Manipulação de dados e a reabertura da Economia
Quinta-feira, 18 de junho de 2020

Manipulação de dados e a reabertura da Economia

Imagem: Antonio Cruz / Agência Brasil – BG: Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Luís Delcides R. Silva

 

De um lado o Governo Federal com seus arranjos para maquiar dados e omitir números de mortes; de outro a Agenda setting da reabertura da economia e a divulgação de casos de covid-19 como notas de rodapé.

 

 

Mais uma vez o Governo Bolsonaro manipula e omite dados para a imprensa. Como sempre, com seu discurso populista, ao conquistar populares tomados pela nuvem negacionista ocupante dos cérebros incautos, simples e de baixíssima instrução, o Alcaide da Alvorada juntamente com os coleguinhas militares conseguem articular um novo horário para divulgação de dados: às 22h00.

 

A imprensa ficou chocada ao ver e começa a movimentação entre os ministros do STF e vários entidades  brasileiras criticaram a omissão de dados acerca dos casos de Covid-19 pelo Governo Federal. Após ficar fora do ar durante várias horas da sexta-feira, 5 de junho, o site do Ministério da Saúde publicou no dia seguinte, 06,sábado, somente as notificações registradas  nas últimas 24 horas, segundo informações do EL Pais[1].

 

O Presidente da República defende a mudança na comunicação dos dados sobre a covid-19 no Brasil. Para ele, além de indicar que a maior parcela da população não está com a doença, não é retratado a realidade momentânea da situação no país.

 

 Segundo as informações do El Pais, além da supressão de dados referentes a pandemia, o Ministério da Saúde tornou cada vez mais raras as entrevistas coletivas técnicas onde os profissionais da pasta esclarecem acerca da pandemia aos jornalistas presentes. De acordo com os membros do órgão governamental, o atraso dos boletins é para evitar a chamada “subnotificação e inconsistências”.

 

Logo, os números brasileiros sobre o novo coronavírus sumiram também por algumas horas da plataforma da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos, que monitora cerca de 188 países todas as  movimentações referentes a pandemia.

 

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“TV Funerária”

É incompreensível ver um ser humano falar tanto em “Deus acima de todos”, “defesa da família, da moral e dos bons costumes”, “cidadãos de bem”, carregar tanto ódio de um conglomerado de comunicação como são as Organizações Globo. A função social do jornalismo é ir atrás dos fatos e da notícia. Se a pauta é mortes por Covid-19, estes precisam ser divulgados.

 

Ao ser questionado por um repórter da CNN Brasil, segundo informações do jornalista Maurício Stycer, colunista  do UOL[2],  sobre o novo horário de divulgação dos números sobre a pandemia, o Presidente responde com desdém: “ Acabou matéria no Jornal Nacional”.

 

Em seguida, após perguntar para qual veículo o repórter trabalha, Bolsonaro acrescenta: “ É para pegar o dado mais consolidado. E tem que divulgar os mortos no dia. Ontem , por exemplo, dois terços dos mortos eram de dias anteriores. Tem que divulgar o do dia”. E é enfático: “Não interessa de quem partiu a ordem. Acho que é justa essa ideia da noite, sair o dado completamente consolidado”.

 

A Rede Globo, poucos minutos após o encerramento do Jornal Nacional, interrompeu a exibição da novela “Fina Estampa” para apresentar um plantão, comandado por Willam Bonner, com os dados atualizados sobre a Covid-19 no Brasil, segundo o Ministério da Saúde, houve 1005 mortes nas últimas 24 horas do dia 5 de junho e totalizando 35.025, óbitos.

 

É importante ressaltar sobre o dever de informar amparado no art. 220 da Constituição Federal e não adianta o Presidente da República desdenhar de dados super importantes em relação a pandemia. A informação traz segurança e o mínimo de referenciais para a população se precaver e tomar as providências cabíveis quanto as próximas ações.

 

Para o Ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, em matéria do portal UOL[3] fez duras criticas ao fato do Ministério da Saúde, a mando do Presidente Bolsonaro ter alterado dados sobre a pandemia de Covid-19 e é enfático ao dizer: “a manipulação de estatísticas, é manobra de regimes totalitários”.

 

Reabertura “gradual”

A novidade é a reabertura do comercio nas cidades. Mesmo com funcionamento restrito, poucas horas, filas para entrar na loja, o “fogo” e a vontade imensa de comprar aquela peça faz parte do ânimo do homobrazilis.

 

Uma reabertura com data e hora marcada. Coincidentemente bem numa época festiva, data comemorativa. Como será o dia 12, controlar o ímpeto dos casais apaixonados, cheios de amor e as relações extra, eventuais, corre ou não corre risco em meio a uma pandemia e a um vírus desconhecido, altamente contagioso e perigoso?

 

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O noticiário matinal , ao fazer uma centimetragem do tempo de abordagem de assuntos, 1h20 foi sobre a reabertura, com flashes, boletins ao vivo com transmissão em frente a shopping fechado e a expectativa da reabertura. Outros repórteres cobriam trânsito e fluxo de passageiros no transporte público, especialmente para tratar sobre a lotação e como as viagens de ônibus e trem estão sendo feitas. Gente abarrotada, em pé, sentadas, mantendo distanciamento?

 

O mostrado na TV e na vida real são as viagens em pé, muita gente aglomerada, ônibus  e trens lotados. Os dados sobre a doença ficaram apenas no rodapé com a divulgação de números e nada mais e entre várias notícias sobre retomada gradual, que de “gradual” não tem nada, há um ou dois especialistas dando “pitacos” sobre os riscos dessa retomada.

 

Não dá para ver com bons olhos essa retomada. Há uma ânsia muito grande para cobrir prejuízos,vender, lucrar. Outros pela vontade de sair de casa, ver gente. Há um clima bem pesado e as expectativas são as mais densas, a ponto dos riscos tornarem-se muito maiores. Enquanto isso, leitos de hospitais se esgotam e não dão conta do imenso número de infectados e as testagens, ah, as testagens… Agora a promessa é o desenvolvimento da vacina juntamente com o Governo Chinês, de acordo com as informações do Portal R7[4] e os testes iniciam em julho. Caso sejam bem sucedidos, a produção será feita em larga escala em 2021. 

 

A “bola da vez” 

Um termo mais popular para fazer uma alusão a teoria do Agenda Setting. Nascida como uma hipótese  na década de 1970,  a partir da pesquisa de dois professores americanos da Universidade da Carolina do Norte Maxwell McCombs e Donald L Shaw, estes confirmaram que os meios de comunicação agendariam os temas mais importantes a ser considerados pelos cidadãos. 

 

A função de agendamento foi definida pelos dois pesquisadores americano pela capacidade dos meios de comunicação em dar ênfase em determinado tema e pelos indivíduos incluírem nesse tema  em sua lista de prioridades após a influência recebida pelo meio de comunicação. 

 

Portanto, os cuidados preventivos deram lugar aos resultados e números. A preocupação é apenas com números e volta gradual a atividade econômica . Como diz um senhorzinho em uma fila de banco “ Pare de se preocupar! Todo mundo vai pegar e todo mundo vai morrer! Na empresa onde trabalho todo mundo pegou a doença!” . O negacionismo misturado ao conformismo trilha junto com a agenda imposta e a volta ao “novo normal” que para alguns , de novo não tem nada. 

 

 

Luís Delcides R. Silva é estudante de Direito pela FMU, pós-graduado lato-sensu em Marketing e Comunicação Integrada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Graduado em Jornalismo pela FIAM-FAAM. Membro dos grupos de pesquisa:  Direito, Ética e Democracia, Globalização das Relações Internacionais Privadas e Crimes Virtuais.


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Notas:

[1] NOVAES, Marina. Governo Bolsonaro impõe apagão de dados sobre a covid-19 no Brasil em meio à disparada das mortes. El País. Sábado, 07 de junho de 2020. Disponível em :< https://brasil.elpais.com/brasil/2020-06-06/governo-bolsonaro-impoe-apagao-de-dados-sobre-a-covid-19-no-brasil-em-meio-a-disparada-das-mortes.html> Acesso em 11 de junho de 2020.

[2] STYCER, Mauricio.’Acabou matéria no JN”, diz Bolsonaro sobre horário de dados da Covid-19. sexta-feira 05 de junho de 2020. UOL. Disponível em: <https://tvefamosos.uol.com.br/colunas/mauricio-stycer/2020/06/05/acabou-materia-no-jn-diz-bolsonaro-sobre-horario-de-dados-do-coronavirus.htm> Acesso em 11 de junho de 2020.

[3] MELLO, Igor. Gilmar Mendes: Esconder dados de coronavirus é “manobra de regimes totalitários”. Sábado, 06 de junho de 2020. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/06/06/gilmar-esconder-dados-de-coronavirus-e-manobra-de-regimes-totalitarios.htm> Acesso em 11 de junho de 2020.

[4] MELLIS, Fernando. SP começa a testar vacina contra coronavirus em humanos em julho. Portal R7. São Paulo, 11 de junho de 2020. Disponível em:< https://noticias.r7.com/saude/sp-comeca-a-testar-vacina-contra-coronavirus-em-humanos-em-julho-11062020> Acesso em 11 de junho de 2020.

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