É preciso superar as barbáries do neoliberalismo e o coronavírus
Quinta-feira, 28 de maio de 2020

É preciso superar as barbáries do neoliberalismo e o coronavírus

BG: Tânia Rêgo / Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Andre Po Sheng Yu

 

O avanço cotidiano do novo coronavírus (Sars-Cov-2) sobre os mais diversos países conclama a comunidade científica internacional contra o tempo para colocar um fim a esse momento frustrante, doloroso que estamos vivenciando. Enquanto a vacina não é criada, a humanidade passa por um pesadelo que parece não terminar. 

 

Não se trata de primeira crise que a humanidade está passando e muito menos será a última, mas a atual é crucial para refletirmos acerca das raízes do(s) problema(s). O sociólogo lusitano Boaventura de Sousa Santos (2020) adverte que o mundo vive estado constante de crise desde a década de 1980, momento em que o “neoliberalismo se foi impondo como a versão dominante do capitalismo e este se foi sujeitando mais e mais à lógica do setor financeiro”.[1]

 

A consequência direta da inserção mundial em uma crise permanente é a contradição e formação de oxímoro, uma vez que esta possui natureza temporária, porém, quando se torna constante, de caráter permanente, “a crise transforma-se na causa que explica tudo o resto”[2]. Em outros termos, as crises ao invés de proporcionarem a análise estrutural dos problemas, são utilizados com objetivos para “legitimar a escandalosa concentração de riqueza e impedir que se tomem medidas eficazes para impedir a iminente catástrofe ecológica”.[3]

 

Não é a primeira vez que a humanidade é surpreendida com crise de saúde pública em nível internacional. Tivemos contatos com a gripe aviária, com a gripe suína, e mais recentemente com o ebola. Para David Harvey (2020), tais episódios não fizeram com que os governos das nações fizessem medidas de prevenção, investimentos massivos em pesquisa e saúde pública de qualidade, visto que “o corporativismo da grande indústria farmacêutica tem pouco ou nenhum interesse em pesquisas não remuneradas sobre doenças infecciosas”.[4]

 

Em paralelo, Harvey (2020) destaca que apesar da exposição direta dos países neoliberais ao coronavírus, em países menos neoliberais, como Taiwan e Coréia do Sul, a crise é consideravelmente mais atenuada[5]. Em termos antropomórficos e metafórico, “o COVID-19 é a vingança da natureza por mais de quarenta anos de maus-tratos e abuso nas mãos de um extrativismo neoliberal violento e não regulamentado”.[6]

 

Pertinente destacar que a capacidade do coronavírus superar fronteiras, nações, impõe um isolamento social rigoroso, maneira unicamente eficaz de conter a sua propagação enquanto a vacina não é criada.[7] Diferentemente do que as pessoas imaginam, “o progresso do COVID-19 exibe todas as características de uma pandemia de classe, de gênero e de raça”.[8]

 

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O isolamento social se traduz em privilégios que não são desfrutados de maneira equânime entre os trabalhadores. Harvey (2020) releva a existência uma divisão muito clara em tempos de pandemia: as pessoas que podem trabalhar em casa e as pessoas que não podem trabalhar em casa. Esse processo “aumenta a divisão social, assim como a questão de quem pode se dar ao luxo de se isolar ou se colocar em quarentena (com ou sem pagamento) em caso de contato ou infecção”.[9]

 

Eis a caracterização da barbárie do capitalismo neoliberal, nas palavras do professor Alysson Mascaro:  

 

A maioria da população, trabalhadora, depende da venda de força de trabalho, em atividades em grande parte suspensas; vários setores, precarizados, se sustentam na prestação de serviços, que não mais ocorrem; pequenos empresários veem ruir seus negócios; bancos são imediatamente salvos.[10]

 

Diante deste cenário, o(a) trabalhador(a) se vê obrigado(a) a arriscar a própria vida e a de seus familiares, permanecendo fora de casa, para vender sua força de trabalho em troca de salário. É muito triste a orientação do destino do trabalhador, trabalhadora pelo capitalismo: “lucrar, negociar, trabalhar, ter”.[11]

 

A outra característica selvagem do capitalismo reside no fato de que as riquezas materiais produzidas pelo trabalhador ou trabalhadora não pertencem a estes, mas sim a seus tomadores, vulgo capitalistas. Porém, quando o sistema capitalismo tem sua estruturada abalada, os riscos são socializados, atingidos uma parcela específica da população.

 

Portanto, o que ocorre – na brilhante análise de Alysson Mascaro – é que o capitalismo neoliberal é responsável por esgarçar a subjetividade, o que nas palavras de Harvey (2020), as pessoas passam a se comportarem “como bons sujeitos neoliberais, o que significa culpar a si mesmas ou a Deus se algo der errado, mas nunca ousar sugerir que o capitalismo pode ser o problema”![12]

 

Outro ponto interessante de se notar é que a pandemia demonstrou um modo de vida que se encontrava distante. Salienta Santos (2020) que atualmente 

 

é possível ficar em casa e voltar a ter tempo para ler um livro e passar mais tempo com os filhos, consumir menos, dispensar o vício de passar o tempo nos centros comerciais, olhando para o que está à venda e esquecendo tudo o que se quer mas só se pode obter por outros meios que não a compra.[13]

 

Portanto, “a ideia conservadora de que não há alternativa ao modo de vida imposto pelo hipercapitalismo em que vivemos cai por terra”[14]. Este momento não teve precedentes pois o “sistema político democrático foi levado a deixar de discutir as alternativas”.[15]

 

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É muito infeliz que a consciência de união planetária passe pela irrupção de pandemia, mas se analisarmos a atuação do neoliberalismo nos últimos 40 anos, vemos que ele foi responsável por dizimar todas formas de mudanças, calando a discussão política e estrangulando a democracia. E “como foram expulsas do sistema político, as alternativas irão entrar cada vez mais na vida dos cidadãos pela porta dos fundos das crises pandêmicas, dos desastres ambientais e dos colapsos financeiros”.[16]

 

Em tempos em que mais de um terço da população mundial se encontra em isolamento social[17], a natureza, antes sufocada pelas ações humanas em prol da acumulação capitalista, voltou a respirar. Imagens captadas pelos satélites de monitoramento da NASA e ESA (agência espacial europeia) mostram a queda significativa do nível de poluição na China após irrupção do coronavírus[18] e na Europa[19].

 

Com isso, a pandemia forçadamente convoca a humanidade para força-tarefa de construir “uma consciência de comunhão planetária, de algum modo democrática”[20]. Precisamos pensar e agir de maneira solidária, respeitando o isolamento social, o que pode parecer contraditório: unir enquanto estamos distantes. Dentro do cenário brasileiro, o caminho é mais árduo. Com um presidente ultranacionalista de direita[21], o Brasil enfrenta dois problemas de saúde pública: a pandemia e o próprio presidente Jair Bolsonaro[22]. Relevante destacar que o seu governo está diretamente articulado com a ideologia capitalista, tendo o próprio direito, instrumento de perpetuação de divisão de classe e reprodução dos interesses da acumulação.[23]

 

Autorizado pelo ministro Celso de Mello do Supremo Tribunal Federal, foi divulgado na data de 22 de maio de 2020 o vídeo da reunião ministerial ocorrido em 22 de abril no Palácio do Planalto[24]. Além da presença de inúmeras palavras de baixo calão, proferidas em grande maioria pelo próprio presidente, a reunião manifesta a submissão do governo ao interesse do capital, destruindo os avanços conquistados até o presente momento.

 

O discurso perverso do ministro Ricardo Salles do meio ambiente, que simplesmente sugeriu “ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando as normas”[25] corrobora para a grilagem de terras na Amazônia e intensifica o processo de conflitos de terras em nosso país! 

 

Em paralelo, o ministro da educação Abraham Weintraub atacou as instituições democráticas, gritando: “botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF”[26]. Como não bastasse, ainda afirmou “odeio o termo “povos indígenas”, odeio esse termo”[27]. Ou seja, o ministro simplesmente despreza a organização dos indígenas, despreza os costumes indígenas, despreza as suas crenças e tradições! 

 

Urgentemente o Brasil precisa reorganizar as forças para combater o avanço da pandemia, o pandemônio e sua corja. O problema é estrutural e a culpa é do capitalismo! Lutemos pelos trabalhadores e trabalhadoras que arriscam suas vidas trabalhando em troca de salário; lutemos pelas pessoas que trabalham na linha de frente em combate à pandemia; lutemos pela soberania alimentar e a valorização do campesinato em detrimento da segurança alimentar; lutemos pela concretização da Reforma Agrária; lutemos pelas nações indígenas; lutemos pelo fim da opressão da polícia militar; lutemos por uma sociedade livre, justa e solidária! 

 

Rumo à luta! 

 

 

Andre Po Sheng Yu é bacharel em geografia pela Universidade Estadual de Londrina. Graduando em direito pela Pontifícia Universidade Católica de Paraná


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Notas:

[1] SANTOS, Boeaventura de Sousa. Vírus: tudo o que é sólido se desfaz no ar. Público, 18 de março de 2020. Espaço público, p. 24. Disponível em: <http://www.boaventuradesousasantos.pt/media/V%C3%ADrus%20-%20Tudo%20o%20que%20%C3%A9%20s%C3%B3lido%20se%20desfaz%20no%20ar_18Mar20.pdf>. Acesso em: 22 mai. 2020.  

[2] SANTOS, op. cit.

[3] Idem. 

[4] HARVEY, David. Política anticapitalista em tempos de coronavírus. Tradução de Cauê Seigner Ameni. Disponível em: <https://jacobin.com.br/2020/03/politica-anticapitalista-em-tempos-de-coronavirus/>. Acesso em: 22 mai. 2020.

[5] YANG, William. Assim Taiwan conseguiu conter o surto de coronavírus. Deutsche Welle, 13 mar. 2020. Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/assim-taiwan-conseguiu-conter-o-surto-de-coronav%C3%ADrus/a-52759224>. Acesso em: 22 mai. 2020. 

[6] HARVEY, op. cit. 

[7] Jornal Nacional. OMS reforça que medidas de isolamento social são a melhor alternativa contra o coronavírus. Disponível em: <https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/03/30/oms-reforca-que-medidas-de-isolamento-social-sao-a-melhor-alternativa-contra-o-coronavirus.ghtml>. Acesso em: 22 mai. 2020.

[8] HARVEY, op. cit. 

[9] HARVEY, op. cit. 

[10] MASCARO, Alysson Leandro. Subjetividade e pandemia. Disponível em: <https://aterraeredonda.com.br/subjetividade-e-pandemia/>. Acesso em: 22 mai. 2020. 

[11] Idem. 

[12] HARVEY, op. cit. 

[13] SANTOS, op. cit. 

[14] Idem. 

[15] Idem. 

[16] SANTOS, op. cit. 

[17] POLATO, Amanda; MACEDO, Letícia; MODELLI, Laís; G1. Um terço da população mundial está em isolamento; veja medidas de diferentes países para conter o coronavírus. G1, 27 de março de 2020. Disponível em: <https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/03/27/13-da-populacao-mundial-esta-em-isolamento-veja-medidas-de-diferentes-paises-para-conter-o-coronavirus.ghtml>. Acesso em: 23 mai. 2020.

[18] FOLHA DE SÃO PAULO. Nível de poluição na China cai drasticamente após epidemia de coronavírus. Folha de São Paulo, 01 de março de 2020. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2020/03/nivel-de-poluicao-na-china-cai-drasticamente-apos-epidemia-de-coronavirus.shtml>. Acesso em: 23 mai. 2020.

[19] UOL. Poluição diminui 50% em países da Europa com ‘lockdowns’ por coronavírus. UOL, São Paulo, 16 de abril de 2020. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2020/04/16/poluicao-diminui-50-em-alguns-paises-da-europa.htm>. Acesso em: 23 mai. 2020. 

[20] SANTOS, op. cit. 

[21] CHOMSKY, Noam. Não podemos deixar o COVID-19 nos levar ao autoritarismo. Tradução de César Locatteli. Disponível em: <https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Pelo-Mundo/Nao-podemos-deixar-o-COVID19-nos-levar-ao-autoritarismo/6/46871>. Acesso em: 23 mai. 2020. 

[22] SANTOS, Boaventura de Sousa. O Brasil tem dois problemas de saúde pública: a pandemia e o presidente Jair Bolsonaro. Disponível em: <https://www.clacso.org/o-brasil-tem-dois-problemas-de-saude-publica-a-pandemia-e-o-presidente-jair-bolsonaro/>. Acesso em: 23 mai. 2020. 

[23] MASCARO, Alysson Leandro. Todo direito é um golpe. Disponível em: <https://blogdaboitempo.com.br/2016/05/25/alysson-mascaro-todo-direito-e-um-golpe/>. Acesso em: 23 mai. 2020.

[24] Disponível em: <https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=443959&ori=1>. Acesso em: 22 mai. 2020.

[25] FOLHA DE SÃO PAULO. Leia a íntegra das falas de Bolsonaro e ministros em reunião ministerial gravada. Folha de São Paulo, 22 de maio de 2020. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/05/leia-a-integra-das-falas-de-bolsonaro-e-ministros-em-reuniao-ministerial-gravada.shtml>. Acesso em: 23 mai. 2020. 

[26] Folha de São Paulo, op. cit. 

[27] Folha de São Paulo, op. cit. 

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