As Guerras Bolsonáricas em Quatro Eixos
Terça-feira, 2 de junho de 2020

As Guerras Bolsonáricas em Quatro Eixos

Imagem: Justificando

 

Po Leonardo Maia

 

Entender o momento presente brasileiro exige, antes de tudo, algum desemaranhar de linhas, um desembaraçar de perspectivas e mesmo de conceitos. O ‘onde estamos?’, a que se busca penosamente responder, não vem fácil. E, sem ele, de algum modo ficam prejudicadas essas outras questões, políticas, vitais, como ‘que fazer?’, ou ‘o que virá?’

 

Parto aqui de uma evidência e de uma hipótese.

 

A evidência, que sustento desde a assunção do atual governo, é de que o golpe de 2016 evoluiu, com as últimas eleições, para a situação de uma democracia ocupada (não mais apenas sitiada, cercada) ou, para dizê-lo de modo politicamente mais preciso, estamos sob um regime militar (de tipo brando, ao modo de um ‘soft power’, se quisermos, porém militar). Essa condição é, em si, e por si só, anti-democrática, nada tendo a ver, aliás, com o maior ou menor preparo dos nossos militares, ou a personalidade individual desse ou daquele general ou coronel integrante do governo. Não é por acidente, mas em essência que o governo se mostra militar. 

 

Isso porque a própria atividade militar é essencialmente não democrata: o militar é formado para a hierarquia, a disciplina, a rigidez, o segredo e, em última análise, a guerra. Ponto por ponto, a possibilidade democrática estaria nas antípodas dessa condição. Ou seja, não é preciso um golpe de força, uma violência a mais contra a democracia para que a percamos em definitivo, a simples presença militar generalizada no governo tisna o possível democrático. E os militares, permanentemente, procuram adaptar as circunstâncias às suas concepções e visão de mundo. Os exemplos são diários, cristalinos: em um dos mais recentes, o Ministro interino da Saúde nomeou 12 outros militares para postos-chave do ministério, e nenhum médico. Em plena pandemia sanitária. Assim, já não se trata apenas de uma democracia mitigada, ou tutelada, mas efetivamente de uma não-democracia.

 

A hipótese, portanto, decorre de tal certeza. Senhores do governo, os militares o conduzem para a imanência onde mais se sentem à vontade, ou seja, aquela em que mais distantes estão dos civis e do mundo civil, e são mal percebidos (ou mesmo são de todo imperceptíveis): em uma palavra, a guerra. De novo, não há necessidade da experiência física da guerra, mas antes, de plasmar a sua lógica. E uma lógica de guerra é então a marca da presidência de Bolsonaro, por assim dizer o seu princípio de determinação. Só “em guerra”, os militares justificarão sua presença governamental, e, eventualmente, poder-se-ão mostrar mais úteis ou mesmo imprescindíveis Do contrário, em situação normalizada, impõe-se, evidentemente, a condução civil do país. Desse modo, como em regimes militares anteriores, o governo artificializa conflitos: se vê cercado de inimigos internos (aí incluídos os outros poderes constitutivos da república), a segurança nacional (ou, ao menos, a da presidência) está permanentemente em risco etc. Essa a minha hipótese explicativa para o quadro atual no país.

 

O que complica nesse momento o funcionamento ideal dessa lógica são fundamentalmente duas situações que se mostraram inesperadas para o dispositivo militar do governo.

 

Por um lado, uma guerra ‘real’ – a pandemia – se apresentou, a exigir dos militares uma redefinição de sua atuação e dinâmica próprias, que marcara a sua presença até então no governo, e a evolução de uma posição mais retraída e oculta, para a linha de frente.

 

Mas, se podemos de fato considerar uma analogia entre a pandemia e uma situação de guerra, o seu enfrentamento por um governo militar não teria talvez grande dificuldade para propor diretrizes. É essa a própria função militar, organizar os esforços de guerra, preparar a defesa civil, determinar regras para a circulação urbana, eventualmente controlar a circulação de fronteiras, levantar hospitais de campanha, disciplinar o acesso e saída das cidades e municípios, promover, caso necessário, a conversão de indústrias, enfim, organizar a sociedade para o melhor enfrentamento do ‘inimigo’ (pouco importa que seja um inimigo sanitário). Por mais que essa possa parecer uma empresa prodigiosa, ela é, ou seria, quase natural ao militar. É também para ela que se prepara esse segmento, ou seja, a de defender uma sociedade atacada.

 

Contudo, esse esforço que poderíamos dizer natural, está claramente perturbado. Nenhuma dessas ações acima vem sendo tomada com precisão ou eficiência. Fica a cargo quase que exclusivo de governadores e prefeitos responder pela segurança e bem-estar de sua comunidade atacada. E de se perguntar por que, e essa pergunta precisa ser levada com mais empenho aos militares governamentais.

 

Um dos elementos de resposta é bastante óbvio e está na própria presidência da República. À diferença de um militar padrão, Bolsonaro não parece ver a guerra como um meio, e sobretudo um meio para a retomada da paz, mas deliberadamente como um fim. É como se mostra o seu governo desde o primeiro dia, ou mesmo já em ocasião das eleições – como o projeto de uma guerra infinita. Bolsonaro propõe permanentemente esse cenário, que deve parecer extenuante mesmo para militares experimentados, de uma hiper ou de uma sobre-guerra.

 

Com efeito, em lugar de trabalhar para a busca da melhor resolução para os problemas que se apresentam, faz-se o oposto: aposta-se no aprofundamento do próprio problema, de forma a apresentá-lo como um elemento de estresse invencível. Assim, o que Bolsonaro faz, nesse momento, é aproveitar-se do desastre em curso, para intensificar tal estratégia de uma presidência em guerra, exacerbando-a e mesmo proliferando-a ao extremo. Em lugar de cuidar e controlar o cenário de confronto, ele o estende e desdobra. Força deliberadamente o conflito: com o Congresso, o STF, governadores, prefeitos, e mesmo com seus ministros.

 

Com isso, parece-nos que não apenas uma, mas várias guerras bolsonáricas (um bom nome futuro, talvez, para os tempos que ora enfrentamos) estão em curso nesse momento no país. E, ao menos três, merecem especial atenção.

 

Guerra 1

Essa é digamos a guerra original, fundamental. Uma ‘guerra’ bacteriológica. Ou antes, virótica. O alastramento do vírus resulta, com efeito, em um mundo envenenado: etimologicamente, o sentido latino do termo ‘virus’ era justamente o de veneno, de um líquido ou poção envenenada. Perde-se o direito de estar no mundo, da placidez e serenidade de simplesmente estar vivo. Mesmo isso impõe cuidados e é, nesse momento, situação que exige contenção, refreamento, máxima disciplina. Trata-se, ainda, de um combate alteritário, contra um diverso radical, que não apenas existe em situação de não-relação conosco, mas nos nega ativamente, e mesmo até à morte – esse fatal ‘mau encontro’. Por fim, além de exterior, avança contra nós de forma absolutamente invisível, configurando uma ameaça ainda mais temível e constrangedora para a razão humana, cuja função, sempre que metaforicamente expressa, envolve privilegiadamente um lançar luz, uma iluminação esclarecedora. E essa não alcança o vírus e a sua presença ausente. Ele foge à razão e à ciência e segue oculto, e assim o será por longo tempo, ao que parece.

 

Um combate angustiante, portanto, de resultados ainda completamente incertos, e sem real perspectiva de suspensão.

 

Guerra 2

Como sabemos, não estamos restritos a esse combate pandêmico global, já extenuante por si só. Internamente, a presidência brasileira insiste em driblar esse imperativo, e nos quer propor, senão impor, um outro. A Bolsonaro parece importar menos, ou talvez ser menos certo, o combate a um inimigo invisível. Defende, então, deslocá-lo. É fato que, em seu discurso, ele busca marcar-se por uma posição positiva, virtuosa: se a questão maior é preservar vidas, cabe priorizar uma orientação economicista que nos faria, a mais longo prazo, salvaguardá-las em maior número. Ocorre, porém, que a aposta sacrificial bolsonarista, como diversos estudos o indicam, além de incerta do ponto de vista econômico, é absolutamente mortífera.

 

Bolsonaro e os seus veem talvez esse quadro sinistro como uma ‘oportunidade’: uma espécie de purgação e de catarse malthusiana. Indicam que há algo purificador no veneno virótico (todos vão morrer mesmo – então que seja já…) Com efeito, assim como no grego antigo, o sentido latino do termo ‘veneno’ expressa também o seu oposto, de um remédio. Mas, uma situação como essa, de perda de vidas em número descontroladamente alto, será, para qualquer um em condição psíquica não limítrofe, extremamente doloroso, de luto e sofrimento profundos. O pais, um país ao menos, morrerá com essas centenas de milhares de mortes. Situação extrema, portanto, e que resultaria em uma montanha macabra malthusiana, em que jovens escalariam por sobre velhos, ricos por sobre pobres, fortes por sobre os fracos, vivos por sobre os mortos… Estaríamos mesmo dispostos a literalmente subir por nossos próprios pais, mães, irmãos? Esse cenário não é desconhecido dos poderes e o real efeito esperado aqui é precisamente esse, um quadro em que a desumanidade brutal, o descolamento sentimental e afetivo e o despregamento da própria comunidade é tão intenso que já não haveria qualquer amarra a barrar um possível conflito generalizado, micro-guerra civil como situação limite de um país tornado contra si mesmo, em que já todos lutam contra todos (o que talvez até já ocorra há tempos, do ponto de vista do imaginário).

 

Essa brutal aposta bolsonárica intenta, aparentemente, definir o cenário privilegiado a permitir-lhe um golpe de força, que viria dar fim, com ainda mais mortes e execuções, à escalada anômica do descontrole biopolítico, submetido a um ‘laissez-faire’ economicista em plena pandemia. Chegaríamos a um ponto de não-retorno, em que essa possível guerra fratricida funcionaria como um buraco negro a aspirar o país para a sua própria anulação. Uma resolução de crise deliberadamente mortífera, tenhamos isso claro.

 

******

 

Para esses dois casos, impõe-se conceitos diferentes que, curiosamente, já estavam na percepção antiga, grega, a respeito da guerra.

 

No primeiro, estamos diante da situação da guerra como ‘polemós’, ou seja, aquela em que de terminada coisa encontra o seu diverso e, em razão das suas mútuas diferenças e oposições, entram em um determinado conflito. Eventualmente, um deles deverá se impor sobre o outro através de um combate. É o caso típico da ontologia, ou da ontopolemologia heraclitiana. Dia x noite, quente x frio, seco x úmido etc.

 

Contudo, o segundo caso, também foi descrito pelos gregos, com o termo stasis. A diferença a ser ressaltada em relação ao primeiro termo está, sobretudo, no fato de que stasis descreve uma guerra entre iguais, uma luta interna, intestina, Em particular, mostra-se na situação de guerra civil, e que define também uma ontologia própria e um paradigma político. É, claramente, a aposta de Bolsonaro.

 

No Brasil, estamos, portanto, convivendo ao mesmo tempo com as duas vias, do polemós e da stasis, – combate ao diferente e ao igual -, com ambas em situação de maior ou menor latência, de mais próximo ou mais longo impacto ou espera.

 

Guerra 3

Em tudo isso, porém, coloca-se ainda uma experiência ulterior, na acepção propriamente laboratorial do termo. O Brasil é hoje claramente o laboratório de uma experimentação que não se sabe bem ainda qual é. Seja como for, o processo que descrevemos acima demanda um movimento a mais: na verdade, não temos nem uma nem duas guerras, ou antes, pelo fato mesmo de termos uma e outra, impõe-se ainda uma terceira guerra – guerra ‘crítica’ – que, essa sim, vencida por um ou outro campo, permitirá saber, afinal, a qual guerra exatamente deveremos enfrentar, se contra o vírus ou, em última análise, contra nós mesmos.

 

Essa terceira guerra chamemo-la comunicacional, ou informacional: como as duas outras, ela também se trava diuturnamente, sem quartel. Sobretudo, via redes sociais.

 

À primeira vista, ela se apresenta como uma guerra de narrativas: a narrativa vencedora imporá a sua linha de combate desejada, econômica ou sanitária. Mas, esse termo parece-nos algo insuficiente, por várias razões, e uma talvez, em especial. Em última análise, toda guerra prevê algum butim, algum prêmio ao vencedor, e esse, decerto, não pode ser apenas a prerrogativa de enfrentar uma outra guerra, – mesmo que seja a sua guerra (e já não apenas discursiva). Nesse caso, ainda que talvez o termo possa merecer ajustes, a dimensão aqui é talvez mais ampla do que a que o termo ‘narrativa’ apresenta. Há aqui mais a ver com uma poética, entendida nesse caso como uma produção pela narrativa, ou mesmo como uma ontologia (ou uma ontopoética) narracional.

 

É toda uma estranha construção, não resta dúvida. Por que decidir-se por não sair da guerra, mas ao contrário, desejá-la?

 

A chave para a sua decifração envolve, talvez, compreender o seu ‘para que?’. Qual a finalidade, a intencionalidade aí colocada, nessa progressão de guerras, umas sobre as outras, guerras entre guerras? Difícil, nesse momento, propor mais do que hipóteses, mas entendo que se intenta atuar sobre o modo mesmo de funcionamento da democracia ocidental.

 

Por razões que vão da economia à geopolítica, da ciência à cultura, o que parece estar em curso é uma tentativa de remodelagem da democracia e das sociedades bio-controladas – prefiro esse termo àquele emprestado de Foucault, de biopolítica; ou na verdade, a resolução deste passa hoje definitivamente por aquele, seguindo a progressão apontada já por Deleuze, das sociedades disciplinares para as sociedades de controle.

 

Até aqui, essa transformação parece se apresentar sob o modo de uma interferência comunicativa ou comunicacional sobre a própria democracia, e sobre a sua imanência elocucional, de enunciação. Em suma, a questão seria a de como forjar o paradoxo de uma democracia não-democrática. E não se trata apenas de se poder valorar, ou qualificar negativamente a democracia: age-se sobre a sua forma mesmo, sobre seus fundamentos, antes que sobre os seus modos possíveis.

 

Mas por que tal ação e tal interferência? Em parte da crise semiótica atual, deve-se perceber também, mesmo em caráter de causalidade, a configuração correlata de uma nova mundialização híbrida, mista, polimorfa, sarapintada, ‘poiquílica’. Ou seja, o ‘onde estamos’ inicial parece envolver, mais amplamente, a grande transformação geopolítica em curso. Em especial, o ‘sofrimento’ americano, o seu impasse e aporia ligados à impossibilidade ou ao extremo desconforto em reverter o liberalismo econômico, um dos pilares da economia ocidental e, em particular, da riqueza americana, sobretudo em sua forma nova, neo-liberal. E isso parece cada vez mais inevitável. Pelas suas sucessivas crises, pela ascendência da China, pelas mudanças geopolíticas globais etc. Nesse caso, reverte-se, em seu lugar, a democracia política. Essa operação, no entanto, não pode ser feita às claras, sem com isso evidenciar uma mutação no próprio american way of life. Ela deve se processar dentro de um quadro aparentemente normal, de preservação das instituições, mas sob guerra crítica, informacional. A depauperação democrática se faz aos poucos.

 

A pandemia parece apenas precipitar ou aprofundar um quadro a que já vínhamos assistindo nos últimos tempos, sobretudo em eleições recentes. A sensação de estar encurralado, sem opções, tem sido o ambiente de construção eleitoral habitual por toda parte no ocidente: uma ‘democracia’ do desespero, resfolegante, à bout de souffle. Assim, a condição de poder efetivamente decidir, pedra angular da experiência democrática desde Atenas, está crescentemente tolhida, cancelada. Nunca é demais lembrar desse momento da sua formulação inicial. Por exemplo, na Oração fúnebre de Péricles, recontada por Tucídides. Nela, Péricles considera o que seria a razão de superioridade dos gregos em relação aos demais povos bárbaros. Quanto a seus compatriotas, diz ele que o grego coloca, antes da ação, uma palavra de esclarecimento e de persuasão. E essa palavra não obstaculiza nem atrasa a necessária ação, mas ao contrário, faz com que cada ator só se sinta convicto ou apto para a ação se e quando esclarecido.

 

Pois bem, vê-se claramente que o movimento atual é em tudo o oposto a esse. Trata-se de produzir um cenário em que o agente político, ou mesmo o indivíduo econômico só possa agir ‘desesclarecido’, obliterado, cegado à força de construções impositivas diversas, e portanto essencialmente imbecilizantes, dentre as quais o exemplo mais recente são as ditas ‘fake news’. Somos todos bárbaros, e mal falamos já a língua democrática.

 

Não se deve então descartar que, nessa polêmica aparentemente desvairada a que assistimos no país, testam-se justamente estratégias nesse sentido. Percebem-se as construções diversas, dos tuítes às ‘entrevistas’ com apoiadores e mesmo nos pronunciamentos presidenciais, que visam antes a deixar a sociedade hiper-excitada, tensionada e permanentemente engajada. 

 

Ficam muito claras já algumas posições:

  1. a construção da figura de um inimigo sempre próximo, inimigo qualquer, familiar. E com efeito, já não é possível se sentir à vontade sequer em família, não se consegue manter de forma mais serena sequer os laços e os núcleos familiares. Uma condição sine qua non para a construção da guerra interna, da guerra civil.
  2. busca-se uma desconstrução de toda e qualquer autoridade, inclusive a científica. Universidades, fundações e centros de pesquisa são descritos como improdutivos, mentirosos, ou mesmo como adversários.
  3. os líderes principais aparecem como figuras não-empáticas, ou mesmo como claros desprezadores. O povo, ou boa parte dele, é ruim, desprezível. Traço diferente do nazi-fascismo tradicional, aliás. Nesse caso, não se visa a união nem unidade sociais, mas seu real estresse e esgarçamento.
  4. se as próprias lideranças não transmitem valores claros, e esses tampouco encontram sustentação na ciência e nos diversos saberes, a sensação geral e de profunda instabilidade e desestruturação de toda sorte (política, social, psíquica).

 

Poderíamos estender ainda esses aspectos, mas talvez o mais interessante seja tentar entender quais os efeitos aí visados. Parece-nos que a ideia é de sustentar, pelo maior tempo possível, o quadro de extenuação e catastrofismo político do período eleitoral. A eleição perdura para dentro do governo. É assim nos EUA, é assim no Brasil. O governo não parece de fato governar, mas estar permanentemente defendendo um programa teopolítico (ao mesmo, tempo escatológico e milenarista), açulando a sua militância para um embate em torno dele. Não se vê outro resultado possível senão alguma fratura. No mínimo, um profundo estresse das instituições, balançando de forma anti-democrática o equilíbrio esperado entre os poderes. Uma presidência de choque, de confronto, e de assédio.

 

Em resumo, produz-se um quadro tão flagrantemente desconcertante que o que se visa é talvez forçar o socius a uma situação de Krisis, em que a sociedade deverá necessariamente partir-se, inclinar-se por um lado ou tese, e mesmo romper os seus vínculos comuns com a outra parte. Sob tal democracia de guerra, consegue-se o controle desejado das subjetividades e dos processos de formação de subjetividade, com vistas à preservação de um capitalismo literalmente de fim dos tempos – antiecológico, anticientífico, mortífero.

 

Guerra 4

Por fim, em relação a todo esse quadro, define-se o que eu chamaria ainda de uma quarta guerra: guerra teórica, conceitual, filosófica, e que se mostra já um dos móveis fundamentais do pensamento em nosso tempo. A ela, devemos também prestar máxima atenção.

 

Essa é, possivelmente, a direção que tem tomado Agamben em seus últimos textos. Textos que parecem estranhos, senão até chocantes, em uma primeira leitura. Mas, sobretudo, porque, a seu modo, são também textos em guerra. Contudo, parece-me que o sentido que se pode extrair deles é, no fundo, grandioso, superior. Em meio a toda excitação, toda a comoção da hora (e mesmo diante de toda a desconfortável sensação de submissão que experimentamos sob a pandemia), esses textos parecem procurar celebrar a importância do que eu chamaria de endurança, uma forma última da luta, na vida e por ela.

 

Defino aqui endurança – que não é um conceito próprio a Agamben, mas sim o sentido que empresto a esses últimos textos seus – não apenas como resistência, ou como a capacidade de resistir, mas como a capacidade de resistir até o limite, forçados que estamos pelas exigências máximas de um tempo pandêmico, e, quem sabe, mais ainda, pelas do tempo pós-pandêmico e talvez pós-democrático a que se procura avançar, e que é antecipado por Agamben. Ou seja, não apenas resistir, mas hiper-resistir: a uma sociedade bio-controlada, a um capitalismo de abismo, fanatizado e fascistizante. Endurança, portanto, como uma hiper-resitência. É uma exortação, sem dúvida, e é o que nos cabe. 

 

A impressão é que Agambem mistura aí as suas formulações filosóficas habituais com a sua própria experiência pessoal, existencial: vital. De alguém que não apenas reflete sobre o estado de exceção, mas que vivenciou a experiência do nazi-fascismo, e do pós-guerra na Itália. Nisso tudo, talvez o mais bonito é que essa preocupação venha de alguém que já beira os oitenta anos. Vemos que o fascismo é inesquecível naquilo que evoca, e portanto intolerável mesmo que por apenas mais um dia de vida.

 

Tal postura, que se mostra como uma coragem da velhice, não é sem precedentes na história do pensamento. Penso que ela encontra eco nas palavras de Voltaire, numa carta a um amigo. Ele conta então com setenta e três anos:

“Quanto a mim, fraco como sou, prossigo na guerra até o derradeiro momento, levo uma centena de chuçadas, devolvo duas centenas, e morro de rir. Vejo ao pé da minha porta Genebra incendiada por brigas sem propósito, e morro de rir outra vez; e, graças a Deus, posso ver no mundo uma farsa até quando ela se torna trágica, como às vezes acontece. Tudo se acalma quando se acaba o dia, e tudo se acalma ainda mais quando os dias se acabam’.

 

 

Por Leonardo Maia é professor de Filosofia na UFRJ, e doutor em Filosofia pela PUC-Rio.

 


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Terça-feira, 2 de junho de 2020
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