Darwinismo profissional 4.0
Quarta-feira, 27 de maio de 2020

Darwinismo profissional 4.0

Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Laíze Lantyer Luz

 

“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”…O estado de ânimo pode nos fazer interpretar a canção na sintonia de um acorde acelerado por um descarte de corpos em marcha fúnebre. Não há apenas um amontoado de vidas precárias (BUTLER, 2011) em cemitérios e rostos em hospitais, mas também milhões de números do seguro desemprego. Em um quadro de guerra pandêmica, o nome ou o rosto é o que menos importa. As regras são ditadas pelas cifras no banco das heranças que pagarão ou não as dívidas dos mortos e seus sobreviventes. Quando vidas precárias estão sob ameaça, a busca do que nos vincula eticamente à alteridade e reconhecimento do vínculo ético -moral com o Outro, pode ser condição para além da empatia, talvez seja o que nos restará de esperança para sobrevivência da raça humana na nova Era pós-covid. 

 

Muitos têm cobrado a volta da normalidade. O certo é que o amanhã não será mais como antes. Para alguns, o hoje já virou pó. O sonho de alcançar a meta até 2030 do objetivo 8 do desenvolvimento sustentável: “Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos” já virou lenda, enquanto que os índices de desemprego no mundo já indicam que a obsolescência do trabalho é uma realidade. 

 

Imaginemos que empresas que tinham altos custos de manutenção dos seus recursos de forma presencial: aluguel, estação de trabalho, água, luz…Agora imaginemos que esses empresários reduziram seus custos operacionais e, em muitos casos, aumentaram a produtividade com pessoas trabalhando em sistema de teletrabalho. Essas empresas e esses profissionais retornarão para a considerada normalidade? Não, não vão. Negócios se instalaram com operações on-line, em um processo de digitalização à fórceps. Haverá retorno ao que existia antes após essa adaptação? Não. Restaurantes que resistiam a vender por aplicativo e que hoje lucram como nunca, repensam suas operações para atender exclusivamente on-line sem garçom, sem gorjeta, sem direitos trabalhistas, sem férias individuais ou coletivas de funcionários. 

 

Profissionais liberais e autônomos, advogados e médicos atendendo por Skype e por videoconferência, aumentando muitas vezes a sua produtividade. Esses profissionais retornarão ao normal? Não. Professores que hoje são obrigados a adaptar o conteúdo das suas aulas para plataformas on-line e à distância, método até pouco tempo ainda criticado e ditado como de qualidade inferior. Quem não consegue se adequar ao teletrabalho, o que irá acontecer? Ou essas pessoas se adequam a nova caixa limitante das leis do mercado ou serão descartadas pelo darwinismo profissional da globalização 4.0 pós pandemia.

 

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Hoje, as heroínas são trabalhadoras braçais que costuram máscaras e distribuem esperança de proteção ao invisível. Estas são as “batalhadoras”, nos dizeres de Jessé e Nozaki (2017), as subcidadãs, costumeiramente invisíveis, que carecem de autoestima e autoconfiança, que no mundo “normal” costuram em roupas de marca que hoje continuam a vender on-line. Cardoso (2010), ao falar do Estado Antissocial trouxe uma análise de como o trabalho manual foi visto como degradado historicamente pelas elites. Como passaremos a enxergar após a pandemia os trabalhadores braçais que sempre foram essenciais, mas que hoje ganham visibilidade, como as costureiras, catadoras de materiais recicláveis, os garis, os agricultores e caminhoneiros de todos os continentes? Se essas são as funções essenciais, por qual razão esses profissionais são tão marginalizados pela sociedade? 

 

Em uma sociedade inebriada pelo fetiche, o trabalhador se identifica como consumidor antes mesmo de se sentir cidadão. Pelo Fetiche da mercadoria, se é a coisa que transmite valor ao ser humano e não o contrário, onde resta espaço para enxergar rostos e vidas ao invés de cifras?  A estratégia do mercado em prol do crescimento a qualquer custo é visível e não precisa de microscópio. O estado de entorpecimento proporcionado pelas mudanças sociais conforme a estratégia para manutenção do poder pelo capital incute no trabalhador informal a falácia ilusória de se sentirem donos de si e de seus negócios. Mas ironicamente serão agora um exército de livres empreendedores presos ao desemprego. 

 

Castel (2003) traz que a relação entre o aumento do salário, da produção e do consumo, o que demonstra o quanto esses empreendedores estão, em verdade, vítimas de uma prisão da consciência em uma pseudo liberdade que faz um castelo de cartas construído em um mundo de fantasia ruir. Essas transformações pelas quais a sociedade contemporânea passa em quarentena, e que reflete na vida cotidiana de vulneráveis desempregados, só reforçam a precarização das relações de trabalho e o aumento da informalidade subsidiada por um crescimento maquiado de desenvolvimento (FURTADO, 2002), aumento das possibilidades de consumo, conhecimento e tecnologia que causa a obsolescência de muitos. Percebe-se o quanto o (pseudo) desenvolvimento emancipatório sustentável de uma categoria profissional por oportunismo circunstancial pode ser permeado por um processo contraditório e dialético.  

 

O mundo industrial tal como o conhecíamos foi anestesiado por um vírus, quase todas as engrenagens pararam como numa greve indireta causada por uma mão invisível. As cifras dos prejuízos econômicos não conseguem contabilizar em palavras as perdas de tantas vidas. Mas no cotidiano do caos pandêmico, eis que ainda brotam sentimentos também quase obsoletos: a solidariedade, a empatia, o diálogo do olhar e do virtual, a espontaneidade da obviedade da urgência da união. Metamorfose do mundo do trabalho e das relações interpessoais em prol do pensar soluções coletivas e agir para além de si e dos seus que porventura (ainda) não tenham sido afetados. 

 

Em momentos de crise devemos ensinar uns aos outros que não há espaço para ceder ao comodismo do pessimismo. Essa atitude é justificável aos preguiçosos que preferem praticar o nadismo da viciada mesma opinião sobre tudo. Mas se as circunstâncias da vida são conduzidas por um processo histórico, portanto, mutável, o ser humano pode e deve evoluir na busca de alternativas e de escolhas mais sábias e solidárias. Para isso, o primeiro passo da esperança é a “sociedade de mudos” (KURZ, 1996) quebrar a apatia do silêncio pela surdez da desobediência civil (ARENDT, 2008) e ficar em casa.

 

 

Laíze Lantyer Luz é mestra em Políticas Sociais e Cidadania pela Universidade Católica do Salvador (UCSal), especialista em Direito Ambiental pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Fundadora da Organização PEACE (Paz, Educação Ambiental e Consciência Ecológica). Advogada e Mediadora de conflitos socioambientais. 

 


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REFERÊNCIAS

 

ARENDT, Hannah. Desobediência Civil. In: Crises da República. São Paulo: Perspectiva, 2008.

BUTLER, Judith. Introdução: vida precária, vida passível de luto. In: Quadros de Guerra: quando a vida é possível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016, pp. 13-55. 

CARDOSO, Adalberto Moreira. A Construção da Sociedade do Trabalho no Brasil: uma investigação sobre a persistência secular das desigualdades. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010. 463 páginas. 

CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Tradução: Iraci D. Poleti. 4ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2003. 

FURTADO, Celso. Metamorfoses do capitalismo. Disponível em: < www.redcelsofurtado.edu.mx/archivosPDF/furtado1.pdf>. Acesso em: 08 de dezembro de 2018. 

KURZ, Robert. Uma revolta do Silêncio (tradução de José Marcos Macedo). Folha de S. Paulo, Caderno MAIS!, 14 de janeiro de 1996, p. 5. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/1/14/mais!/5.html

NOZAKI, William; SOUZA, Jessé de. O Brasil não conhece o Brasil. 20/04/2017.

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