O esquerdomachismo no teatro de sombras da colonialidade
Quarta-feira, 3 de junho de 2020

O esquerdomachismo no teatro de sombras da colonialidade

BG: Tomaz Silva / Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Cleber Braga

 

Escrevo este texto por constatar o quanto o cruzamento entre machismo e pensamento de esquerda segue sendo naturalizado. Desde as entrelinhas ou atos falhos por onde escapa o contraditório, passando pela naturalidade com que um “camarada” conta com a cumplicidade de outro para a manutenção do privilégio, chegando ao óbvio dos discursos/práticas de ódio, intriga-me como amigos, colegas, conhecidos – bem como outros sujeitos abjetos de quem nunca quis outra coisa senão distância – reencenam modelos de masculinidade tóxica, cisexista, LGBTfóbica, abusiva, ao mesmo tempo em que proferem discursos anti-capitalistas, anti-racistas, ecológicos, e favoráveis a uma reparação histórica no contexto da desigualdade social brasileira – com os quais frequentemente estou de acordo, convertendo esta escrita também em uma espécie de auto-crítica.

 

 

Devo dizer que o machismo não é um privilégio da esquerda, configurando-se em um modelo subjetivo ancorado na manutenção do modelo social que privilegia o homem (patriarcado), calcado historicamente no binarismo e na hierarquização entre os gêneros. Entendo, como a pesquisadora Rita Segato¹, que o machismo tal qual experienciamos no contexto sudaca é mais um dos desdobramento da colonização. Ao expor o homem colonizado à humilhação pública, com a violência característica do modo de produção escravista, o homem branco não apenas impunha o modelo de patriarcado europeu, mas impulsionava o surgimento de um patriarcado de alto impacto, fruto de uma reação à violência sofrida. Deste modo, a mulher, agora convertida em esposa – que com os filhos passa a compor parte da propriedade privada do marido -, é vitimada por esta espécie de vingança do homem colonizado, igualmente a outros corpos dissidentes, como os de lésbicas, gays e pessoas trans, feminilizados por extensão.

 

Neste sentido, o machismo é sempre um tipo de manutenção do instituído, nada podendo trazer de revolucionário. Ele é uma das bases da defesa pelo regresso a um mundo seguro, onde cada coisa esteja em seu lugar devido. E é tão forte esta nostalgia, a ponto de justificar, no meu entendimento, a eleição de alguém como Bolsonaro. Visivelmente despreparado no que diz respeito ao debate político, o então candidato à presidência basicamente não apresentou outra proposta além da reativação do classismo racializado e patriarcal característico da sociedade brasileira, por meio de seus inflamados discursos de ódio. E a performance de seu machismo raivoso, no contexto de economia globalizada, sintetiza por essas terras aquilo que Suelly Rolnik² chamou de neoliberalismo neoconservador – mostrando-nos quão fundamental é este debruçar sobre o aparentemente contraditório para qualquer pessoa que queira pensar o mundo hoje.  

 

O curioso é que práticas machistas persistam em sujeitos defensores de perspectivas “revolucionárias”. Desde aqueles mais óbvios, que saúdam os “camaradas” com antigos bordões passadistas, numa espécie de mímica que torna evidente a nostalgia pelos tempos idos, até os mais insuspeitos, a exemplos de homens negros ou gays que podem sustentar este modelo cristalizado de masculinidade, de forma consciente ou não.

 

Leia também:

É preciso ensinar o que é machismo e masculinidade tóxica para enfrentar a violência domésticaÉ preciso ensinar o que é machismo e masculinidade tóxica para enfrentar a violência doméstica

Eis aqui uma questão urgente: o esquerdomachismo, tal qual compreendo nesta escrita, não tem a ver apenas com o que se diz, mas sobretudo com o como a coisa é dita ou feita. Ele é ação, performance: o tom de voz que silencia, a corporeidade expansiva típica de quem se move para ganhar território, a assertividade inabalável – que ao final não é outra coisa senão uma necessidade de autoafirmação e, por consequência, uma incapacidade de aprender, de se atualizar -, a ausência deslavada de auto-crítica que sustenta a ruptura entre desejo e ética somada, ao final, o indefectível falocentrismo, não deixam dúvida: o esquerdomacho é um simulacro do colonizador, projetado por contraste como um fantoche de teatro de sombras.

 

Por isso o esquerdomacho não intersecciona. Ora, a intersceccionalidade é a criptonita deste herói anacrônico. Só reduzindo todos os problemas à luta de classes ele pode escapar da autocrítica a sua conduta: o restante será interpretado estrategicamente como subjetividade burguesa, pós-moderna. Ou, em outra variação, sua condição subalterna será evocada para contradizer a própria contradição, sendo que a militância política, vez ou outra, pode servir de blindagem às ameaças a sua imagem benevolente. De um modo ou outro, o esquerdomachismo não é capaz de ultrapassar o pensamento limítrofe, camuflando-se sob hiperidentidades como modo de sobreviver a qualquer perspectiva fronteiriça.

 

Dito assim parece algo óbvio. E é. O que não impede que passe desapercebido ou simplesmente naturalizado por sujeitos da esquerda que reencenam o falocentrismo sem se dar conta. Ou ainda, de forma mais consciente, sujeitos que evocam o patriarcado de modo tático, enquanto capital político capaz de ampliar a capacidade comunicativa com as massas – sendo o populismo de esquerda um exemplo explícito desta afirmação. 

 

Seja no trabalho não remunerado de mães e esposas, bem como de qualquer outro corpo submetido às feminilizadas atividades domésticas como limpar e cozinhar – esses trabalhos “menores” que homens detestam fazer, a menos que sejam reconhecidos como MasterChefs –, seja no mal remunerado trabalho das empregadas domésticas e diaristas, a dificuldade do intelectual de esquerda em reconhecer que grande parte do tempo empreendido na produção de sua genial obra se deve a espoliação do trabalho feminino ou feminilizado, é a mesma dificuldade por encontrar alternativas ao engessado e abusivo modelo de masculinidade que homens conservadores, de direita  ou ultradireita, também praticam – a diferença é que desses últimos a gente já não espera mais nada. 

 

Neste inusitado jogo de espelhos, termos como “transformação social”ou “revolução”, na boca de um esquerdomacho, tem o peso da defesa pela liberdade de expressão no discurso de alguém como Bolsonaro. Ainda que inflamadas, tais práticas discursivas sequer arranham o instituído. Seria desonesto nivelar práticas fascistóides com militâncias sociais, minoritárias, sendo outro o objetivo desta escrita: o que aponto aqui é como perspectivas extremas, aparentemente antagônicas, podem atuar na reencenação da colonialidade desde a reconstituição da figura do colonizador. E o quão incompatível é a conduta machista com discursos/práticas de sujeitos de esquerda. 

 

Ou, pelo menos, quão incompatível deveria ser.

 

 

Cleber Braga é doutor em Cultura e Sociedade pela UFBA,  professor do curso de Licenciatura em Teatro e do curso de Especialização em Estudos Teatrais Contemporâneos na UNIFAP, e do Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais da UFSB. Também é diretor teatral e produtor cultural.


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Notas:

[1] SEGATO, Rita Laura. Gênero e colonialidade: em busca de chaves de leitura e de um vocabulário estratégico descolonial. E-cadernos ces, [S.l.], n.18, p. 106-131, 2012. Disponível em: <https://journals.openedition.org/eces/1533>. Acesso em: 21 mai. 2020.

[2] ROLNIK, Suely. Esferas da insurreição: notas para uma vida não cafetinada. São Paulo: N-1; edições, 2018.

Quarta-feira, 3 de junho de 2020
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend