O tempo passou e a vida da população negra continua igual
Segunda-feira, 15 de junho de 2020

O tempo passou e a vida da população negra continua igual

Imagem: Rovena Rosa / Agência Brasil – Edição: Gabriel Pedroza / Justifcando

 

 

Por Mariana Batista de Jesus

 

O presente texto, foi inspirado na obra: “Balas e prosa”, em que a temática é expor a resistência das pessoas negras frente as desigualdades sociais e a violência. Ademais, quero propor a todos, em como o racismo discrimina, segrega pessoas, e em casos mais extremos, levam a morte. Em consequência, promovem nas famílias uma saudade enorme dos seus entes queridos, desestruturando em alguns casos pela falta do (a) falecido (a).

 

O ano de 1888, foi marcante na história brasileira, onde na teoria negros estariam livres, não sendo mais escravos de grandes latifundiários. Um documento célebre, sagaz, em que houve muitas comemorações, mas, quando caíram em si, reparam que os negros não tinham para onde irem, visto que, sua casa estava em outro continente, em consequência, ficaram novamente à mercê dos fazendeiros. Alguns deslocavam para os centros urbanos, ocupando profissões de barbeiros, engraxates, mas nada prosperavam… Se foi outorgado a lei abolicionista, então por qual razão, os negros se encontravam em posições vistas como subalternas? A resposta é pequena, mas complexa: pela falta de infraestrutura social e empatia dos governantes, para com, as pessoas negras.

 

A revolução industrial, do século XIX, promoveu o êxodo rural, onde a economia se localizava nos centros urbanos, que, assim como acontecia na Inglaterra, fora idêntico no Brasil. Em solos brasileiros, a revolução foi um pouco diferente do que nos países estrangeiros, pois foi nesse período que surgiu as favelas, onde os trabalhadores viriam para trabalhar nas industrias, fazia um cubículo para ser a sua casa e abrigar a sua família. Esses barracos, que abrigavam as famílias dos trabalhadores, eram um espaço muito apertado, e sem nenhuma infraestrutura. Em questão sanitária, a falta de infraestrutura corroborou para a proliferação de doenças das mais diversas, ceifando a vida e promovendo enfermidades nos moradores locais. Vale destacar, que o Estado ficou apenas observando a formação de um “novo bairro”, não se preocupando se havia idosos ou crianças, mas sim, se eram pessoas saudáveis para contribuir na economia.

 

O tempo passou, e a vida da população negra continua igual ao tempo de escravidão, a diferença é que, hodiernamente, os meios para a propagação de violência contra o povo negro ganharam novas faces e novos meios de tortura. É o que acontece com a certidão de nascimento, onde são raras as crianças registradas como negras, a maioria são vistas como brancas ou pardas, mesmo que após o nascimento seu fenótipo ser de afrodescendentes. São métodos para embranquecer a comunidade negra, para assim esquecer de sua origem e ter abstinência de sua cultura. Outrora, para essa criança crescer e se sentir “aceita” ou até mesmo “incluída”, devia ter no seu registro de nascimento a palavra ´´branco“.

 

No parágrafo anterior, foi abordado uma violência velada contra a população negra, diferentemente das expressas, explicitas, em que as pessoas veem, mas continuam imóveis, pelo fato de ser apenas mais um negro. O corpo negro virou objeto de nadificação, onde seu emprego não importa, seus sonhos não importam, sua família não importam, sua vida não importam, mas se ele (a) falar, isso importa, pois, é uma grande ameaça. Foi o caso da vereadora carioca Marielle Franco, a qual defendia a população negra e lutava para mais espaço de fala nessa comunidade, quando foi brutalmente assassinada, juntamente com seu motorista Anderson Gomes. São crimes emblemáticos, que fazem a população brasileira pensar a violência sobre o viés negro, mas e quantos morreram antes da vereadora, e quantos ainda vão morrer? Talvez agora enquanto está lendo as estatísticas aumentaram…. A cada 23 minutos, uma pessoa negra morre no Brasil, sem contar as mulheres negras que são as maiores vítimas da violência doméstica, dos feminicídios, dos partos sem anestesias e entre outros modos de tortura. Como foi dito anteriormente, a violência contra o povo negro ganhou uma nova face, mas o desejo do genocídio continua enraizado, os negros são maioria em questão populacional, e também, são a maioria dos que perdem a vida.

 

O assunto que será abordado agora, é de extrema comoção e de abalo psicológico, trata-se da vida. Quando os noticiários informam que mais um homem foi assassinado ou atingido por uma “bala perdida”, os repórteres logo perguntam aos policiais: “A pessoa que está ali no chão, tinha alguma passagem pela polícia?”. Como se isso justificasse o fato de estar ali no chão, com o sangue escorrendo no meio fio, e a viatura da polícia presente, mostrando que houve um ato ilícito. A vida que estava no asfalto, tinha sonhos, medos, como qualquer outra pessoa, como pode ser citado o exemplo de Ágatha Félix, que foi vítima de bala perdida, onde seu sonho era ser uma super-heroína, e foi, mas, a batalha que não venceu foi a da bala perdida, que infelizmente ceifou sua vida. Será que as passagens policiais poderiam explicar a morte dela? Em controvérsia, com o filósofo Maquiavel, os fins não justificam os meios.

 

Quando um corpo é enterrado vítima da violência, são enterrados os sonhos de todos os membros da família, é enterrado o desejo de viver, o desejo de ser uma pessoa melhor, apenas resta um vazio que é preenchido pela dor do luto. Tamanha dor que carregam as mães, as filhas, as esposas de homens que entraram mais uma vez na estatística da violência, uma verdadeira guerra civil de brasileiros, que desde o século XVI é manchado de sangue, de tortura e fadiga, contra a população negra.

 

Vale destacar, que as balas perdidas encontram corpos, como é o caso do músico carioca Evaldo, o qual estava juntamente com sua família, quando foi alvejado por 250 tiros, em que 80 atingiram o carro que estava, levando a óbito no local. A justificativa foi que se confundiram com traficantes. Confundiram a cara, confundiram o guarda-chuva que estava presente no carro, confundiram o automóvel, mas não confundiram a sua pele. O genocídio se faz muito presente na população negra, que virou até rotineiro, um negro a mais outro a menos não faz diferença, visto que sua morte vai trazer uma comoção pública, mas que vai durar apenas algumas horas ou dias e logo logo, cai no esquecimento. Ademais, as vidas negras são pessoas, são sonhos, mas acima de tudo humanos. E sim, elas importam.

 

Em questão da criação dos jovens negros, são criados com preceitos educacionais do medo, ou seja, a mãe instrui seus filhos a nunca correr mesmo estando atrasado, e a filha a sempre aparecer mais educada possível, sempre tentar se incluir na cultura do branco, alisando o cabelo para ficar mais parecida possível, por medo dela sofrer xingamentos e preconceitos. O racismo é institucionalizado na vida dos negros, seja no âmbito familiar, universitário e nos empregos. Nas universidades, está latente quando um negro ocupa um curso visto que é apenas para pessoas brancas, ou quando são taxados comentários: “Passou por cotas, né?!” “Como assim você tirou 10 na matéria x ou y?”. As pessoas sempre irá duvidar da capacidade do negro, seja ele o mais profissional, o mais capacitado, me remoto à frase de Angela Davis “não basta ser contra o racismo, tem que ser antirracista”, não adianta dizer que apoia os negros nas universidades, mas se incomoda quando tiram uma nota maior da turma. Na área trabalhista, 95% dos negros ocupam cargos, vistos como, subalternos, promovendo ainda mais a desigualdade social. Se você observar quantos negros são cirurgiões, juízes, advogados, engenheiros, delegados, irá reparar que é uma parcela baixa em comparação com o branco. Outro fator latente, é o desemprego, muitas negras estão desempregadas por não corresponder ao perfil da empresa. Ela pode ser mais qualificada, mas não tem os devidos requisitos. 

 

E por fim, quero relatar uma visão utópica que tenho para o futuro, acredito que ver um juiz negro não será algo espantador, mas comum. Ver jovens negros se formando, e sendo a maior parte da comunidade universitária, promovendo pesquisas, eventos e muitos debates. E espero que o genocídio seja substituído, por empatia, amor, e que as balas se transformam, em esperança, solidariedade e altruísmo. Uma visão deveras utópica, mas seguindo sempre a filosofia do UBUNTU, “eu sou porque nós somos”, para mostrar que o negro tem seu lugar no espaço social e que é possível conquistar mais espaço de fala para essa comunidade que sofre a mais de 300 anos.      

 

 

Mariana Batista de Jesus é graduanda de Direito pela Universidade Estadual de Maringá.


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