Comunicação é a alma
Segunda-feira, 8 de junho de 2020

Comunicação é a alma

Imagem: Divulgação – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Lucas Almeida Supelete

 

Em qualquer jogo, perder faz parte da competição. Na democracia não é diferente, e temos o privilégio de competir periodicamente. E assim acontece com o jogo político: uma das partes sai derrotada, enquanto a outra triunfa seus planos de poder. Cabe aos derrotados rever seus erros a tempo de disputar com chances reais de vitória a próxima partida.

 

 

Vemos, em meio a uma pandemia causada pelo novo Coronavírus, os planos de poder do vencedor da eleição presidencial de 2018 impor sua vontade, mesmo que seja repleta de absurdos e contradições, tais como subestimar os efeitos da pandemia[1] e supostas interferências em investigações para seu próprio benefício.[2]

 

Faz parte do jogo e a esquerda (entendida como a parte derrotada nas eleições de 2018) deve analisar a si mesmo e entender seus erros, entre eles a comunicação. Foi em tempos de Facebook, WhatsApp[3], Twitter, entre outros meios alternativos de comunicação que as informações surfaram em uma onda digital gigantesca que teve grande impacto no poder de escolha dos votos. Conclusões de pesquisadores já nos alertavam sobre essa onda e, sem sucesso, a esquerda não soube usá-la de maneira tão eficiente quanto os vencedores. A saber: “O uso desses expedientes no período entre as eleições tem mostrado que é capaz de moldar a opinião pública a um custo que é bastante reduzido perto das dimensões de uma campanha eleitoral”.[4]

 

Disputas internas nos diversos campos da esquerda, inclusive de partidos, levam ao distanciamento do foco na comunicação, que é, como vimos, uma das principais ferramentas de angariar votos. Pautas identitárias ocupam grande parte do tempo e empenho da esquerda. Não digo que não seja importante, mas, em tempos de negação da ciência, assuntos como segurança pública, emprego, educação, dentre outros devem estar no topo da lista com a devida prioridade. Recentemente[5], Ciro Gomes nos alertou o que fazer: “Restabelecer na cabeça do povo a verdadeira agenda que não é desses assuntos identitários, é emprego salário, serviços essenciais de educação, saúde, segurança…” e nesse mesmo caminho cravou: “Se a gente achar que o problema está no povo, nós não vamos entender nada”.

 

É preciso, portanto, entender o povo para saber dialogar com ele. A esquerda (nesse caso, o PT precisamente) veio perdendo progressivamente sua margem de voto nos segundos turnos das eleições desde 2010 (56,05% em 2010; 51,64% em 2014 e 44,87% em 2018). As campanhas publicitárias – milionárias como de fato são – de alguma forma sucumbiram ao novo método do então candidato da extrema-direita nas eleições presidenciais de 2018. Ele soube falar a língua do povo e, mesmo com campanhas publicitárias bem mais baratas, angariou votos em massa da classe trabalhadora e de baixa renda que tanto a esquerda insiste em dizer ser a guardiã e sua chanceler exclusiva. Um exemplo disso é o resultado das votações do segundo turno da eleição presidencial de 2018[6] no bairro Da Penha em Vitória/ES, conhecido como o mais carente da capital. Nele, o candidato da extrema-direita obteve 52,10% dos votos contra 47,89% do candidato da esquerda. Como explicar?

 

Leia também:

A ordem de matar e de fazer viverA ordem de matar e de fazer viver

Através do livro “Amanhã Vai Ser Maior” podemos entender melhor a crise de comunicação da esquerda e as vitórias da extrema-direita. Diz a autora sobre um erro da esquerda:

 

“Uma grande parte da esquerda partidária e burocratizada brasileira comete um erro básico: acredita ser, por geração espontânea ou empatia natural, a porta-voz dos interesses dos mais pobres, bem como julga conhecer suas necessidades e estar preparada para representá-los. […] A esquerda, às vezes, corre o risco de ser engolida por sua própria soberba intelectual e nostalgia”.[7]

 

É preciso dar voz aos novos influenciadores do campo progressista e ouvir estratégias novas que surgem a cada dia; adequar-se aos novos meios de comunicação e saber usar adequadamente essas novas ferramentas; voltar-se para base, para as ruas das periferias e ouvir as novas necessidades dos mais carentes. Não adianta ter o sentimento de derrotismo. O velho proselitismo da esquerda deve ser abdicado. A desculpa antiquada de que a esquerda estará no lado certo da história quando o mal vencer é jogar erroneamente o jogo político. É elementar jogar para ganhar, e, para isso, saber que a comunicação é a alma.

 

Sobre isso, em 2018, Mano Brown avisou:

 

“Eu não gosto do clima de festa. A cegueira que atinge lá atinge nós também. Isso é perigoso. […] Se em algum momento a comunicação do pessoal daqui falhou [do PT], vai pagar o preço porque a comunicação é alma. Se não está conseguindo falar a língua do povo, vai perder mesmo. Falar bem do PT pra a torcida do PT é fácil, tem uma multidão que não está aqui que precisa ser conquistada ou a gente vai cair num precipício. […] Não vim aqui para ganhar voto porque eu acho que já está decidido. Agora, se falhou, vai pagar. Errou vai ter que pagar mesmo. Não gosto do clima de festa. O que mata a gente é a cegueira e o fanatismo. Deixou de entender o povão, já era. Se nós somos o Partido dos Trabalhadores, o partido do povo, temos que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta para a base e vai procurar saber”.[8]

 

Optar por estratégias novas – que eclodiram após as manifestações de junho 2013 e fez surgir novas formas de comunicação e entendimento sobre política – talvez seja a chave pra esquerda renovar o fôlego e jogar competitivamente. Vozes progressistas que insurgem na internet e com capacidade de influenciar milhões de jovens devem ser levadas em consideração pelos caciques dos partidos tradicionais, como bem vemos a aproximação de Ciro Gomes com o youtuber Felipe Neto.

 

 

Lucas Almeida Supelete é mestrando em Política Social pela UFES, graduado em Direito pela FDCI e policial militar no Estado do Espírito Santo


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Notas:

[1] Disponível em : <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/03/mesmo-apos-6513-mortes-bolsonaro-diz-que-crise-do-coronavirus-nao-e-isso-tudo-que-dizem.shtml>. Acessado em 26 de maio de 2020.

[2] Disponível em : <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/05/16/defesa-de-moro-troca-no-gsi-reforca-tese-de-interferencia-de-bolsonaro-na-pf.htm>. Acessado em 26 de maio de 2020.

[3] Disponível em : <https://www.dw.com/pt-br/o-poder-do-whatsapp-de-manipular-eleitores/a-44916271>. Acessado em 26 de maio de 2020.

[4] Ortellado, P.; Ribeiro, M. M. Polarização e desinformação online no Brasil. Friedrich-Ebert-Stiftung (FES) Brasil, análise nº 44, 2018.

[5] Entrevista concedida pelo Canal de Youtube Ilha de Barbados, dia 14/05/2020.

[6] Disponível em : <http://www.tre-es.jus.br/eleicoes/eleicoes-anteriores/eleicoes-2018/resultados>. Acessado em 26 de maio de 2020.

[7] Pinheiro-Machado, Rosana. Amanhã vai ser maior: o que aconteceu com o Brasil e as possíveis rotas de fuga para a crise atual. São Paulo: Planeta do Brasil, p.130-132, 2019.

[8] Mano Brown em comício do PT no dia 23/10/2018.

Segunda-feira, 8 de junho de 2020
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend