A COVID-19 também dissemina velhas chagas da humanidade
Segunda-feira, 25 de maio de 2020

A COVID-19 também dissemina velhas chagas da humanidade

Imagem: Estudante Marie Okabayashi  – Reprodução / Facebook – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Beatriz de Almeida 

 

O vírus da Covid-19 é novo, mas a xenofobia, a sinofobia e o racismo não são. aliás, como tudo é mote para a discriminação e externação do racismo “deles” de cada dia, com a atual pandemia não poderia ser diferente. 

 

 

Assim como o vírus é mutável e vem demonstrando resistência aos tratamentos e aplacando vidas pelo mundo inteiro, o racismo se reinventa em sua “sofisticação”, mas sem deixar para trás os velhos mecanismos, ele aparece muitas vezes vestido muitas vezes de ciência e propagando especulações que reforçam estereótipos e mantém os grupos racializados inferiorizados em prol da mantença do poder dos grupos hegemônicos.

 

O aumento de episódios de xenofobia e de sinofobia que começou a se intensificar no começo do ano, quando do início da pandemia, como este que ganhou espaço nas redes sociais:

 

“Sua chinesa porca, fica espalhando doença para todos nós” foram as palavras dirigidas à estudante Marie Okabayashi, em um trem do metrô do Rio de Janeiro, agressão ocorrida em 31 de janeiro.

 

A associação dos chineses à práticas culturais, suposta falta de higiene e disseminação da doença, ganha espaço nos laboratórios, basta observar referências ou pesquisas que se empenhem em afirmar como se deu a transmissão do vírus, primeiramente afirmam que foi uma transmissão zoonótica ocorrida na China, numa segunda análise os “estudos” se debruçam na busca científica de afirmar que o vírus foi contraído pelo hábito cultural dos chineses de comer carne de morcego ou de pangolin.

 

Por si só, se este fosse o real motivo da zoonose, não haveria nenhum problema, haja vista que outras doenças e vírus foram e são disseminados por hábitos culturais dos povos, inclusive boa parte dos patógenos com os quais convivemos até hoje são originários da europa e chegaram ao Brasil com a vinda dos[1] colonos europeus, dentre estas patologias destacam-se a sífilis, gonorréia, tracoma, lepra, escarlatina, rubéola e tuberculose.

 

No caso da sífilis, que dizimou povos ameríndios e africanos, a sua disseminação deve-se também à[2] prática européia ou de eurodescentes que habitavam as terras exploradas, de ter relações sexuais (muitas vezes sem consentimento, ou seja, prática de estupro) com escravizadas virgens”, pois acreditavam que assim o portador da doença seria curado, prática que colaborou para a disseminação do patógeno, a sífilis invadiu as senzalas e provocou grandes estragos entre a população escravizada e durante o século XIX e início do XX foi associada à população negra. Ainda, evidenciando a parcialidade dos estudos, científico no século XVI[3] pesquisadores europeus associaram o vírus como sendo originário das américas, pesquisa refutada posteriormente por pesquisadores (médicos historiadores) americanos.

 

Tais pesquisas científicas têm se sustentado ou têm iniciado de forma tendenciosa sob o argumento de que o vírus foi transmitido para humanos por hábitos culturais dos chineses, que sob uma perspectiva etnocêntrica, são considerados incorretos. Observa-se nas matérias que veiculam tais pesquisas o uso frequente de expressões como “provavelmente”, “pode ter sido”, “supostamente”, “há suspeita de”, demonstrando a especulação de tais afirmações pautadas no racismo, todavia um leitor leigo só extrairá a ideia de que os hábitos culturais dos chineses causaram uma pandemia. Mas, afinal, qual é o problema nisso?

 

O autor[4] Jeff Yang explica que os dísticos relacionando os chineses à cultura de comerem coisas nojentas e alastram doenças, que são sujos, não são novos, tampouco inovadores, mas colaboraram com a dificultação da aculturação, promovendo assim a segregação.

 

Ante o exposto, estamos diante do racismo cultural e científico, que não são hodiernos, a história não nos deixa esquecer as inúmeras vezes que a ciência trabalhou a serviço do racismo, durante o final do século XIX e início do século XX, muitos estudiosos dedicaram suas pesquisas científicas para ratificar a hierarquia das raças e o darwinismo social.

 

O racismo estrutural está pautado na ideia do embranquecimento não só da pele, mas também das expressões, sob o fundamento de que culturas não brancas são primitivas, inadequadas à civilização moderna e ao ideal de sociedade, com isto, criaram-se diversos estereótipos que visam, inferiorizar, vulgarizar, ocultar, silenciar e ridicularizar os povos que adeptos e praticantes de tais culturas.

 

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Ainda que se associe um vírus ou doença ao país no qual o surto foi iniciado, o que é usual, porém reprovável, o racismo cultural é diferente porque além de associar ao país inclui como nexo o grupo étnico racial e suas culturas, sempre à sombra de um olhar etnocêntrico. 

 

O revés principal está na associação de práticas culturais não hegemônicas à situações problemáticas ou indesejáveis, não se observa a disseminação de mitos ou associações semelhantes no que tange às práticas culturais  norte americanas e europeias, todavia, a história não permite que esqueçamos, ainda que tais fatos não sejam propagados e que tentem apagá-los, que estas culturas colaboraram para episódios funestos da história da humanidade, mas os artifícios hegemônicos não permitiram que fossem reduzidos a tais feitos.

 

A crítica quanto à imparcialidade e à escola de formação de tais cientistas – leia-se período no qual se formaram amparados e influenciados por determinadas ideologias atualmente superadas, mas que ainda inspiram pesquisas que visavam desacreditar determinados grupos étnico raciais –  também precisa ser feita. Também não se pode esquecer que o racismo científico foi incorporado ao discurso político, assim, a  ideia de raça tomou proporções científicas, sociológicas e culturais que se se pautavam – e ainda se pautam, em alguns casos – na pressuposição da superioridade racial dos europeus e norte americanos[5]

 

Neste sentido nos ensina o Professor Doutor[6] Silvio de Almeida, que no Brasil, por exemplo, o racismo contou com: 

 

“A inestimável participação das faculdades de medicina, das escolas de direito e dos museus de história natural” (…) “A ciência tem o poder produzir um discurso de autoridade, que poucas pessoas têm a condição de contestar, salvo aquelas inseridas nas instituições em que a ciência é produzida” (…) “É da natureza da ciência produzir um discurso autorizado sobre a verdade”. 

 

Autor, ativista e historiador Professor[7] George Fredrickson, também, é sensível à necessidade de “examinar a relação entre aspectos culturais – atitudes racistas, crenças e ideias – e estruturas e políticas de dominação racial”.

 

Um dos casos mais lastimáveis acerca do uso de estudos científicos para vexar a comunidade LGBTQ+ e a população africana, foram as pesquisas que visavam descobrir a origem da epidemia do HIV, os registros históricos nos contam que o primeiro surto de AIDS ocorreu em São Francisco e New York, na década de 80. A pestilência foi atribuída ao canadense Gaétan Dungas, considerado por décadas o “paciente 0”, responsável por levar e disseminar o vírus nos EUA. Gaétan era comissário, homossexual e os primeiros estudos acerca do vírus afirmaram que o primeiro contato do “Patient Zero” teria ocorrido em uma de suas viagens ao continente africano ou ao Haiti e, posteriormente, em suas viagens para o EUA teria disseminado o contágio em comunidades homossexuais de São Francisco e New York. Na contramão disso, estudos mais recentes[8], concluídos em 2016, acerca do histórico mutacional e da origem do vírus, apontaram que a presença de agentes etimológicos do HIV já existiam desde 1967.

 

O exemplo acima serve para ilustrar e atentar à associação de um dos vírus mais letais, para o qual ainda não se descobriu a cura, com o continente africano ou com o Haiti, este que historicamente sofreu diversos embargos de países europeus e norte americanos por ter se auto declarado independente em 1804 e por ter abolido a escravidão negra em 1794 e, portanto, ainda é preterido. 

 

Lamentavelmente, a população chinesa e seus descendentes conviverão com as especulações científicas que reforçam estereótipos e estigmatizam grupos raciais. Tais ideias são popularizadas e permanecem no imaginário social por décadas, novamente o olhar para a história se fez necessário: no Brasil a comunidade LGBTQ+ foi impedida de doar sangue, por ter sido historicamente associada a AIDS, até 09 de maio de 2020 decisão histórica do Supremo Tribunal Federal-STF pôs fim a tal discriminação.

 

De acordo com a Organização Mundial de Saúde – OMS não existe nenhuma comprovação científica de que os hábitos alimentares dos chineses tenham sido responsáveis pela disseminação do novo coronavírus na China. Ademais, parte das fotos e vídeos que estão sendo compartilhados com esse tipo de mensagem, que fez o registro em 2016, ou seja, há 04 anos, antes de qualquer manifestação do novo coronavírus na China.

 

O Instituto Sociocultural Brasil China – Ibrachina lançou, em fevereiro deste ano, a Central de Denúncias, após ter recebido mensagens de pessoas de origem chinesa e de outros países asiáticos, bem como seus descendentes, relatando casos de racismo, xenofobia e sinofobia, , os relatos dos casos de racismo podem ser encaminhados ao e-mail [email protected].

 

A pandemia escancarou como os instrumentos de reinvenção do racismo, mas com o resgate de discursos há muito conhecidos. Demonstrou também que ele ainda habita os espaços científicos e o imaginário popular, reforçando a necessidade do estudo constante e da crítica acerca de ideias pautadas por intelectualidades que disseminam ideias hegemônicas e que corroboram com a mantença do poder de determinada parcela que detém o privilégio de ser considerada imune às inferirizações, sendo portanto, os seres humanos ideais para gerir o mundo e alcançando assim o principal objetivo da estratégia racista: manter uma estrutura social baseada no privilégio racial, que requer a constante circulação de estigmas de grupos racializados.

 

 

Beatriz de Almeida é advogada e consultora empresarial. Pós Graduanda pela PUC-MG em Compliance e Integridade Corporativa. Especialista em Direito Tributário e Cível. Palestrante e pesquisadora de temas atinentes às relações étnico raciais com ênfase na população afrobrasileira. Coordenadora temática de Direito Civil na Comissão de Graduação Pós Graduação e Pesquisa na OAB SP. 


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Referências

[1] Miranda, Carlos Alberto Cunha. A arte de curar nos tempos da colônia. Recife (PE), Editora UFPE, 2017.

[2] Chiavenato, Julio José. O negro no Brasil. São Paulo (SP), Editora Brasiliense, 1980.

[3] BBC NEWS Brasil. A primeira epidemia de DST: a doença sexual que levou a Europa a culpar a América no século 16. Da série “The making of Modern Medicine”. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/geral-44844848>, Acesso em: 21 mai. 2020.

[4] CNN. The new virus stirs up ancient hatred. Disponível em: <https://edition.cnn.com/2020/01/30/opinions/wuhan-coronavirus-is-fueling-racism-xenophobia-yang/index.html>, Acesso em: 21 mai. 2020.

[5] López, laura Cecilia. Uma análise da Políticas de enfrentamento ao HIV/Aids na Perspectiva da Interseccionalidade de Raça e Gênero. São Paulo (SP), Saúde e Sociedade, vol. 20, nº 3, pág. 590-603  julho e setembro 2011.

[6] Almeida, Silvio de Luiz de. O que é Racismo estrutural? Belo Horizonte (MG), Letramento, 2018.

[7] FREDRICKSON, George. (1989), The arrogance of race: historical perspectives on slavery, racism, and social inequality. Middletown (CT), Wesleyan University Press. Journal of American History, volume 76, nº 3, dezembro 1989, pág. 894-895.

[8] The New York Times. H.I.V. Arrived in the U.S. Long Before ‘Patient Zero’. Disponível em <https://www.nytimes.com/2016/10/27/health/hiv-patient-zero-genetic-analysis.html>, Acesso em 21 mai. 2020.

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