A carne mais barata do mercado é a carne negra
Quinta-feira, 28 de maio de 2020

A carne mais barata do mercado é a carne negra

BG: Fernando Frazão / Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Timóteo Bezerra da Silva

 

Em outubro de 2019, um texto com o título “A Vitória de Pirro e a Segurança Pública do Rio de Janeiro” foi publicado no Justificando e tinha como base a morte menina Ághata Vitória de 8 anos, que foi morta em uma operação policial quando voltava para sua casa no Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro. Hoje escrevo sobre João Pedro, menino morto em outra operação policial em São Gonçalo-RJ. O que esses casos têm em comum? Pessoas pobres, negras e moradoras da periferia. A carne mais barata do mercado é a carne negra, que vai de graça para o presídio e para debaixo do plástico, canta Elza Soares.

 

 

O jornalista americano Ta-Nehisi Coates, nome egípcio dado pelo pai, escreveu um livro chamado “Entre o Mundo e Eu”, livro que tem como destinatário seu filho de 13 anos, praticamente a mesma idade de João Pedro, em que Coates conta para o filho como é viver na pele de um negro americano, corpo esse explorado por meio da escravidão, segregação racial, e hoje um corpo encarcerado em massa por um sistema prisional seletivo, e quando não, um corpo assassinado.

 

No livro, Coates narra para o filho os cuidados que ele precisa ter contra as pessoas que querem ferir seu corpo, e a polícia é uma dessas pessoas, pelo menos parte dela. É nítida a segregação racial que ainda é feita nas favelas e zonas mais pobres da cidade do Rio de Janeiro, um verdadeiro Gueto de Varsóvia à brasileira, pessoas confinadas em espaços densamente povoados, em grande parte insalubres, onde é possível exercer o abuso, a violência, a indiferença, a irresponsabilidade do Estado, e nada acontece.

 

Com um relato vivo sobre a sua infância nas ruas violentas de Baltimore (EUA), é possível transportar a sua percepção clara e lúcida sobre o braço armado do Estado, a polícia, e as injustiças que suas ações produzem no dia a dia dos milhões de negros de tão pobres e pobres de tão negros do Brasil “Os destruidores raramente serão considerados responsáveis. Na maior parte das vezes, eles receberão pensões. E a destruição é meramente a forma superlativa de uma dominação cujas prerrogativas incluem revistas, detenções, espancamentos e humilhações. Tudo isso é comum para pessoas negras. E tudo isso é coisa antiga para pessoas negras. Ninguém é considerado responsável.”

 

As pessoas que moram nesses lugares são verdadeiros “homo sacer”, a figura sem direitos descrita pelo italiano Giorgio Agamben, aquela pessoa com a vida nua, uma vida desamparada, alguém sem direitos ou garantias, o amaldiçoado que caminha sobre a terra, qualquer pessoa poderia matar o homo sacer sem maiores consequências.

 

Porém, Agamben vai na raiz do problema, na responsabilidade pela produção da figura do homo sacer está o soberano, o governo, ou seja, o modelo de construção social capitaneado pelo Estado fomenta a criação de pessoas sem direitos, e essas pessoas são vistas aos montes nas favelas brasileiras. O Brasil nasceu elegendo pessoas sem direitos, na taxonomia social construiu-se uma seleção artificial de pessoas por meio de uma política higienista, termo que pode até ser agressivo em sua linguagem, contudo, é ainda mais agressivo quando vivido por pessoas reais nas zonas de exceção espalhadas pelo Brasil.

 

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 Raskólhnikov, personagem central de Dostoiévski em Crime e Castigo para justificar a sua consciência pelo crime cometido vai dizer que no mundo existiam alguns que teriam a legitimidade para o cometimento de toda espécie de crime e atos reprováveis, e que para esses a lei não existiria. Àqueles vulgares, imerecedores de dignidade o peso da lei, o alfange da justiça, mas aos extraordinários, pelo simples fato de serem extraordinários, a permissiva escusa para a prática de toda sorte de injustiças. Para uma obra escrita na Rússia czarista, as semelhanças são inegáveis quando vista sob a ótica da relação entre o povo e o governo no Brasil.

 

A real mensagem transmitida pelo Estado brasileiro através das operações policiais em áreas pobres, é a afirmação de que existem lugares de exceção no país, onde aqueles que lá vivem estão nus diante do poder repressor do Leviatã, e o mais grave desse locus de exceção, é que caminha para um estado de perpetuação, da naturalização do absurdo. São lugares onde as pessoas têm a identidade retirada e passam a ser tratadas como coisa, e o poder público atua somente na gestão dos indesejáveis.

 

O tráfico negreiro nasce desse conceito, a igreja justificava divinamente a escravidão a partir dessa lógica, e as operações policiais nas favelas do Rio de Janeiro segue essa herança. Os grilhões que prendiam aqueles desgraçados como escreve Castro Alves em Navio Negreiro, foram substituídos pela desigualdade, exclusão social, baixa ou nenhuma escolaridade, falta de acesso à cultura, falta saneamento básico e moradia, esses grilhões ainda prendem os milhões de pobres e negros do Brasil, que ao serem mortos pelo Estado, apenas por uma questão de protocolo entram para as estatísticas.

 

Obviamente seria honesto demais para o Estado admitir isso, nessas horas o caminho mais aconselhável é o bom o velho cinismo, a retórica do Governador do Estado, as notas de esclarecimento das polícias, a justificativa para o injustificável, o utilitarismo nefasto da tecnocracia faz suas vítimas e nem perde o sono por isso, mas o fato é que um menino foi morto, assim como Ághata, Maria Eduarda e tantos outros, e todas essas desculpas, notas de imprensa e retórica do Governo não mudam absolutamente nada, não acalenta o coração de uma família que perdeu uma pessoa amada pela indiferença do poder.

 

Quando a Constituição brasileira garante que todos são iguais perante a lei, que a vida é um direito fundamental e inalienável, que a autoridade do Estado não pode praticar abusos contra os seus cidadãos, eu penso que aqui cabe algumas perguntas: De que igualdade estamos falando? Quem consideramos cidadãos? A vida é fundamental para qual tipo de pessoas? O Brasil é uma contradição existencial tão assintomática que o mesmo Estado que para uma classe garante os direitos fundamentais da Constituição é o mesmo Estado que para outros, retira esses direitos fundamentais pelo uso indiscriminado da violência.

 

O verdadeiro Estado Democrático de Direito só pode existir como verdade na vida de um povo com uma cultura que respeite à Constituição, e por respeito entende-se que direitos e garantias fundamentais são valores inegociáveis para todos. O problema é que apenas uma parcela pequena da sociedade tem acesso a esses valores constitucionais. Se o Brasil fosse realmente um Estado Constitucional, o poder do Estado seria limitado independente de cor, sexo ou classe social, e mais, as ações desse Estado seriam praticadas com o único e exclusivo fim de gerar, disseminar e preservar a dignidade humana. 

 

Parece que o universo joga dados, para uns a fortuna do destino, para outros, que não tiveram a mesma sorte, a miséria da existência. No centro de operações policiais como a que matou o menino João Pedro está o velho racismo de sempre, a atribuição de uma característica que é inerente a uma pessoa para humilhá-la, diminuí-la e destruí-la, essa é a consequência da conduta praticada pelo Estado nas periferias do Brasil.

 

Talvez a lição de Coates para o filho devesse ser a lição de todos os pais negros e pobres para os filhos: aprenda a cuidar do seu corpo a fim de que não seja destruído pelos algozes da carne negra.

 

 

Timóteo Bezerra da Silva é técnico em gestão educacional na Secretaria de Educação do Distrito Federal.


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