O fundamentalismo cristão frente à pandemia de COVID-19
Terça-feira, 19 de maio de 2020

O fundamentalismo cristão frente à pandemia de COVID-19

Imagem: Alan Santos / PR e Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Afonso Rangel Luz e Pedro Henrique Garcia Ayrolla Molina Simon

 

A crise criada pelo novo coronavírus tem trazido pânico, sofrimento e, sobretudo, provocado inúmeras dúvidas sobre os comportamentos que devemos adotar durante esse período, tendo em vista a quantidade de informações com as quais somos bombardeados nos telejornais e, principalmente, nas redes sociais.

 

Em tempos de guerras de narrativas, a verdade tem se tornado cada vez mais líquida, isto é, aquilo que é massivamente compartilhado, ainda que falso, se torna uma verdade. Por isso, no meio de tantas informações, corremos o risco de ser intoxicados por notícias falsas. Nesse passo, em um país religioso como o Brasil, se faz necessário levantar um debate sobre a responsabilidade que as denominações religiosas e suas lideranças desempenham em uma sociedade que passa por uma crise sanitária e econômica sem precedentes na história.

 

Este artigo propõe reflexão especificamente sobre o papel que os cristãos estão desempenhando nesta crise. Isso porque, o último censo realizado em 2010, demonstrou que o Brasil continua sendo um país majoritariamente cristão, sendo que 86,8% da população se declara cristã (64,2% se declara católica e 22,6% evangélicos). Em números, mais de cento e oitenta milhões de brasileiros se declaram cristãos.

 

Sendo assim, há que se perguntar: como as lideranças religiosas estão orientando seus fiéis e como suas posturas perante essa crise os influenciam?

 

Nos últimos anos temos acompanhado um aumento do ultra tradicionalismo no meio cristão e o surgimento de um pensamento fundamentalista que, infelizmente, tem provocado um movimento de cisma entre a razão e o pensamento religioso.

 

Recentemente, circulou um vídeo pela internet do pastor Valdemiro Santiago, líder da Igreja Mundial do Poder de Deus. Nesse vídeo, o pastor apresentou uma oferta de sementes de feijões pelo valor de R$ 1.000,00 (mil reais), alegando que as “sementes abençoadas” seriam uma forma de cura para a COVID-19. Imediatamente, o Ministério Público Federal apresentou uma notícia crime contra o pastor perante ao Ministério Público do Estado de São Paulo, requerendo que o órgão investigasse o religioso por suposta pratica do crime de estelionato[1]. Qualquer análise teológica rasa pode apontar que situações como essas são frutos de uma leitura distorcida da Bíblia e, infelizmente, representam indícios de mercantilização da fé. 

 

Também no início deste mês, a Coalização pelo Evangelho, entidade religiosa que reúne líderes evangélicos de diversas denominações, como por exemplo a Primeira Igreja Presbiteriana do Recife e a Convenção Batista Reformada do Brasil, publicaram um manifesta onde criticaram abertamente o “endeusamento da ciência” e apontaram uma suposta queda da credibilidade da mídia. 

 

O pastor Silas Malafaia, em vídeo publicado em seu canal do YouTube, no dia 23.03.2020, publicou um vídeo intitulado “Coronavírus! Querem fechar as igrejas que sou pastor? Recorram à justiça!”[2]. Nesse vídeo, o pastor afirma que não fecharia suas igrejas e que “a igreja nessa hora é uma agência de saúde emocional tão importante quanto os hospitais”.

 

Nas cidades do interior do país, os prefeitos municipais estão sofrendo pressão enorme por parte de lideranças evangélicas para enquadrar as igrejas como atividades essenciais e receber autorização para abertura das igrejas, isto é, ignorando todas as indicações das autoridades sanitárias sobre a necessidade de se evitar aglomerações para que o contágio do vírus seja diminuído. Isso se deve, inclusive, pelo fato de o Presidente da República incentivar o lobby da bancada evangélica e ter editado o Decreto 10.292, de 25 de março de 2020, que insere atividades religiosas de qualquer natureza como atividades essenciais.

 

Contudo, vivemos em um cenário de pandemia de uma doença nova, ou seja, de uma doença que a medicina ainda não descobriu um tratamento eficaz e tampouco possui uma vacina desenvolvida. À vista disso, todas as autoridades de saúde do mundo indicam que a melhor maneira de combater a doença e diminuir o contágio para que os médicos tenham tempo de estudar os casos e pesquisar possíveis tratamentos. Por essa razão, as igrejas foram totalmente afetadas com as determinações a respeito de isolamento social pelos estados e municípios, tendo em vista que a necessidade de evitar aglomerações tornou impossível a reunião dos fiéis em suas igrejas para realização de cultos e demais atividades. 

 

É interessante relembrar um caso internacional sobre o impacto das igrejas não colaborarem com as medidas de distanciamento social. Na Coréia do Sul, o pastor Lee Man-hee, líder da igreja Shincheonji, está sendo investigado pelas autoridades sul-coreanas, pois dados do governo apontam que cerca de 73% dos casos de COVID-19 no país estão relacionados com a igreja do de Lee Man-hee, que realizou cultos com milhares de pessoas mesmo com o início da epidemia no país.

 

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Ainda que exista esse avanço do fundamentalismo religioso que, sem dúvida, prejudica o combate ao novo coronavírus ao disseminar informações falsas ou distorcidas, bem como ao satanizar a ciência, é preciso destacar a postura íntegra e responsável de outros tantos líderes religiosos que compreenderam que suas falas são ouvidas pelos seus fiéis e suas orientações servem como norte neste tempo de crise. 

 

Nessa esteira, é possível destacar o pastor Kenner Terra, coordenador do Fórum Evangelho e Justiça no Espírito Santo e pastor de uma igreja batista. Kenner é defensor das medidas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo Ministério da Saúde. Porém, ele alega que os pastores que tem posição semelhante são uma minoria e aponta que “Só de você estar considerando as recomendações da OMS já é quase como um ‘ato de resistência’”.[3]

 

Por sua vez, a Igreja Católica, por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), tem sido extremamente observadora dos apontamentos feitos pelas autoridades de saúde. A CNBB ainda recomenda aos bispos que mantenham as celebrações suspensas em suas dioceses, ainda que o município autorize a abertura, permitindo apenas a abertura das igrejas para oração individual dos fiéis, mantendo a celebração da missa sem a presença do povo, com transmissão pela televisão e mídias.[4]

 

Um exemplo da firmeza da posição da Igreja Católica em colaborar para a diminuição do contágio da COVID-19 pode ser vista no Amazonas. A Assembleia Legislativa do estado aprovou na última quarta-feira, 6/5, a abertura dos templos religiosos no estado. Contudo, o Arcebispo de Manaus, Dom Leonardo Steiner, já anunciou que as igrejas católicas permanecerão fechadas em todo o estado.[5]

 

Outro exemplo é do Arcebispo de Sorocaba, São Paulo, Dom Julio Endi Akamine. Em comunicado aos fiéis da cidade de Votorantim, que compõe a arquidiocese de Sorocaba, o Arcebispo determinou que mesmo com a autorização do município para que as igrejas reabrissem as igrejas católicas permaneceriam fechadas. Um estudo elaborado pela Sociedade Brasileira de Cientistas Católicos (SBCC) demonstrou que a suspensão das atividades religiosas na Igreja Católica poderá reduzir em 9,7% as hospitalizações e 2,6 % as mortes no por COVID-19 no Brasil.[6]

 

A Constituição Federal, em seu artigo 5º, inciso VI, dispõe que a liberdade de crença e de pensamento são invioláveis e que é assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias[7].Entretanto, essa mesma Constituição prevê no caput do artigo 5º que é garantido a todos os brasileiros a inviolabilidade do direito à vida e, por sua vez, o artigo 6º prevê, que a saúde é um direito social. 

 

Sendo assim, se no cenário de uma crise de saúde pública, a reunião de pessoas em igrejas se torna nociva à saúde da coletividade, é notório que a suspensão das atividades nos templos religiosos seja suspensa enquanto as autoridades sanitárias não indicarem que o retorno das atividades não oferecerá risco à vida das pessoas.

 

É extremamente necessário que as lideranças religiosas reconheçam sua responsabilidade nessa crise ao direcionarem seus fiéis para caminhos de segurança e de respeito à ciência, demonstrando que a fé e a ciência não são antagônicas. Promover a desinformação, o fundamentalismo e o desprezo à ciência é uma atitude, no mínimo, irresponsável, à medida que neste cenário de pandemia, ações como esta colocam em risco toda a coletividade.

 

As leituras mirabolantes e deturpadas da Sagrada Escritura são preocupantes. As promessas de curas por meio de sementes mágicas, toalhas abençoadas, entre outros, são uma ameaça à toda sociedade no cenário em que vivemos. O fundamentalismo cristão é anticientífico e vive em paradoxo, pois negam a ciência mesmo sendo ela, na teologia cristã, um dos dons do Espírito Santo e, principalmente, violam o bem mais precioso para um cristão: a vida.

 

Por essa razão, é possível concluir que cooperação entre a fé e a ciência é essencial no combate à propagação do novo coronavírus em um país como o Brasil, isto é, em um país em que a religião é tão presente e, principalmente, influente na vida dos cidadãos.

 

 

Afonso Rangel Luz é graduado em História pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Pesquisador de História recente da Igreja católica, com recorte para a Teologia da Libertação. Professor da Educação Básica na Escola Municipal Professora Maria Bernadete Pinheiro, em Dom Macedo Costa – BA

 

Pedro Henrique Garcia Ayrolla Molina Simon é Advogado graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Sócio do escritório de advocacia Rueda & Rueda Advogados. Assistente da Professora Me. Gabriela Zancaner Bandeira de Mello na disciplina de Fundamentos de Direito Público na PUC-SP. 

 


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Notas:

[1] MPF pede retirada do ar de vídeos de pastor prometendo cura falsa da covid – Veja mais em https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/05/11/mpf-pede-retirada-do-ar-de-videos-de-pastor-prometendo-cura-falsa-da-covid.htm?cmpid=copiaecola Acesso em 12/05/2020.

[2] “Coronavírus! Querem fechar as igrejas que sou pastor? Recorram à justiça!”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=c78SAqUgDTI&list=PL7BSOIjlQ7SrdgCMsVCQ_8D1isSaGDztk&index=63. Acesso em 13.05.2020.

[3] Como a crise do coronavírus expõe racha entre evangélicos no Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52313890 Acesso em 12/05/2020. 

[4] CNBB reforça recomendação ao episcopado brasileiro de manter o distanciamento social. Disponível em: https://www.cnbb.org.br/cnbb-reforca-recomendacao-ao-episcopado-brasileiro-de-manter-o-distanciamento-social/ Acesso em 12/05/2020. 

[5] Arcebispo de Manaus reafirma que as igrejas continuarão fechadas. Disponível em: https://www.todahora.com/articulos/arcebispo-de-manaus-dom-leonardo-steiner-reafirma-que-as-igrejas-continuar%C3%A3o-fechadas. Acesso em 13.05.2020.

[6] Estudo demonstra que a suspensão das atividades religiosas reduzirão em 9,7% as hospitalizações e 2,6 % as mortes no país, por COVID-19. Disponível em: https://culturaeducacaocnbb.com/estudo-demonstra-que-a-suspensao-das-atividades-religiosas-reduzirao-em-97-os-infectados-e-26-as-mortes-no-pais-por-covid-19/?fbclid=IwAR2cYYoSOx3ABpvMG5Rg2AYN1phQ5lxVaP5eL-ijTI8uLZOT_28YG4OSjQM. Acesso em: 13.05.2020.

[7] BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. – Brasília : Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas, 2018. p. 5.

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