Um fariseu no STF?
Segunda-feira, 25 de maio de 2020

Um fariseu no STF?

Imagem: Agência Brasil / Arte: Justificando

 

Por Ricardo Manoel de Oliveira Morais

 

 

Quando alguém emprega o termo “evangélico”, logo estabelecemos um paralelo profundamente injusto com um estereótipo. Embora eu não possua domínio conceitual para falar sobre os segmentos do cristianismo, acredito que o termo “evangélico” se refira ao movimento pentecostal e neopentecostal. Talvez, me arriscando mais do que se deve em um terreno que me é escorregadio, tenderia a separar os referidos movimentos do protestantismo (calvinismo, luteranismo, anglicanismo, presbiterianismo), tanto por uma questão cronológica quanto por uma questão de ethos religioso.

 

Todavia, não estamos aqui para falar de segmentos do cristianismo. Há alguns meses o Presidente da República afirmou que pretende indicar para o STF alguém que seja “terrivelmente evangélico”. Mas qual seria o perfil de um jurista “terrivelmente evangélico”? Esta é a pergunta que não quer calar.

 

Alguém que fosse, hipoteticamente, apegado a etimologias e que desconhecesse certos estereótipos (na condição de um leigo, evidentemente) poderia inferir que um “jurista evangélico” é alguém preocupado com os preceitos de Cristo, com as suas “boas-novas”, a “boa mensagem”. Em certa medida, um jurista evangélico seria alguém que se pautaria, juridicamente, pelas virtudes cristãs (do evangelho) do amor, da humildade. Por certo, para este alguém hipotético, “terrível” e “evangélico” não fariam sentido no mesmo predicado.

 

Ao pensar (me colocando no lugar do “alguém hipotético) em um jurista evangélico, me vem a mente figuras como Sobral Pinto. Este advogado, mesmo cristão (um terrivelmente cristão?), aceitou defender Luís Carlos Prestes. Lembro aqui também de um magistrado mineiro. Membro de uma denominação religiosa neopentecostal (e ex-militar, o que o tornaria ainda mais “terrivelmente evangélico” – contém ironia), o tal magistrado foi pioneiro ao viabilizar que companheiros homoafetivos de militares fossem considerados dependentes para fins de concessão de benefício previdenciário. E, talvez por seu apego ao evangelho (digo talvez porque o ofício do juiz é laico), este mesmo magistrado permitiu que milhares de famílias tivessem assegurado seu direito básico habitacional. Ainda quando juiz no interior de seu estado, esse mesmo magistrado (com o MP), “esvaziou” a cadeia de sua comarca, articulando uma rede comunitária para que todos os egressos tivessem fontes de renda, alcançando um índice de ressocialização de 100%.

 

Talvez se diga que estou me prendendo a um exemplo pessoal de um Magistrado e a uma figura histórica singular. Mas quando falamos do evangelho, a singularidade de um indivíduo que defende os vulneráveis não seria importante? Bom, é aqui que a coisa começa a se complicar.

 

Leia também:

Podcast Justificando fala sobre Fake News e Infodemia do caosPodcast Justificando fala sobre Fake News e Infodemia do caos

 

Escrevi, há pouco, um texto falando da cruzada pessoal do Presidente contra a impunidade. Sim, ele é favorável à impunidade de indivíduos como Ustra, mas é a favor de ações violentas do Estado contra a sociedade civil, como aquela de metralhar carros. Claro, sua luta contra a impunidade é condizente com a sua alegação de que “As minorias se adequam ou simplesmente desaparecem”. 

 

Imaginando que a indicação presidencial ao STF adotará este mais alto padrão de coerência e integridade cristã, um Ministro de Estado que aceita se colocar como “servo” de alguém é, sem dúvida, um grande candidato. Mas sugeriria ao Presidente que não deixasse de considerar outros bons cristãos como a magistrada carioca que ironizou a violenta morte de uma ativista de Direitos Humanos e sugeriu o fuzilamento de um parlamentar. Quanto à esta sugestão de fuzilamento, há um alinhamento ainda maior que o da servidão, diria alguém a propósito de FHC. 

 

Creio que quando se diz que se quer indicar alguém “terrivelmente evangélico”, não acredito que se tenha em mente a acepção etimológica sobre o significado de “evangelho”. Acredito que, ao dizer isso, pensa-se em um estereótipo, estereótipo este muito bem representado na figura do fuzilamento. Mas, como bem disse um determinado pastor (igualmente indicável ao STF), “Pior que um incrédulo é um cristão que dissimula”. 

 

Sei que a indicação de alguém para o STF é prerrogativa do Presidente da República. Sei também que não foram poucas, no passado, as indicações “polêmicas”. Não obstante, quando o Presidente fala em alguém “terrivelmente evangélico”, agora me abstendo de preciosismo etimológicos, significa que talvez tenhamos uma legião de “fariseus”, não só em manifestações pedindo o fechamento do STF, mas, paradoxalmente, “fariseus” também no STF e, quem sabe(?), defendendo no STF o fechamento do STF (o que é condizente com a fala de um eleito que alega fraude em sua eleição). 

 

Ricardo Manoel de Oliveira Morais doutor em Direito Político pela UFMG. Mestre em Filosofia Política pela UFMG. Bacharel em Direito (FDMC) e em Filosofia (FAJE). Professor.


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Segunda-feira, 25 de maio de 2020
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend