Rei Ubu, Presidente Ubu
Quarta-feira, 20 de maio de 2020

Rei Ubu, Presidente Ubu

Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Rochester Oliveira Araújo

 

O próprio da arte é estender à sociedade um espelho crítico, conforme afirma Michel Ragon, escritor e crítico de arte. O reflexo nesse espelho, quando visto e clareado pela crítica, além de assustar, pode permitir a compreensão dos nossos momentos e nos mostrar as saídas. O entendimento do Bolsonarismo nos exige ir para além dos nossos conhecimentos e discursos, análises e leituras. Precisamos da arte para decifrar o que nem a arte foi capaz de criar de tão absurda realidade.

 

 

Por vezes, só consigo imaginar que a Presidência da República é ocupada por uma personagem, de tão grotesca é a forma como se comporta. Será a ficção invadindo a realidade, se existirem tais planos como distintos? A meu ver, dentre as artes que mais rompem com essa dualidade entre o real e o imaginário, o teatro seja por excelência o palco da reflexão.

 

Qual personagem poderia representar uma governança do absurdo, grotesco, cínico, brutal e caricatural? Uma personagem ubuesca. Baseada na peça Ubu Rei, de Alfred Jarry, o próprio termo “ubuesco” designa uma reunião dessas características em uma única personagem. Parece-me bem apropriado.

 

Na apresentação de Ubu Rei, o próprio autor da peça fazia questão de apresentar um discurso introdutório que pode nos ajudar. Em um desses discursos, anuncia que “um corpo é mais polido tanto maior a quantidade de asperezas que apresente. Eis por que as senhoras e os senhores têm a liberdade de ver no senhor Ubu as múltiplas alusões que quiserem, ou um simples fantoche, a deformação jocosa de um dos seus professores que representasse todo o grotesco existente no mundo.” Na personagem principal do nosso teatro do absurdo – gênero do qual Alfred Jarry foi precursor – conseguimos ver no chefe do governo diversas alusões que nos assombram, e também há momentos em que o enxergamos como simples fantoche. A peça se passa em Lugar Nenhum, embora seja um local bem definido. Alfred Jarry ainda anuncia que o senhor Ubu é um ser ignóbil e, por isso, ele no mínimo lembra a todos nós. 

 

Como na peça, o grotesco não se resume a uma desumanidade individual, uma personagem repugnante isolada na vida. Isso porque não se pode tratar como ordinário alguém que tem tais características e está no poder. [Spoiler alert] Como na peça, o Ubu é (torna-se) rei.

 

Por isso mesmo que Foucault considera que o ubuesco não é o simples grotesco, o injurioso, é uma categoria própria histórico-política. Reserva o termo ubuesco à junção do grotesco ao poder. O governante ubuesco não é um acidente de percurso na história do poder. É, ao contrário, a manifestação da forma mais patente à incontornabilidade, à inevitabilidade do poder, que pode precisamente funcionar com todo o seu rigor e na ponta extrema da sua racionalidade violenta, mesmo quando está nas mãos de alguém efetivamente desqualificado, segundo Foucault. Na verdade, justamente por estar nas mãos de alguém desqualificado, grotesco, ridículo, o poder passa a ser exercido sem limites. O poder reflete imagem e semelhança do ridículo de onde emana.

 

O governante ubuesco faz o que quer. Se põe acima da lei, cria evidência da falsa limitação da lei, da democracia, da constituição. Ele não deixa de fazer o que quer em razão das consequências possíveis em um estatuto jurídico. E isso é independente de essas consequências ocorrerem ou não ocorrerem, pois, para ele, o principal é exercer o poder e demonstrar que o faz, expor o seu gozo de fazer, de agir, de ser grotesco. No final da peça, apesar de vencido e destronado, Ubu parece estar pronto para novas aventuras. Por isso mesmo ele é parte integrante das estruturas de poder.

 

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As características que definem o ubuesco são funcionais ao exercício do poder pelo governante sobre tal adjetivo. Cada gesto e comportamento seu tem uma relação íntima com o poder: é a partir dele que é exercido e se conforma com as mesmas características. Ninguém pode esperar de um governante ubuesco um poder democrático, não violento, respeitoso ou republicano. Vale percorrer algumas dessas características que funcionam ao poder do ubuesco.

 

A obra teatral de Alfred Jarry marca uma ruptura no teatro. O humor ganha uma forma inédita, baseada na incongruência das ações e na incoerência das falas do protagonista. Pela primeira vez, o riso é usado para ofender e agredir os espectadores, em lugar de buscar sua cumplicidade na crítica a uma personagem aberrante. A personagem é a síntese animada de rapacidade, crueldade, estupidez, glutonaria, covardia e vulgaridade, de acordo com Silvia Fernandes, crítica teatral e professora da USP. Tal como no teatro, o governante ubuesco dos nossos palcos usa o riso para agredir. A similitude com o bufão, o desrespeitoso que pode falar o que quiser e estar imune, faz com que o humor provoque um autodescrédito das barbaridades que manifesta, sem deixar de dizê-las e de ter efeito. Quando o Brasil ultrapassou dez mil mortos pela COVID-19 e a reação do presidente ubuesco foi “e daí, eu sou messias mas não faço milagres”, tão assustador quanto o desprezo que ele revela pelas inúmeras vidas é a reação de um dos seus apoiadores: uma risada igualmente grotesca. Quem acha que o riso sempre é um sinal de alegria, engana-se. Galeano já nos contou que certa vez um homem ficou rico vendendo risadas. De acordo com o que pedissem, ele podia proporcionar risadas de celebração ou risos de dor ou de pânico, risadas apaixonadas, escalofriantes, gargalhadas de espectros e risos de loucos e bêbados e criminosos. As que Bolsonaro provoca são risadas ubuescas.

 

Há, no governante ubuesco, arrogância e individualismo extremo. Para o autor-pai da personagem Ubu, é o protagonista da peça quem deve determinar todo o espetáculo, desde os antagonistas até os cenários, todos submetidos a seu círculo de influência e, se possível, criados a partir de princípios abstratos de construção. Tudo gira em torno do umbigo de Ubu. É a partir da sua visão absurda de mundo que o governante ubuesco toma como verdade os pressupostos de tudo, indiscutivelmente. É uma centralidade tão agigantada que o faz negar a fome do povo – “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem. Aí eu concordo. Agora passar fome, não. Você não vê gente pobre pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países por aí pelo mundo”. Igualmente permite negar outros tantos fatos, afirmando que uma doença em grau de pandemia é só uma “gripezinha”. Estas falas não são do Ubu Rei, mas do Ubu presidente.

 

Ubu escapa às leis da vida humana exatamente por que seus níveis de ação são as necessidades primárias da humanidade, levadas, entretanto, ao grau mais extremo, nos alerta Silvia Fernandes e, portanto, levadas para fora do que é humano enquanto ser sociável. Sociável na compreensão de um ser que convive com algo maior que seu condomínio, seu clã, seus próximos. Sociável enquanto o que é capaz de ser compreensível de uma diversidade.

 

Antes de se tornar rei, Ubu transmite uma falsa humildade aos seus próximos. Afirma que “prefere ser miserável como um rato magro e digno do que ser rico como um gato mau e gordo”, embora tudo que aconteça na peça seja pelo dinheiro e acúmulo de riquezas. Essa falsidade se estende no presidente ubuesco, com café pingado, caneta bic e trajes ridículos que escondem gastos milionários nos cartões corporativos e com a recusa da transparência.

 

Os aliados que o suportam para chegar ao poder – o que o fazem através de um assassinato de um outro rei que, a princípio, é feito para aparentar um simulacro de justiça – precisam lidar com um novo rei que ignora qualquer sentimento de lealdade e age traiçoeiramente. Mesmo que esses aliados, assim que o ajudam a tomar o poder tenham declarado morte aos traidores. O seu principal aliado, Capitão Boudure, grande responsável por lhe permitir chegar ao trono, é, ao mesmo tempo, aquele que lhe trai e por quem é traído. Torna-se um duplo: um peão indispensável para sua chegada ao poder e para a sua derrocada do poder. Ubu, após estar no poder, sentencia: “Faça-me o favor de não falar mais dele, agora que não preciso mais.” Vira as costas para seu primeiro e mais forte aliado, não confiando naquele que trama um golpe que lhe deu o poder. Burrice não há em desconfiar. Capitão Boudure, após ser renegado, age como é de sua natureza: alia-se a novos poderosos para traçar mais um plano de golpe para alçar ao poder. Não sei até que ponto o ex-juiz-ex-ministro-sempre-político Sérgio Moro conhece essa história, mas deve se identificar com ela.

 

 A falta de lealdade aos seus aliados é reincidente. Em outro momento da peça, durante um ataque de um urso, Ubu Rei não corresponde aos pedidos de ajuda: “Você que se vire, meu amigo.” Abriga-se no alto de um rochedo e a única coisa que faz é rezar. É um covarde. Após a batalha, passa a dizer que foi seu pai nosso que os salvou. Uma deslealdade e covardia que custa a vida de diversos aliados.

 

Seja o monarca, seja o presidente, o governante ubuesco tem um fascínio pela violência. Declara “que belo espetáculo” logo após a cena em que anunciam que pessoas se agridem e matam por migalhas de seu ouro. Sempre cria e elabora com delirante prazer novas formas de torturar seus inimigos da vez. Embora o Rei Ubu não tenha saudado nenhum torturador em seus discursos, igualmente fantasia de forma quase sexual com as cenas de tortura que se passam. É violento também nos julgamentos. Em certo momento, decide mandar um nobre para o alçapão declarando como justificativa: “E você? Tem uma cara horrível.” Mas bem que poderia constar no texto original “você tem uma cara de homossexual terrível”.

 

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Ao chegar ao poder, revela-se mais que autoritário. Inicialmente, manda matar todos os nobres para ficar com seus tesouros. Depois, parte para a justiça e as leis: “agora quero fazer as leis”, declarando que “primeiro vou reformar a justiça, e depois chegaremos às finanças.”. Os magistrados se opõem: “somos contrários a qualquer mudança”. Curioso que, para estes, a mudança é entendida como as alterações que lhes afetam, já que até a chegada de Ubu ao reino e morte de nobres, eles não consideravam mudanças reprováveis. São provocados quando o Ubu anuncia que “primeiro os magistrados param de receber.” Revoltam-se. “E vamos viver de quê? Somos pobres”. Uma tentativa de acordo parte de Ubu: “Receberão as multas de suas sentenças, e os bens dos condenados à morte.” Um movimento de não ruptura, uma tentativa de acordo, quando já é tarde demais. Os magistrados discordam e são mortos. Quem vai cuidar da justiça? “Ora, eu!” declara Ubu.

 

O governante ubuesco não respeita instituições por acreditar que tudo lhe pertence. Executa em pessoa seus decretos, despedaça as pessoas porque isso lhe dá prazer e pede aos soldados russos que não atirem em sua direção porque assim ele não gosta. Ignora que cada instituição tem uma função autônoma por um motivo e decide por sua conta controlar as finanças e tudo mais. Se tivesse uma Polícia Federal, certamente cobraria relatórios de inquéritos sigilosos.

 

Lida com os fatos de forma lunática ou propositalmente mentirosa. Há uma dificuldade em determinar essa linha tênue entre a loucura e a falsidade. E é em uma referência à loucura que se defende de um ataque inimigo, quando se abriga em um moinho de vento. As mentiras são seu castelo e forma de convencer seus soldados. Moinhos de vento podem ser tantos, mas a Cloroquina parece a defesa do momento do presidente ubuesco. Já o Rei Ubu, mesmo quando está em uma situação em que desconhece totalmente qualquer comando – na peça, durante sua fuga de navio – continua dando ordens como se soubesse o que faz. Soa cômico e ridículo. Justamente como ouvir as manifestações sobre o combate à COVID-19 do ubuesco eleito.

 

É dessa proximidade entre o fantasioso e o mentiroso que o próprio autor da peça, Jerry, cria a noção de patafísica: um método das soluções imaginárias, aplicando simultaneamente à vida e à dramaturgia, duas faces de uma mesma máscara. Um “modo de desrazão razoável”, um método ausente de razão mas fundamentado em sua própria racionalidade, baseada em qualquer coisa que se possa construir numa sociedade da pós-verdade. Ideia que acabou consumindo precocemente o próprio Jarry, morto aos 34 anos, depois de uma breve mas intensa vivência alucinada. 

 

Na peça, Ubu não demora a se construir de forma ubuesca. Bastam poucas cenas para compreender a personagem que vai se reforçando e confirmando a cada ato como um ser desprezível. E é como Rei que essa construção é feita, pois o poder é indispensável para diferenciar um grotesco comum de uma categoria histórico-política que é o ubuesco. Só com poder alguém constrói-se ubuesco.

 

O problema é tratar o governante ubuesco como uma ficção acidental na história do poder. Foucault afasta essa possibilidade e explica que é a maximização dos efeitos do poder a partir da desqualificação de quem os produz: isso não é um acidente na história do poder, não é uma falha mecânica. É uma das engrenagens que fazem parte da engenharia do poder. Essa mecânica grotesca do poder é antiquíssima nas estruturas, no funcionamento político das nossas sociedades. 

 

No Império Romano a desqualificação quase teatral do ponto de origem, do ponto de contato de todos os efeitos de poder na pessoa do imperador foi precisamente uma maneira, se não exatamente de governar, pelo menos de dominar. O detentor do poder é ao mesmo tempo, em sua pessoa, em sua personagem, em sua realidade física, em seus trajes, em seus gestos, em seu corpo, em sua sexualidade, em sua maneira de ser, um personagem infame, grotesco, ridículo. Mais uma vez, Foucault nos iluminando.

 

Ora, cada característica da personagem Ubu é funcional ao poder. Sua violência e apreço ao autoritarismo assustam e causam medo nos aliados e oponentes. Sua capacidade de distorção da verdade, os jogos com os seus aliados. Tudo, absolutamente tudo que lhe define é funcional ao poder. Não pode ser, portanto, acidental. Tudo naquele detentor do poder precisa ser infame, grotesco, ridículo. Dos seus trajes que fingem uma falsa humildade até a sua sexualidade agressiva. A personificação do poder em uma personagem grotesca é a transmissão de um sinal evidente: o exercício do poder será grotesco. Por isso que nenhuma fala da personagem pode ser desconsiderada. Inclusive, a própria oscilação de humor, mudança de opinião repentina, agressividade na fala, falta de respeito em qualquer situação: todas essas cenas são parte proposital da construção de uma personagem ubuesca e de um poder ubuesco.

 

Em outros momentos, o ubuesco é mais ridículo que violento. O poder se dá essa imagem de provir de alguém que está teatralmente disfarçado, desenhado com um palhaço, como um bufão de feira. Não se levar a sério a personagem para não se levar a sério seus atos, mas estes continuam acontecendo. Eis o nosso grande problema: permanecer com um presidente ubuesco no palco enquanto ficamos sentados na cadeira esperando que a peça se encerre. Que os outros atores retornem para a tomada do poder, com o seu aliado inicial, traído, buscando chegar ao trono novamente. Esperando que a trama tome seu andamento sem nossa interferência e achar que isso tornará a sequência da história favorável a nós. Ser espectador não é uma saída. Aplaudir ou vaiar tampouco basta. O espetáculo continua sempre igual se a plateia está entretida.

 

 

Rochester Oliveira Araújo é Mestre em Direito Constitucional; Defensor Público do estado do Espírito Santo.


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