Martel Del Colle: Fiz o que um policial tinha de fazer
Sexta-feira, 19 de junho de 2020

Martel Del Colle: Fiz o que um policial tinha de fazer

Imagem: René Ruschel – Edição: Gabriel Pedroza / Justificando

 

Por Martel Alexandre Del Colle

 

Passei por momentos muito difíceis. Vivi muitos dias de confusão. Depois do meu primeiro texto eu resolvi fazer mais alguns. Escrevia porque isso me fazia bem. Escrevia porque eu queria dar alento a outros policiais que estavam enfrentando algum problema psicológico. Escrevia porque queria fazer a constituição ser cumprida e trazer força aos policiais para que eles se vissem como importantes. E, por fim, escrevia porque eu queria deixar algo para mundo no caso de eu ir embora.

 

Sim, pensei em suicídio algumas vezes. Algumas vezes vi tudo à minha volta desmoronar. Senti-me culpado. Perdi o desejo de viver. Fiquei muito confuso, perdi-me e demorei para novamente me achar. Perdi e ganhei amigos. Tomei boas e más atitudes. Chorei até não ter mais lágrimas. Estou muito melhor agora.

 

Depressão é uma doença, mas tem tratamento. É uma doença que pode piorar muito se o ambiente não colaborar. Imagine como é ter depressão e ser transferido de local de trabalho por duas vezes sem motivo plausível, ser chamado pela corregedoria do seu trabalho intempestivamente, responder um procedimento administrativo e ser preso administrativamente, responder um procedimento para te excluir do seu trabalho, ser aposentado com seu trabalho afirmando que não vê relação entre sua depressão e sua profissão, ter seu salário reduzido em 2/3 e responder um processo na justiça militar por escrever textos.

 

Demorei para me reencontrar, mas aqui estou. Não voltei aonde estava, eu fui para a frente. E hoje sei que EU FIZ O QUE UM POLICIAL TINHA DE FAZER. Não me arrependo e tenho orgulho do que fiz. Um policial ao ver uma situação que possa trazer dano ao seu povo deve agir. E eu agi. Quando escrevi eu sabia que teria consequências. Não imaginava algo tão grave, mas sabia que haveria consequências. Mas não podia me eximir. Eu sabia quem era Jair Bolsonaro e o que ele faria com meu povo. Então eu tinha de fazer algo. Fui convidado a escrever um texto e aceitei o desafio. Sentei-me em frente ao meu computador e comecei a escrever. Poderia ter apenas falado que sou um policial e que não votaria em Bolsonaro, mas sabia que isso não seria o suficiente. Eu precisava causar reflexão. Como poderia fazer que as pessoas vendadas conseguissem ver? Precisava de um texto que se difundisse. Então eu fiz um texto que era muito mais do que um texto contra a eleição de Bolsonaro. Era um texto que misturava a eleição, a tristeza pela perseguição que sofria no trabalho e um texto que tentava mostrar que somos todos humanos. Esse último argumento eu procurei atingir mostrando que todos erramos. Mesmo os policiais erram, diferente do que alguns pensam. Tentei mostrar que alguns erros não são exceções e só crescem porque alguns policiais tentam sempre dizer que foi mais um caso isolado. Existe uma estrutura que precisa mudar. Uma estrutura que deixou policiais cegos à ponto de permitir que eles apoiassem um genocida para a presidência.

 

Sei que é bobo, mas tem um filme que marcou minha infância. Ele se chama Três ninjas em apuros. Nele os pequenos ninjas aprendem uma lição do seu mestre: seja como as flores, pois as flores não dizem que são bonitas, elas apenas são bonitas. Acho que ser policial é fazer o bem mesmo quando ninguém vê, mesmo quando você é incriminado por isso.

 

Sim, ainda desejo ser policial, e serei mesmo fora da polícia. Aqui no Paraná foi aberto o concurso para a polícia civil e eu vou tentar. Mesmo se eu passar será difícil entrar. Será difícil porque as condenações e processos aos quais a Polícia Militar do Paraná me submeteu podem acabar por me impedir de seguir outra carreira policial. Posso acabar voltando para a polícia militar segundo o artigo 40, parágrafo primeiro, inciso I da constituição federal. Mas a polícia até agora não me chamou para nenhuma revisão. Talvez eles não saibam dessa nova emenda constitucional. De qualquer forma, eu estou preparado.

 

De qualquer forma, eu não controlo tudo que está a minha volta, mas controlo minhas ações. E é aí que eu irei investir minha energia.

 

E continuarei a escrever porque acredito que meus textos podem ajudar. E continuarei a escrever e estudar porque acredito que ainda tenho muito a contribuir a este país. Seja como policial, escritor ou político. Eu contribuirei no que puder e sempre deixarei a cena quando houver alguém melhor para ocupar meu espaço. 

 

Talvez nada disso tivesse ocorrido se Bolsonaro não chegasse ao segundo turno. Mas sacrifício é algo que se faz quando a necessidade aparece, não quando a gente espera. Não podia deixar que elegessem um cara mau sem fazer nada.

 

As recomendações de hoje são o Podcast do Justificando que você encontra no youtube e em outras mídias. E outro cidadão que tem aparecido bastante em entrevistas e tem mostrado uma postura interessante é o Ciro Gomes.

 

 

Martel Alexandre Del Colle tem 28 anos, foi policial militar por 10 anos.


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Sexta-feira, 19 de junho de 2020
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