A homotransfobia matou 329 pessoas no Brasil em 2019
Quarta-feira, 3 de junho de 2020

A homotransfobia matou 329 pessoas no Brasil em 2019

Imagem: Tomaz Silva / Agência Brasil – Manifesto ainda em 2018 pelas vítimas da transfobia no Brasil 

 

Por Cleiton Zóia Münchow

 

329 brasileiros/as morreram em decorrência da homotransfobia que, em 2019, no Brasil, matou uma pessoa a cada 26 horas. Estes dados alarmantes constam no relatório Mortes Violentas de LGBT+ no Brasil -2019 produzido anualmente pelo Grupo Gay da Bahia desde 1981, infelizmente, tais dados não alarmam aos nossos governantes que, muitas vezes, são os verdadeiros vetores da violência homotransfóbica e desejam o aumento do número de mortes ocasionadas por ela.

 

 

Mortífera, a homotransfobia, conforme consta no relatório referido, não escolhe faixa etária, mas atinge especialmente quem se encontra entre os 20 e os 50 anos de idade, não vê a cor da pele, mas, do universo citado, 121 de suas vítimas eram brancas, 90 pardas e 32 pretas. Não respeita profissão, mas profissionais do sexo, professores e estudantes foram as categorias mais atingidas no último ano, respectivamente em números: 38, 24 e 17. 

 

Além do homicídio com faca, arma de fogo, estrangulamento/asfixia, espancamento, pauladas, enforcamento, pedradas, carbonização, tijolada, garrafada, atropelamento, e do suicídio por meio de enforcamento, do jogar-se da ponte ou de um prédio, do envenenamento, a homotransfobia também pode torna suas vítimas, vítimas de latrocínio e complicações relacionadas ao silicone industrial. 

 

Em nenhum lugar estamos a salvo dela, pode nos atingir em casa, na via pública, no matagal ou mata, bar, hotel, motel, rodovia, parque, terreno baldio, sítio, praia, rio ou Serra, nem mesmo no hospital estamos livre de sermos vítimas suas. Em todos os 26 estados e no Distrito Federal foram registradas ocorrência de homotransfobia. Com 50 casos, São Paulo lidera o ranking, 32 na Bahia e 26 em Pernambuco, respectivamente segundo e terceiro lugar em número de ocorrências.

 

É certo que tivemos uma diminuição do número de casos de mortes, 91 a menos que em 2018, mas isso não significa que não devamos seguir nos protegendo dessa complexa rede de violências que, por acidente, também pode atingir pessoas cis-heterossexuais, recorde-se o caso do pai e do filho (heterossexuais) que, por estarem de mãos dadas, foram confundidos com homossexuais e, por isso mesmo, espancados – o pai chegou a perder parte da orelha.[1]

 

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A situação de violência a qual estamos submetidos precisa ser alterada, não queremos seguir morrendo de 26 em 26 horas porque odeiam nossas identidades sexuais e de gênero. No relatório são sugeridas medidas que necessitam com urgência de ações governamentais: “Educação sexual e de gênero em todos os níveis escolares”[2]; “Cumprimento rigoroso das leis aprovadas”[3]; Políticas públicas em diversas áreas que contribuam para “erradicar as mortes violentas e proporcionem a igualdade cidadã à comunidade LGBT”[4];  Investigação diligente e severa por parte da Polícia e da Justiça dos crimes homotransfóbico.

 

Um apelo aos LGBT+ finaliza o conjunto das medidas propostas pelos relatores: “evitem situações de risco de sua própria segurança vital e quando vítimas de qualquer ameaça ou violência, reajam e denunciem”[5]. De todas as medidas sugeridas, atender ao apelo, dado nosso contexto político, é o que se encontra em nosso poder. Cuidar da segurança vital não equivale a viver com medo do assassinato homotransfóbico, o cuidado de si envolve a construção de redes de afetos que nos fortaleçam enquanto comunidade. 

 

LGBT+ do Brasil, uni-vos contra a necropolítica-homotransfóbica reinante aqui e em mais de 70 países nos quais nosso modo de ser é proibido – em alguns deles podemos sofrer prisão perpétua, flagelo ou apedrejamento até a morte. Se, do ponto de vista da lei, em nosso país não é crime sermos LGBT+, entre 1963 e 2018, conforme estudos realizados pelo  próprio Ministério dos Direitos Humanos, engavetados pelo atual Governo Federal, ocorreram 8.027 assassinatos de pessoas LGBT, uma morte a cada 16 horas nos últimos 55 anos e, entre 2011 e 2018, 26.938 casos de violações de direitos foram relatados ao disque 100.[6]

 

 

Cleiton Zóia Münchow é Mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná. Professor de filosofia no Instituto Federal de Educação de Mato Grosso do Sul. Pesquisador do grupo de pesquisa Educação Profissional, Inovação & Interdisciplinaridade


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Notas:

[1] FERRI, Marcelo. Confundidos com casal gay, pai e filho são agredidos em São Paulo. http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2011/07/confundidos-com-casal-gay-pai-e-filho-sao-agredidos-em-sao-paulo.html

[2] OLIVEIRA, José Marcelo Domingo; MOTT, Luiz. Mortes Violentas de LGBT+ no Brasil -2019. Relatório do Grupo Gay da Bahia. 1 ed.- Salvador: Editora Grupo Gay da Bahia, 2020, p.104. https://grupogaydabahia.com.br/relatorios-anuais-de-morte-de-lgbti/ 

[3] Idem, ibidem.

[4] Idem, ibidem.

[5] Idem, ibidem.

[6] SOBRINHO,Wanderley Preite. Brasil registra uma morte por homofobia a cada 16 horas. In:https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/02/20/brasil-matou-8-mil-lgbt-desde-1963-governo-dificulta-divulgacao-de-dados.htm 

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