A rotina de um professor em tempos de COVID-19
Segunda-feira, 25 de maio de 2020

A rotina de um professor em tempos de COVID-19

Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Bernardo Araujo da Luz

 

Em maio, nesse horário, estaríamos adentrando à sala de aula. O brilho nos olhos dos alunos, ansiosos por aprenderem Direito e Processo Penal, normalmente disciplinas muito cativantes entre os discentes, é contagiante. Nos empolgamos! Os corredores estão atopetados de gente. Gente linda, vívida, cheia de energia, empolgação, e em busca dos seus sonhos. Nosso campus é também lindo: totalmente arborizado, muito bem arquitetado, e ostenta um por do sol dos mais belos que já vimos – e olha que já viajamos um bocado. O ambiente é o mais convidativo possível, perfeito para desenvolvermos nossas habilidades, em comunhão de esforços e valências com nossos alunos, no prumo de um mundo melhor.

 

Entretanto, como dizia o poeta, nem tudo são flores. O Brasil está tomado por uma onda raivosa, que teve gênese nas jornadas de 2013[1]. Acentuou-se em 2018, com a bipolaridade instalada em tarrae brasilis por conta do sufrágio para a Presidência da República. De um lado, conservadores, aristocratas, elitistas, “saudosistas da ditadura”. De outro, igualmente extremistas, representantes de uma “esquerda” acéfala, sem projeto de governo razoável, empunhando como bandeira precípua o cântico “Lula livre!”. Em meio a tudo isto, alheio, o vulnerável povo brasileiro, manipulado pelo maniqueísmo midiático, escolhendo um dos lados, se estapeando entre si, sem entender que, independente disso, a projeção desenhava somente um plano: a dor do abandono, da desigualdade, do retrocesso civilizatório. Foi o que se confirmou nas urnas, que culminou com a eleição de um sujeito totalmente improdutivo, que em quase trinta anos de legislatura, tem uma inexistente contribuição à sociedade brasileira. Ora bem, o que fazer? A eleição foi democrática e legítima, e é preciso respeitar a vontade da maioria, sem, entretanto, macularmos as minorias, como é consectário de um Estado de Direito – e não de Direita. 

 

Estamos agora em maio de 2020, cerca de 500 (quinhentos) dias da assunção ao poder do Presidente da República Jair Messias Bolsonaro. Vivemos uma pandemia sem precedentes em nossos tempos. Absolutamente nefária, a doença da COVID-19 se espalha em larga escala, importada ao nosso Brasil inicialmente pelas elites vindas de passeios na Europa, e turistas, animados foliões, que desembarcavam aqui para a curtirem a meninice do nosso festivo carnaval. Não há culpados, por óbvio! Porém, em tempos como os atuais, muitas das vezes, as obviedades devem ser ditas e repetidas.

 

O cenário é apocalíptico. Em métrica global, pessoas adoecem. Não há capacidade de vazão para tratarmos os pacientes. O sistema único de saúde é providencial, e valorosamente combate a virulência. Os guerreiros do novo milênio são identificados: eles não usam capas, sim jalecos! São pessoas comuns, expostas a todos os riscos, que, sabedoras desta contingência, levam a efeito o juramento que fizeram quando assumiram seus postos: os profissionais da saúde. Da mesma forma, todos os trabalhadores da rede de saúde, faxineiros, porteiros, atendentes, todos de cintilante importância. O sistema deve ser uno, coeso. 

 

Mesmo com as excrescências cometidas pelo Presidente da República[2], o povo brasileiro é valente. É da nossa essência. Ainda assim, já superamos a marca de 17.961 (dezessete mil novecentos e sessenta e um) brasileiros mortos e 271.628 (duzentos e setenta e um siescentos e vinte e oito) casos confirmados da doença[3]. No mundo, contabilizamos 4.946.175 (quatro milhões, novecentos e quarenta e seis mil cento e setenta e cinco) infectados, e 324.776 (trezentos e vinte e quatro mil setecentos e setenta e seis mortos).[4]

 

Mesmo diante da calamitosa verdade, o sectarismo predomina. O Presidente da República trata da doença como se fora uma “gripezinha”.[5]

 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) indica que a COVID-19 é uma doença infecciosa causada pelo mais recente coronavírus (larga família de vírus) descoberto, o SARS-CoV-2, cujo surto teve início na província de Wuhan, na China, em dezembro de 2019[6]. O negacionismo avança. A ciência, nossa melhor amiga, é desprezada por quem tem a missão constitucional de gerir o Executivo da nação. O Presidente se arvora de uma sapiência que não detém[7] – a de infectologista. 

 

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Nessa atmosfera, sujeitos ditos letrados, tomam partido, tratando do vírus como se não fosse uma emergência sanitária global, de magnitude jamais vista em nossa realidade. Não, o que importa é fincar pantalha: meu Presidente é maior que a ciência, aglomeremo-nos em nome da economia! Sim, ao isolamento vertical! De outro lado, se brada: ouçam a ciência, fiquem em casa! Não há evidências que comprovem a eficácia da cloroquina – há, inclusive, danosos efeitos colaterais. 

 

Em meio a tudo isso, o sistema educacional brasileiro, já sucateado pelo abandono do governo federal, violentado por tantas arbitrariedades cometidas pelo Executivo, tais como o desrespeito à democracia no que importa à eleição dos reitores das Universidades Públicas[8], deve se reinventar. Em pouquíssimo tempo, plataformas de ensino online são estruturadas. As aulas devem ser ministradas de maneira remota. Os alunos, dilacerados por perdas pessoais, devem buscar no estudo e no convívio virtual com seus amigos, colegas e professores, algum conforto. E, sim, isso acontece. 

 

Nesse ambiente, ensinamos as Disciplinas de Direito Penal e Direito Processual Penal. Tratam-se de matérias bastante complexas e que, por lidarem com um dos bens jurídicos mais preciosos da sociedade, qual seja a liberdade, suscitam a necessária proximidade entre docentes e discentes. Mesmo assim, não esmorecemos. Semanalmente, estamos ali, reunindo mais ou menos trezentos alunos ao redor de um computador, tablet, celular. E tentamos nos confortar. Aprender, e confortar. 

 

Distantes de nossos familiares e amigos, cada um no seu isolamento, respeitando as recomendações técnicas, procuramos produzir aulas interativas, faustas, com ludicidade e reciprocidade. Obtemos ótimos resultados. Os alunos vibram, nos elogiam, nos incentivam. De outro lado, algumas críticas. É evidente, faz parte do processo e nos impulsionam a incrementar as atividades e tensionar o alcance de mais profícuos resultados. 

 

Entretanto, não é suficiente. Às vezes, uma tristeza abissal paira sobre nós. Lecionamos em uma região interiorana do Estado do Pará. Somos naturais de uma cidade interiorana do Rio Grande do Sul. Notamos a diferença estrutural rotunda. Este país não é nada equânime. Uns, privilegiados. Outros, completamente relegados. Aqueles, muitas das vezes, sequer valorizam o muito que tem. Estes, várias vezes, se agigantam, enfrentando, de peito aberto, todas as agruras que uma vida sofrida e pobre lhes impõe. Não generalizamos, é certo. Mas, também é certo, cada dia mais damos valor ao conforto de que desfrutamos, o maior de todos, o de uma vida regada por amor, carinho, livros, estudo. Uma família feliz, bem disposta, e humanista – privilégio de poucos, em um país que imprime uma rotina de trituração social em desfavor dos vulneráveis.

 

Também por isso, a realidade de exclusão muito nos choca. Nossos alunos são guerreiros. Muitos perderam seus empregos. Muitos assistem unicamente a primeira aula do mês, pois somente possuem condições de carregar os dados móveis do aparelho celular essa vez no mês. Uma aula lhes consome toda a internet. Não dispõe de banda larga. Moram em diversas cidades vizinhas à nossa muito bem equipada faculdade. Entretanto, em isolamento social, não conseguem desfrutar do conforto que a instituição oferta. E, por tudo isso, a tristeza bate. 

 

Ela passa – tem que passar. Nos reerguemos. Também renovados pela coragem que move estes alunos. Não podemos parar. As aulas são absolutamente desgastantes. Duas horas de intenso monólogo. A conexão se arrasta. Alunos não nos ouvem. Vamos recomeçar? “Bora”! Tudo isso, com um sorriso no rosto. Sabemos, somos referência para muitos deles. O clichê está posto: “professor, quero ser que nem o Sr”! Eis a recompensa: o coração transborda de alegria. Tomamos fôlego, e recomeçamos.

 

Nosso papel é crucial: ensinar, e encorajar. Aprender, e compartilhar. Trazer esperança, aos desesperançados. Plantar inquietação para colher contribuição. 

 

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Agora devemos pensar. O que é tudo isto? Como seguiremos com nossas vidas? E as pessoas desamparadas? Até quando a pandemia vai perpassar? Respostas difíceis. O socorro não chega. E as aulas continuam.

 

Vamos preparar aulas? Agora não. É momento de faxina. Começamos a faxina, em nosso confortável apartamento – certamente mais um privilégio, não temos do que reclamar. O telefone toca: “Dr., uma urgência” – somos doutorandos, ainda não doutores. “Diga, meu amigo”, respondemos. Sim, além de professores, somos advogados. As demandas são muitas. O Judiciário suspende prazos. Foi implementado o teletrabalho. Bom, mas esse não é o escopo do texto. Somos professores. 

 

A rotina começa a pesar. Faxina, louça, lavar roupas, cuidar das crianças, esposa grávida, contas vencendo, a incerteza de poder honrá-las. Em meio a tudo isso, as aulas não podem parar. Vamos à luta! 

 

Agora é momento de avaliação na faculdade. Foram propostas algumas atividades, cuidadosamente elaboradas pela gestão, que é nacional. A intenção, sem dúvida, é a melhor possível. Entretanto, a realidade do Rio de Janeiro é completamente distinta do interior do Pará. A experiência não funciona. Temos que contemporizar. 

 

As frustrações são imensas. Muitos não dão conta das atividades. E seria digno supor o contrário? Com a perda de entes queridos, adoecidos, desguarnecidos. A compreensão e a sensibilidade devem ser companheiras. 

 

Cuidamos dos alunos, como se filhos fossem. Nos preocupamos com suas ausências. Será que estão bem de saúde? Adoeceram? 

 

Na mesma esteira, devemos ser seus sustentáculos. Aqueles que não lhes abandonam. É mesmo uma rotina desgastante. 

 

Mas, as aulas continuam. Além das aulas, somos incumbidos de diversas outras tarefas: preenchimento de formulários, relatórios, infindáveis missões. As correções dos trabalhos avaliativos ganham prazo exíguo. E, lá vamos nós. Não podemos parar. 

 

Sequer concluímos as correções, e o bimestre caminha para o preparo da segunda avaliação. Logo em seguida, a terceira chance. E, “tcharam”, acabamos mais um semestre. Será que agora voltaremos às aulas presenciais? A contaminação já estará controlada? Quais as medidas que teremos que adotar em sala de aula? Ainda teremos turmas com oitenta alunos? Como falaremos, com máscaras?

 

Ainda diante de tudo isso, as aulas continuam. E é bom que continuem! Amamos o que fazemos. Somos professores! 

 

Mesmo à distância, na medida do possível e do acesso, à cada aula, adentramos no aconchego dos lares dos nossos alunos, a partir das nossas casas, trocando esperança e força, apoiando-nos mutuamente, na busca de um mundo melhor. Independentemente de crença política, o que nos importa, sim, é que saiamos deste desolador momento. Nos unamos! Sejamos solidários! 

 

E nos deem licença, pois vamos nós, com pandemia e tudo, para mais uma aula, com o coração acalentado de carinho, procurando minimente contribuir com nossos alunos. Por quê? Porque somos professores! 

 

Belém, PA, chuvas de maio, 2020.

 

 

Bernardo Araujo da Luz é doutorando em Direito, “Desafios sociais, incerteza e direito”, FDUC. Mestre em Direito – ciências criminais pela FDUC, Portugal. Graduado em Direito pela UFSM. Associado ao IBCCRIM. Parecerista da RBCCRIM. Professor de Direito na Estácio – FAP e FCAT.


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Notas:

[1] Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44353703>. Acesso em: 20/05/2020.

[2] A cada notícia da evolução da doença em nosso país, sobrevinha uma pixotada de nosso Presidente, desumano, energúmeno, despreparado e estúpido. Como exemplo, duas situações emblemáticas e revoltantes: ao saber de novo recorde de mortes no Brasil, disse o Sr. Jair “E daí? Eu sou Messias, mas não faço milagres”. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/04/28/sou-messias-mas-nao-faco-milagres-diz-bolsonaro-sobre-recorde-de-mortes.htm>. Acesso em: 20/05/2020. Por pior, quando o país atinge a triste marca de mais de mil mortos em um dia, diz ele, sanguinário: “quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda toma tubaína”, em tom jocoso e inacreditavelmente funesto. Disponível em: <https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,quem-e-de-direita-toma-cloroquina-quem-e-de-esquerda-tubaina-diz-bolsonaro-sobre-liberacao,70003308307>. Acesso em: 20/05/2020.

[3] Atualização em 19/05/2020, às 19:20, horário de Brasília/DF. Disponível em: <https://covid.saude.gov.br/>. Acesso em 21/04/2020

[4] Atualizado em 20/05/2020. Disponível em: <https://coronavirus.jhu.edu/map.html> Acesso em: 20/05/2020. 

[5] Disponível em: < https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2020/03/24/bolsonaro-volta-a-se-referir-ao-coronavirus-como-gripezinha-e-criticar-governadores-por-restricoes.htm>. Acesso em: 20/05/2020.

[6] Disponível em: <https://www.who.int/news-room/q-a-detail/q-a-coronaviruses>. Acesso em: 20/05/2020.

[7] Diríamos, que sapiência esta Sr. Tem? Hard task.

[8] Disponível em: <https://congressoemfoco.uol.com.br/educacao/bolsonaro-impoe-novas-regras-para-eleicao-de-reitores-de-universidades-federais/>. Acesso em: 20/05/2020.

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