A “derrota” da ciência e o que ela ensina
Sexta-feira, 29 de maio de 2020

A “derrota” da ciência e o que ela ensina

Foto: EBC – BG: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Jean Nunes e Thaylana Coimbra Pinto Martins

 

Se é certo afirmar, em tempos de pandemia, que tem crescido a discussão acerca da importância da ciência na agenda pública do país, parece certo também dizer que nunca foi tão fácil superar seus argumentos. Há nesse aspecto uma crítica, mas também um diagnóstico.

 

 

A extraordinária capacidade de apresentar respostas seguras às inquietações que carregamos é um dos fatores que tornaram a ciência um pilar da sociedade contemporânea. Em razão dessa capacidade, diversas respostas para os desafios que enfrentamos, desde o aparecimento do Coronavírus, têm sido buscadas nesse campo do conhecimento humano. Não é, porém, apenas no campo científico que essas respostas têm sido buscadas. Claro, não há novidade nisso. O que espanta é a forma como outros campos facilmente têm “derrotado” os argumentos científicos. Importa saber, pois, tanto em que consiste essa “derrota” quanto as razões de sua ocorrência. 

 

Há uma distância abissal entre os resultados de uma pesquisa e os “argumentos” que apenas teimam em negá-los. O conhecimento científico é produzido a partir da utilização de um método, constituído de procedimentos transparentes e previamente anunciados. Além disso, antes de ser levado ao público como verdade científica, ele passa por um intenso processo de debate no meio acadêmico ou mesmo em laboratórios privados quanto aos fundamentos que o sustentam e que prossegue após sua publicação. É nesse caráter rigoroso de sua produção que o conhecimento cientificamente construído assume a forma de uma prova, de uma verdade, embora de valor sempre relativo. Ainda assim, como dito, o resultado apresentado é temporário e sujeito às mudanças, caso novas pesquisas apontem para sua superação. 

 

Já os “argumentos” puramente negacionistas, que não resultam da pesquisa, não têm esse compromisso nem com o método e nem com a veracidade do que é veiculado, revelando-se mera opinião. Não se trata do que as academias chamam de senso comum, conhecimento tradicional que resulta da observação empírica e, às vezes, intimamente ligado à ancestralidade de um povo e que obedece à lógica distinta e tem sido encarado, pelo menos pelas ditas ciências sociais, com muito respeito. Os argumentos puramente negacionistas, ao contrário, nada têm a ver com a tradição e a observação, e, o mais grave, estão politicamente orientados. 

 

Ao contrapô-los, não é difícil escancarar a fragilidade do segundo em detrimento do primeiro. Apesar disso, porém, discursos como “os CNPJs estão na UTI” e “a crise econômica gerará mais mortes que o COVID-19” ganham força e se propagam numa velocidade capaz de deixar qualquer epidemia de “queixo caído”. Pesquisas anteriores à pandemia, já mostravam que o número de brasileiros que acredita que cientistas servem a interesses econômicos e ideológicos aumentou 6% e o número que os considera profissionais úteis para a humanidade diminuiu 14%. A “derrota” da ciência aqui tem natureza quantitativa, mas nem por isso é menos importante, sobretudo se se considera a força que o discurso assume nas sociedades contemporâneas.

 

 Mas por que ela ocorre? Há, pelo menos, dois fatores que ajudam a explicar. O primeiro, relativamente novo, é o enorme alcance que têm atualmente as redes sociais e a capacidade de elas potencializarem em muito o alcance dos conteúdos produzidos, através de um incrível encurtamento das barreiras do tempo e do espaço. 

 

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Hannah Arendt, no seu ensaio sobre a filosofia moral (ARENDT, 2004, p. 160), afirma que o mal radical só ganha forças por causa do mal banal, aquele irreflexivo e que se multiplica de tal forma que o multiplicador (aquele que o compartilha, para utilizar uma linguagem mais oportuna) não precisa pensar na questão que defende, e, por isso, torna-se capaz de um mal infinito. Nesse cenário, a complexidade do “argumento” não é apenas ausente: é conveniente.

 

Assim, os “argumentos” negacionistas, alçados a uma condição de dogma, são propagados por uma legião de adeptos, reais e virtuais, sob uma anuência militar e traduzidos nas ruas em manifestações sociais macabras e de apologia da morte, como a que se verificou em São Paulo no dia 18 de abril e a que reiteradamente tem se reproduzido às portas do Palácio do Planalto. 

 

Não é sem propósito que isso ocorre. Levistky (2018, p. 86-112), em seu livro Como as democracias morrem, indica que uma das formas de líderes políticos ganharem poder é a negação de informações e fatos passados por seus opositores ou por fontes de conhecimento já estabelecidas, como a imprensa ou órgãos científicos, de forma a destruir a credibilidade dessas instituições e aplicar uma narrativa própria e exclusiva da realidade. 

 

O segundo fator desdobra-se em dois aspectos, ambos sintomáticos do estado em que se encontra a ciência no país. A fácil aceitação de que “argumentos” negacionistas podem ser contrapostos às teses científicas aponta para a inexistência de uma cultura forte e amplamente disseminada de respeito à pesquisa e, neste sentido, é mais uma face perversa da condição a que historicamente a educação tem sido relegada no Brasil. A ela, somam-se a exoneração de profissionais técnicos em várias instituições de pesquisa, como o INPE, o IBGE e mais recentemente o CNPQ, extinção do fomento às pesquisas no campo das ciências sociais etc, na exata contramão do que estabelece o art. 218 da Constituição Federal.

 

As raízes do problema aqui são profundas. Elas também não podem ser explicadas apenas pela situação precária da estrutura física por que passam muitas das brasileiras, especialmente as públicas. O respeito à pesquisa passa por uma formação que desde a base seja menos repetidora do conhecimento já produzido e mais criativa e crítica. Rubem Alves há muito denuncia o quanto a escola tem sido castradora de sonhos e da imaginação de seus estudantes. Refundação de práticas pedagógicas, investimento maciço sobretudo na formação básica e construção cotidiana de uma cultura de investigação, de descoberta e de criatividade são mudanças urgentes. 

 

Mas há uma outra dimensão ainda mais profunda que precisa ser discutida: o caráter hermético da ciência. A palavra “hermético”, de significado pouco conhecido do grande público, assume aqui um caráter metalinguístico e, de certo modo, metafórico. Historicamente, a ciência do mundo ocidental tem se fechado em círculos de iniciados. Na Idade Média, o conhecimento esteve sob domínio da Igreja que, sob o discurso de um risco da propagação do mal e de práticas consideradas demoníacas, lutava contra a fragmentação de seu poder que desse compartilhamento poderia resultar. 

 

Com o advento da Idade Moderna, e a progressiva migração dos centros de produção do conhecimento formal dos mosteiros para as universidades, houve avanços, inclusive para a própria ciência, que deixou de ter, em geral, pudores ou limites investigativos pré-definidos por questões religiosas.

 

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Entretanto, esse importante processo não se fez acompanhar da necessária mudança quanto à forma como a ciência se comunica com o grande público, muito embora avanços pontuais possam ser reconhecidos. Não se trata de abandonar o necessário rigor, sempre salutar, que se deve ter na produção do conhecimento científico. Internamente, o uso correto e preciso das categorias científicas é fundamental para o avanço das pesquisas, em razão inclusive do acúmulo do conhecimento. 

 

A questão tem outro sentido. Mesmo com o avanço do alcance da internet e, mais recentemente, das redes sociais, tem sido ainda muito pouco o uso desses espaços, pelo menos em realidades como a brasileira, pela ciência para explicar o que faz, como faz e por que faz. Naturalmente, esses espaços são preenchidos. Nem sempre, infelizmente, por quem compreende o que significa fazer ciência e sua importância social. O uso orientado deles encontra terreno fértil para sua propagação.  

 

Reportagem recente da Folha de São Paulo revela que uma das instituições científicas mais importantes do país, ainda mais no contexto em que vivemos, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que reúne alguns dos principais cientistas do país, possuía um desempenho nas redes sociais apenas regular até a chegada do vírus nos trópicos: no Instagram, eram 62 mil seguidores, no Twitter, 14 mil e no Facebook, eram 146 mil. À primeira vista, esses não são números desprezíveis. Mas se se considerar que mais de 120 milhões de pessoas usam redes sociais no Brasil (60 milhões no Instagram e mais de 100 milhões no Facebook) e ainda que perfis voltados a trivialidades tem números bem significativamente superiores, é um claro sinal de que a ciência tem ainda um campo vasto a explorar, como bem o demonstra o aumento exponencial nos acessos nas plataforma da Fiocruz nos últimos dois meses.

 

Claro que a própria quantidade de seguidores, por si só, não é sinônimo de engajamento e num universo em que seguidores são vendidos aos pacotes e perfis falsos para o “bem” e para o “mal” pulalam por toda parte, toda prudência na análise dos números é pouca. Mas nem tudo é “fake” nas redes. O engajamento nelas influencia o processo eleitoral, dita pautas na imprensa tradicional, mobiliza a “opinião pública”, e concerta mobilizações mundiais, como a jovem ativista sueca bem o tem demonstrado. Neste aspecto, a “derrota” da ciência não é apenas quantitativa. 

 

Naturalmente, esses espaços são preenchidos. Nem sempre, claro, por quem compreende o que significa fazer ciência e sua importância social. O uso orientado deles encontra terreno fértil para sua propagação.  

 

Além disso, a ciência encontrou nas fontes tradicionais (livros, jornais, periódicos etc.) uma forma de prestar contas e de explicar para a sociedade as intrincadas atividades desempenhadas intramuros dos campi acadêmicos. Essa foi uma estratégia correta, muito embora a desigualdade, traduzida, entre outros fatores, no analfabetismo, tenha reduzido em muito seus efeitos. 

 

Ocorre que neste particular a ciência não acompanhou como deveria as mudanças que ela mesma provocou. É ascendente a curva que espelha a transformação (revolução?) na forma como o conhecimento tem sido buscado nas últimas décadas. Postagens, vídeos, podcasts, webpalestras, artigos em blogs, entre outras, são novas fontes que trazem a espetacular novidade da interação. A designação “rede social”, portanto, tem um sentido verdadeiro e autoexplicativo.

 

A adequação por que deve passar a ciência, não na forma de produzir conhecimento, mas na de divulgá-lo, ensiná-lo, democratizá-lo, enfim, como lembra Santos, é um desafio contemporâneo. Mais que isso. Hoje, ele está diretamente ligado à manutenção da vida e da saúde. Se Descartes “descobriu” o método para produzir o conhecimento científico, é preciso agora que “inventemos” as formas contemporâneas de ensiná-lo, principalmente, para quem não sabe como ele é produzido.

 

 

Jean Nunes é professor da UEMA, defensor público, mestre em Políticas Públicas – UFMA e coordenador do Grupo de Pesquisa e Extensão Novos Caminhos/UEMA

 

Thaylana Coimbra Pinto Martins é estudante de Direito da UEMA


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Referências

 

ARENDT, Hannah. Algumas questões de filosofia moral. In: Responsabilidade e julgamento. São Paulo: Companhia das letras, 2004.

EXAME. Estes são os dez países que mais usam o Instagram. Disponível em https://exame.com/tecnologia/estes-sao-os-dez-paises-que-mais-usam-o-instagram/. Acesso em 24/05/2020.

FOLHA DE S. PAULO. Brasileiro é otimista quanto à ciência, mas confiança cai, diz pesquisa. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2019/07/brasileiro-e-otimista-quanto-a-ciencia-mas-confianca-cai-diz-pesquisa.shtml?aff_source=56d95533a8284936a374e3a6da3d7996.  Acesso em 22 de abr. de 2020.

FOLHA DE S. PAULO. Fiocruz vê seguidores se multiplicarem em redes sociais. https://folha.com/bea4cois. Acesso em 24/05/2020.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

O ESTADO DE SÃO PAULO. Adultos com mais de 45 anos são principais usuários de redes sociais no País, diz estudo. https://link.estadao.com.br/noticias/cultura-digital,adultos-com-mais-de-45-anos-sao-principais-usuarios-de-redes-sociais-no-pais-diz-estudo,70002907108. Acesso em 24/05/2020. 

R7. Brasil é o 3º país com o maior número de usuários do Facebook . Disponível em https://noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia/brasil-e-o-3-pais-com-o-maior-numero-de-usuarios-do-facebook-02032019. Acesso em 24/05/2020.

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