pt-br/merkel-h%C3%A1-muito-a-se-fazer-pela-igualdade-de-g%C3%AAneros/a-46263457 <aceso em 09/05/2020>

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