O Racismo Do Discurso “Todas As Vidas Importam”
Quinta-feira, 18 de junho de 2020

O Racismo Do Discurso “Todas As Vidas Importam”

BG: Marcelo Camargo / Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Bruno Antonio Barros Santos

 

O filósofo e jurista, Silvio Almeida, no seu livro “Racismo Estrutural”, diz que “as instituições são apenas a materialização de uma estrutura social ou de um modo de socialização que tem o racismo como um de seus componentes orgânicos. Dito de modo mais direto: as instituições são racistas porque a sociedade é racista.”. Dessa forma, em relação ao racismo estrutural, ele afirma que “o racismo é uma decorrência da própria estrutura social, ou seja, do modo ‘normal’ com que se constituem as relações políticas, econômicas, jurídicas e até familiares, não sendo uma patologia social e nem um desarranjo institucional.”.

 

Nesse sentido, dentro da chave de análise do racismo estrutural, ocorreu o brutal assassinato de George Floyd, por um policial branco, nos EUA. E foi nesse contexto que o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) voltou a ter enorme visibilidade. Além da explosão de manifestações antirracistas nos EUA e também no Brasil, as hashtags #BlackLivesMatter e #VidasNegrasImportam foram disseminadas em diversas mídias sociais (Instagram, Facebook, Twitter), chegando a ficar, inclusive, entre as hashtags mais importantes dos Trending Topics do Twitter.

 

Nas mídias sociais que costumo frequentar, observei uma conscientização muito grande das pessoas que, além de postarem as referidas hashtags, ainda compartilharam vídeos e textos de autoras e autores negros, bem como alertaram para a escalada da violência policial contra a população negra. Confesso que me surpreendi com essa atitude de algumas pessoas que, outrora, adotavam um discurso negacionista em relação à existência do racismo no Brasil.

 

Entretanto, aquele rompante de conscientização foi atravessado por uma “reação” (leia-se, na verdade, visão reacionária) profundamente incomodada com a visibilidade das hashtags #BlackLivesMatter e #VidasNegrasImportam, materializando-se na viralização de um contraponto para marcar posição: a disseminação da hashtag #AllLivesMatter (Todas as Vidas Importam), nas mídias sociais. Ora, a princípio, uma pessoa simples e de boa-fé poderia imaginar que essa hashtag seria inofensiva e até se perguntar: “Quem não concorda que todas as vidas importam?”.

 

Daí a importância de se exercer a criticidade, para se enxergar o dito e o não dito, nos discursos, ou o dito pelo não dito. Numa perspectiva foucaultiana, o poder não é algo que está estacionado no topo de uma sociedade ou cristalizado nas instituições; o poder circula entre nós, já que, de forma permanente, somos polos que reproduzem, sofrem e exercem relações de poder. É nessa abordagem foucaultiana que se percebe a construção social de um saber-poder, que é racista na engenharia discursiva, com os seus efeitos práticos de manutenção de uma estrutura de privilégios, controle, disciplina e normalização.

 

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Nesse viés, o reacionarismo, quando se utiliza da hashtag #AllLivesMatter (Todas as Vidas Importam), não o faz de forma inocente, pois tem método e propósito próprios. Isto porque a intenção dessa produção discursiva é fazer com que o receptor da mensagem pense de determinada forma, mas não necessariamente tenha que revelar esse discurso oculto a outras pessoas. Assim, nessa construção discursiva, o não dito, o indizível, o não confessável (publicamente) é, simplesmente, a enunciação de um “Eu não estou nem aí para o racismo, isso não existe, odeio esse politicamente correto, que coisa chata, todos são humanos e iguais!”.

 

Dessa forma, fazer o emprego de “Todas as Vidas Importam” em contraposição a “Vidas Negras Importam” – num contexto de manifestações antirracistas, que tentam dar visibilidade ao racismo estrutural – é usar uma manobra falaciosa para diluir, no todo, as desigualdades (em seus vários aspectos) e os alvos preferenciais de um sistema ostensivamente racista. Denominaria, portanto, essa manobra discursiva de falácia da diluição da parte que sofre no todo abstrato. Isto é, quando se diz “todas as vidas”, parte-se do pressuposto de que todas as pessoas ou são atingidas da mesma forma ou participam uniformemente de uma comunidade universal de proteção. E, no todo, essa parte que sofre fica perdida e sem visibilidade no sofrimento, como se as diferentes experiências fossem homogeneizadas num todo indolor. Isso é a negação da diferença.

 

Tal manobra falaciosa – que anda no leme do negacionismo do racismo – é empregada no Brasil, quando, também, se diz que não deveria haver o Dia da Consciência Negra, mas o Dia da Consciência Humana. Assim como, quando se levanta o espantalho do “racismo reverso” que coloca no mesmo grau estrutural de sofrimento um branco ser chamado de palmito e um negro ser chamado de macaco. 

 

Em outras discussões atinentes às minorias, é a mesma lógica falaciosa que legitima a construção do Dia do Orgulho Hétero. Além disso, outro exemplo dessa diluição da desigualdade, nesse todo abstrato e insensível, encontra-se na base do discurso da meritocracia (todos seriam iguais, e que vença o “melhor”, sem considerar a gritante estrutura excludente de sociedade).

 

Portanto, caro receptor de boa-fé, e que está temporariamente iludido diante do bombardeio de operadores discursivos da manutenção do sistema racista, por meio de mensagens, é hora de recuar e refletir. É hora de reconhecer a existência de privilégios de quem não é negro; é hora de enxergar a opressão que os negros sofrem; é hora de se sensibilizar com a desigualdade estrutural profunda que atinge os negros; é hora de denunciar a violência policial; é hora de falar sobre o racismo, sem tabu; é hora de destruir o racismo! Enfim, é hora de apoiar o grito de existência “ Black Lives Matter”, pois Vidas Negras Importam!

 

 

Bruno Antonio Barros Santos é defensor público do Estado do Maranhão


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