No Princípio era o Homem
Quarta-feira, 20 de maio de 2020

No Princípio era o Homem

Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Vanessa Ribeiro do Prado

 

…e o Homem estava com Deus, e Homem era Deus

 

 

Recentemente traduzido para o português, “A criação do patriarcado: história da opressão das mulheres pelos homens”² é uma extensa e rica pesquisa de Gerda Lerner, historiadora, escritora e professora emérita da Universidade de Wisconsin, Madison (EUA), considerada uma das autoras mais relevantes no mundo todo por suas contribuições ao desenvolvimento do currículo de História da Mulher. Traduzido por Luiza Sellera e prefaciado por Lola Aronovich, a obra apresenta e analisa fatos históricos que contribuíram para a consolidação do sistema patriarcal no mundo todo. Longe de ser um fenômeno natural, a dominação masculina encontra explicação na história, contando com o apoio de teorias biológicas, sociobiológicas, filosóficas, psicanalíticas, econômicas e funcionalistas vigentes ao longo dos anos.

 

Com farta análise material, investigando principalmente os primeiros códigos legais e documentos sagrados, ao longo das 400 páginas a autora percorre um espaço de tempo de cerca de 2.500 anos, dos povos primitivos à criação dos Estados arcaicos. A formação da sociedade no modelo patriarcal, segundo Lerner, já estava consolidada por volta de 600 a. C., tendo ocorrido em ritmos e formas diferentes nos diversos lugares.

 

Assim como Simone de Beauvoir faz um passeio filosófico pelas teorias do conhecimento que propuseram algum tipo de explicação para a desigualdade entre os sexos ao longo dos anos³, Lerner faz um passeio histórico por elas, partindo de metodologias diferentes, mas encontrando-se com a filósofa existencialista em diversas de suas conclusões, como a afirmação de que a apropriação da função sexual e reprodutora feminina por homens antecede a sociedade de classes econômicas e a propriedade privada. “A transformação dessa capacidade em mercadoria, na verdade, está no alicerce da propriedade privada” (LERNER, 2019, p. 33). Extrai-se das análises de ambas as autoras, portanto, que o patriarcado é pressuposto necessário ao estabelecimento do sistema capitalista; mas o sistema capitalista não é imprescindível ao patriarcado, que sobrevive sob outros regimes.

 

Lerner traz diversos dados e informações até então inéditos entre os livros teóricos sobre feminismo e história das mulheres de maior circulação no Brasil. Logo no início da obra, a autora sustenta a tese de que as mulheres foram os primeiros “escravos” da história: em decorrência de conflitos primitivos, os prisioneiros de guerra possuíam destinos diferentes de acordo com seu sexo. Homens eram executados, em razão da dificuldade maior em contê-los. Mulheres e crianças eram mantidas em cativeiro, tornando-se servas do conquistador. As prisioneiras, inclusive, além de servas, transformavam-se em concubinas, obrigadas a realizar serviços sexuais.

 

As práticas primitivas de aprisionar mulheres “conquistadas” em conflitos, utilizar o estupro como arma de guerra, e transformar em servas também determinadas mulheres do próprio clã, serviram como modelos estruturais bem sucedidos de dominação para que homens subjugassem outros seres humanos posteriormente, culminando na institucionalização da escravidão de homens e mulheres, em decorrência de guerras, de classe e de raça, tal como a estudamos hoje.

 

Os homens aprenderam a instituir dominância e hierarquia sobre outras pessoas praticando antes a dominância sobre as mulheres do próprio grupo. Isso se manifestou na institucionalização da escravidão, que começou com a escravização de mulheres dos grupos conquistados. (LERNER, 2019, p. 33).

 

Com o início da ideia de propriedade privada, a necessidade de manutenção dos legados masculinos fez com que se adotasse como padrão a família monogâmica, com maior controle da sexualidade feminina, exigência da virgindade pré-nupcial e todos os demais julgamentos morais presentes na instituição do casamento.  A monogamia garantiria a legitimidade da prole e, assim, o direito de propriedade aos herdeiros do patriarca. Aqui, Lerner dialoga também com Levi-Strauss e sua teoria funcionalista, por meio do tabu do incesto e da troca de mulheres como primeira forma de comércio, deslocando as análises do campo econômico para aspectos mais simbólicos e significantes da sociedade:

 

A relação global de troca que constitui o casamento não se estabelece entre um homem e uma mulher como se cada um devesse e cada um recebesse alguma coisa. Estabelece-se entre dois grupos de homens, e a mulher ai figura como um dos objetos da troca, e não como um dos membros do grupo entre os quais a troca se realiza. Isto é verdade, mesmo quando são levados em consideração os sentimentos da moça, como aliás habitualmente acontece. Aquiescendo à união proposta, a moça precipita ou permite a operação de troca, mas não pode modificar a natureza desta (LERNER, 2019, p. 77 apud STRAUSS, 1969, p. 115).

 

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Além disso, Lerner discorre sobre as práticas, costumes e discursos vigentes nas diversas sociedades do Antigo Oriente Próximo, dedicando mais atenção à mesopotâmica e hebraica. Assim, como não se poderia deixar de analisar, a autora traz à baila o tema das religiões politeístas e monoteístas e a institucionalização desta última, causando o sepultamento das deusas comumente cultuadas. O rebaixamento de divindades femininas para o lugar de meras intercessoras entre os humanos e O Deus causou grande impacto na vida individual e coletiva das sociedades estudadas, abrindo caminho, inclusive, à construção cristã do ódio ao feminino, visto como aquilo que descontrola o homem e, por isso, representante do mal na terra.

 

Lerda nos oferece várias chaves de compreensão para o estabelecimento e permanência do patriarcado nas sociedades atuais, demonstrando que essa colonização, longe de se dar ao acaso, contou com o auxílio de fatos e artifícios biológicos, econômicos, psicológicos e simbólicos, cada qual fazendo sentido em sua época e dominando, consciente ou inconscientemente, as narrativas populares.

 

A questão é que homens e mulheres sofreram exclusão e discriminação por razões de classe. Mas nenhum homem foi excluído do registro histórico por causa de seu sexo, embora todas as mulheres tenham sido. (LERNER, 2019, p. 29)

 

Mulheres foram, por muito tempo, propositalmente, impedidas de registrarem sua história. Mas ela existe, e, apesar de todos os pesares, retrocessos e dificuldade atuais, é inegável que estamos avançando cada vez mais no resgate de vozes femininas historicamente silenciadas.

 

A compreensão de Princípio da Dignidade da Pessoa Humana deve abranger o conhecimento, por homens e mulheres, de sua história e origens. Partindo da afirmação de que não somos nada mais do que o acúmulo dialético de condições materiais vigentes ao longo dos anos, a ancestralidade nos diz muito. É preciso garantir às mulheres de todo o mundo o direito de acesso a seu passado coletivo, para que possam conscientizar-se de seu lugar na luta de classes, que não se reduz apenas à classe econômica, mas também, e principalmente, sexual.

 

Assim como lutamos para que nosso histórico como sociedade escravagista seja devidamente incluído nas matrizes escolares e repassado aos alunos e alunas, demonstrando todo o legado das opressões racistas, a história da subjugação das mulheres pelos homens é igualmente necessária na formação acadêmica dos indivíduos em todos os níveis, especialmente nos basilares. Quando não se têm precedentes, a imaginação e criação de alternativas para a superação das mazelas machistas ainda existentes, como a cultura do estupro e a violência doméstica, são extremamente prejudicadas. Portanto, obras como “A origem do Patriarcado”, que dignamente reintroduzem a mulher e seu lugar na história, por ela mesma, e não por aqueles outrora proprietários de narrativas, são de extrema importância.

 

 

Vanessa Ribeiro do Prado é Bacharel em Direito pela Libertas Faculdades Integradas, advogada e pesquisadora nas áreas de Direitos Humanos, Criminologia, Feminismo e Política.


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Notas:

[1] Paráfrase nossa, do original “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (…)., constante do 1º capítulo do Evangelho de João, no Novo Testamento.

[2] LERNER, Gerda. A criação do patriarcado: história da opressão das mulheres pelos homens. Tradução de Luiza Sellera. São Paulo: Cultrix, 2019.

[3] No volume 1 do clássico O Segundo Sexo, de 1949.

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